Livros didáticos passam imagem errada do cerrado

Sempre que se fala em biodiversidade ou meio ambiente no Brasil o que vem à mente é a Amazônia ou a mata atlântica. Quase ninguém se lembra do cerrado, visto como uma região pobre em recursos naturais, composta de árvores retorcidas e poeira. Parte da culpa dessa visão distorcida é dos livros didáticos, revela agora uma pesquisa do biólogo e doutor em ecologia Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril, do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). Bizerril analisou 67 livros didáticos de geografia e ciências, publicados a partir de 1994, destinados às quatro últimas séries (5.ª a 8.ª) do ensino fundamental. O que encontrou foram informações preconceituosas ou equivocadas. "Os livros didáticos mostram a região como um ambiente pobre em animais e vegetais", disse. "A imagem mais difundida é a de plantas mirradas e retorcidas. O que leva a maior parte da população a crer que o cerrado não tem utilidade para o homem." Bizerril constatou que os livros de geografia se limitam a fazer uma descrição simples do cerrado típico e a falar de seu clima, relevo e distribuição pelo território nacional. A ocupação humana na região é desprezada. "Outra falha é a pouca ou nenhuma referência à conservação do cerrado ou ao seu desenvolvimento sustentável." O biólogo brasiliense conclui que os autores procuram destacar aspectos positivos da exploração econômica, como a produtividade da agropecuária. "Há poucas menções a impactos negativos dessas atividades e das políticas de desenvolvimento da região", explicou. "Também não há referências à perda da biodiversidade, nem ao empobrecimento e à compactação dos solos ou à poluição pelo uso de agrotóxicos e ao êxodo rural." Distorções Os livros de ciências pecam pela escassez de informações. "Em 31 livros de ciências que analisei, encontrei apenas sete fotografias de paisagens do cerrado. Quanto à fauna, há imagens de 45 espécies de animais da região, mas os livros não identificam os seus locais de ocorrência nem trazem dados adicionais." Bizerril conclui que essas falhas nos livros didáticos ajudam a manter a região desconhecida e sem interesse para os estudantes. "As pessoas ficam sem saber que o cerrado é o segundo bioma mais importante do País, com 22% do território nacional - só perdendo para a Amazônia", lamentou o pesquisador. "É uma região extremamente importante, composta por diversos tipos de ambientes, como florestas (mata de galeria e o cerradão), savanas (o cerrado típico e a vereda) e campos." Essa importância pode ser medida em números. No cerrado existem mais de 6 mil espécies de angiospermas (plantas com flores e frutos), 800 espécies de aves, 195 de mamíferos e 14 mil de invertebrados como borboletas, cupins, formigas e vespas, o que representa 47% do total desses animais do Brasil. A região abriga espécies inexistentes em outros hábitats brasileiros, como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, a suçuarana, a ema e algumas espécies de papagaios, araras, gaviões e falcões. O artigo de Bizerril será publicado na edição deste mês da revista Ciência Hoje, publicada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Agencia Estado,

02 de maio de 2003 | 09h40

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.