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Lições do caso Henry: como identificar crianças que sofrem violência

Maioria dos episódios de agressão ocorre dentro de casa; escuta dos pais e relação de confiança com filhos são importantes para perceber problemas

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

O caso do menino Henry, garoto de 4 anos que morreu, provavelmente em decorrência de violência física que sofreu do padrasto, nos permite refletir a respeito de como identificar se crianças, principalmente na primeira infância, sofrem algum tipo de violência. 

Isso é importante porque a maioria dos casos de violência contra crianças ocorre dentro de casa! E o número de casos de morte entre crianças não é tão pequeno, não. De acordo com levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mais de 100 mil crianças e adolescentes (!) morreram vítimas de agressões nos últimos dez anos. Desses, pelo menos 2 mil tinham menos de 4 anos. Não é assustador?

Bem, vamos lembrar quando nasce um bebê. Os primeiros dias em casa costumam ser um sufoco para os pais – principalmente para a mãe – porque eles têm a consciência de que são totalmente responsáveis por aquele ser que não se comunica e depende dos adultos para sobreviver e viver. 

O bebê chora: só chora porque esse é o único recurso que tem para expressar algo: fome, sede, se precisa ser trocado, se quer colo, se tem dor ou se, simplesmente, quer chorar, etc. 

Aos poucos, à medida em que se cria um vínculo estreito entre a mãe – e o pai – do bebê, eles passam a interpretar o choro do filho. “Esse choro é de fome”, “Ah, esse é um choro pra me chamar”, “Nossa, esse choro é de dor”, e assim por diante. É assim que os pais começam a conhecer o filho e essa é uma jornada sem fim, não é?

O choro é, portanto, um sinal de algo e, se os pais escutam verdadeiramente o filho, serão capazes de descobrir o que aquele choro comunica. Acertam sempre? Não. Mas essa estratégia é tão boa que já foi até criado um dispositivo que indica o provável motivo deste ou daquele choro. 

A questão é que, quando o filho começa a se comunicar verbalmente, esse canal ganha prioridade para os pais, que deixam de interpretar e passam a escutar. E escutar não significa, necessariamente, ouvir. Sabemos que as crianças, na primeira infância, vivem mais no mundo imaginário que no real. E é preciso ter cuidado para considerar o que falam pelas palavras.

Uma mãe me contou que a filha, de apenas 3 anos, chegou da escola dizendo, chorosa, que a professora havia batido nela. Ela estranhou porque confiava muito na escola, e foi conversar com a professora. Ouviu que a filha havia precisado de um limite verbal firme por quase morder um colega. Vejam: aquela criança traduziu em palavras o que sentira. 

Outra mãe, num local onde havia outras famílias, disse que o filho vomitava quando se encontrava com um vizinho. Levou a criança a um atendimento de saúde e foi constatado que sofrera abuso. 

Essas duas mães ouviram de fato os filhos e souberam interpretar os sinais que apontaram. Nos fatos noticiados pela imprensa, soubemos que o menino Henry vomitava e tremia ao ver o padrasto, mas esses sinais não foram considerados, lamentavelmente.

Outro ponto importante para proteger os filhos é oferecer condições para que confiem nos pais. Costumamos ouvir muitos pais dizerem que confiam nos filhos pela educação dada a eles. 

Acontece que crianças e adolescentes, quando em grupo, costumam adotar a moral do grupo. Por isso, não confiar nos filhos é ter o bom senso de lembrar que eles nem sempre terão autonomia para agir de modo diferente do grupo. Um pouco crescida, se a criança conta aos pais algo que fez que não deveria ter feito e leva uma bronca, isso pode levá-la a perder parte da confiança nos pais. Primeiro é preciso acolher, apoiar, confortar. E, só depois, fazer a criança arcar com as consequências de seu ato.

* É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

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