Limites para a arte é tema da redação da Fuvest

Limites para a arte é tema da redação da Fuvest

Prova citou a exposição 'Queermuseu' e polêmica instalação com urubus da Bienal de São Paulo de 2010

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2018 | 15h52

SÃO PAULO - Há limites para a arte? Os candidatos classificados tiveram de abordar esse tema na redação da segunda fase da Fuvest, aplicada neste domingo, 7. Mais de 21,7 mil pessoas estavam inscritas para prestar o exame, que aplicará mais duas provas na segunda, 8, e na terça-feira, 9.

Segundo estudantes, o enunciado da redação trouxe quatro textos sobre casos recentes envolvendo as artes visuais. A prova citava a exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença da Arte Brasileira, fechada no ano passado pelo Santander Cultural de Porto Alegre após críticas, a instalação "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, que foi retirada da 29ª Bienal de São Paulo, de 2010, por confinar três urubus, e as obras do inglês Marc Quinn, que utilizou 4,5 litros do próprio sangue na escultura Self.

+++ Em dia chuvoso, 21 mil pessoas participam da 2ª fase da Fuvest

Os participantes ouvidos pelo Estado aprovaram o tema, especialmente porque ele foi bastante discutido durante o segundo semestre de 2017. "Foi mais fácil do que eu estava esperando", disse o vestibulando de Arquitetura Pedro Azevedo, de 18 anos. "Citei o caso do Queermuseu. O fato de ter sido debatido no ano passado favoreceu", aponta. 

Candidato ao curso de Letras, Gustavo Severo, de 18 anos, não abordou nenhum dos três exemplos do enunciado em sua redação. Em vez disso, ele preferiu citar sobre a artista britânica Kim Noble, que retrata os abusos que sofreu em algumas de suas obras e teve uma pintura erroneamente atribuída por internautas à exposição Queermuseu.

"A arte não deveria ter limites, mesmo se fere valores de determinados grupos, mas precisa seguir a legislação", defende o estudante João Negasti, de 25 anos, que utilizou o argumento em seu texto. "Mas, no momento que transgride o que é lei ou norma, a arte não deveria ser tolerada", escreveu.

Já o professor de inglês Diego Ferreira da Silva, de 31 anos, ressaltou que a redação foi "pertinente" porque vai levar o tema para debate também entre os adolescentes que ainda não têm idade para prestar o exame. Vestibulando de Letras, ele defendeu em seu texto que censurar a arte é um crime. "Não podemos limitar a arte. Caso contrário, não é arte, é só uma coisa bonita", comenta.

Na mesma linha, o ex-estudante de Economia Pedro Ramos, de 20 anos, disse ter ficado "bem satisfeito" com o tema. "Escrevi que a arte não deve ter limitação. Afinal, esses temas polêmicos refletem a realidade. Se não for assim, a realidade fica escondida, debaixo do tapete", argumentou ele, que quer cursar Engenharia Mecatrônica. 

Em 2017, os alunos tiveram de escrever sobre o tema "O homem pode sair da menoridade", que envolvia um conceito do filósofo alemão Immanuel Kant. A prova trazia como textos de apoio explicações sobre o conceito e o contexto histórico em que foi elaborado . Segundo o filósofo, a menoridade é a incapacidade do homem de fazer uso de seu entendimento sem ser direcionado por outro indivíduo. 

Prova discursiva. Também nesse domingo,  os participantes responderam a 10 questões dissertativas de português, das quais quatro abordavam leituras obrigatórias da Fuvest: Iracema, de José de Alencar, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, e Mayombe, do escritor angolano Pepetela. As questões da prova também trouxeram textos interpretativos, como dois que citaram o educador Rubem Alves e uma liderança indígena.

Para a vestibulanda de Física Gabriela Silva, de 23 anos, as questões de Literatura foram "muito específicas", o que favoreceu os candidatos que leram os livros. "Só a questão do Claro Enigma, que era mais de interpretação. Já as parte de português achei mais simples", compara.

Já Juliana Amuroso, de 18 anos, que concorre ao curso de Pedagogia, acha que os candidatos que estudaram a partir de bons resumos podem conseguir "enrolar" nas respostas, mas que aqueles que realmente lerem as obras terão uma nota mais alta. 

A Fuvest é a principal porta de entrada para a Universidade de São Paulo (USP), que ainda seleciona 25% dos novos alunos pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Dos candidatos 21 mil inscritos, 19 mil estão aptos a concorrer a 8,4 mil vagas na Universidade de São Paulo (USP), enquanto 2 mil são treineiros. A prova é aplicada em 35 locais no Estado de São Paulo. Segundo a Fuvest, o caderno de questões deste domingo será publicado no site da instituição às 19 horas.

 

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