JF Diorio/AE- 3/11/2009
JF Diorio/AE- 3/11/2009

Linhas tortas

Escritor Marcelino Freire analisa redações consideradas boas pela Fuvest

Marcelino Freire*, Especial para o Estadão.edu

30 Maio 2011 | 23h32

Deu um frio no peito. Porque lembrei da época em que fiz cursinho, vestibular no Recife.

 

Digo: do arrepio quando li o tema da redação da Fuvest. A proposta-padrão. Uma dissertação, em prosa, sobre o seguinte tema: o altruísmo e o pensamento a longo prazo ainda têm lugar no mundo contemporâneo?

 

Ave nossa! Não posso fazer uma poesia? Tem de ser em prosa mesmo? Quando a professora me pedia uma redação, eu entregava um poema, desviava do assunto, fugia, pulava para outros parágrafos.

 

Creio que, àquele tempo, eu necessitava afirmar, sei lá, uma personalidade. Um jeito de traquinar a língua. É isto: lendo as redações, me bateu uma melancolia. Parecem escritas por uma mesma pessoa. Ou por um mesmo escritório. Há empresas especializadas no assunto, é isto? Um comércio técnico de textos?

 

Fiquei procurando a pessoa atrás da letra. Todas tão redondinhas, deitadinhas tadinhas. Pareciam dormir sem sonhar. Ih! Já estou fazendo poesia. E ruim. Melhor voltar ao raciocínio: qual?

 

A verdadeira palavra está onde você se enconde. É isto. Fiquei caçando, nas redações, o coração do autor - algo que denunciasse suas preferências, marcas, sinais íntimos.

 

O texto, por exemplo, intitulado Altruísmo na Essência Humana, segue firme, argumenta apoiado em conjunções bem empregadas, vírgulas e matemáticas interrogações.

 

Mas e daí?

 

Sei que os doutores de plantão vão me matar, mas ouso afirmar: prefiro o erro ao acerto frígido. Gosto daquelas redações imperfeitas, que caminham, por fora, em sua lógica. Da escrita escrita por linhas tortas.

 

Creia. É sempre possível despir-se da camisa de força, por incrível que pareça. Eta danado!

 

Nu, aqui e agora.

 

Para o bem de todos. E sem demora.

 

* AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE CONTOS NEGREIROS (PRÊMIO JABUTI DE 2006)

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