Lição de casa com o professor

Mestres e agentes visitam a casa dos alunos para investigar a fundo as dificuldades das crianças

Tatiana Piva, Jornal da Tarde

10 Setembro 2010 | 11h15

Visita da agente escolar Priscila de Oliva foi marcada há um mês: família preparou café da tarde para discutir a vida escolar do garoto Renan, 7 anos

 

Um aluno que nunca faz as tarefas escolares e a professora já não sabe o que fazer para incentivá-lo. Será que ele é apenas um menino desinteressado? Que tal conhecer um pouco mais a realidade dessa criança, como é a sua estrutura familiar, onde mora, descobrir se tem um espaço para fazer suas lições de casa? Então, alguém vai até a casa desse aluno e descobre que, durante o dia, as telhas são arrastadas para que entre um pouco de luz solar porque a família não tem energia elétrica. É por isso a criança não faz as tarefas pedidas pela professora.

 

A história do garoto, que passava por preguiçoso, é uma das muitas que os agentes educacionais do programa A Escola vai para Casa têm para contar. Fruto de uma parceria entre a Secretária de Educação do Município de Osasco e a empresa Planeta Educação, o programa prepara professores e agentes especiais para visitas à casa dos alunos da rede municipal de ensino. “A princípio estamos focados nos alunos dos 1º e 2º anos, mas o objetivo é estender isso para todos”, explica Maria José Favarão, secretária de Educação de Osasco.

 

A ideia é buscar problemas domésticos que possam interferir no desempenho escolar. Em três meses 27 agentes visitaram cerca de 3 mil famílias. “Fazemos de quatro a seis visitas por dia, mas nem todos os pais são receptivos com o projeto”, diz Priscila de Oliva, 29 anos, que não é professora das crianças mas atua como agente. Para essa função, é preciso ter alguma formação na área pedagógica.

 

Elisete Baruel, diretora do programa, que foi trazido pela Planeta Educação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, explica que no exterior o programa também usa a estratégia de aproximação, principalmente no caso dos imigrantes que estudam na Universidade. Aqui, formulários sobre o projeto são entregues aos alunos e os pais têm de preenchê-los. Se desejarem a visita, há um segundo contato por telefone para marcar o encontro.

 

“Na última reunião de pais ela (Priscila) se apresentou a mim e há um mês ligou para marcar a visita de hoje. Meu filho está super ansioso”, conta Graziella dos Santos Cassiano, 30 anos, mãe do aluno Renan Santos Cassiano, 7 anos, da EMEF Professora Elza Carvalho Mello Battiston. A visita foi acompanhada pela reportagem do JT na tarde de ontem.

 

Agentes e professores abordam algumas das seguintes questões: quantas pessoas moram na casa, qual o nível escolar dos pais, existe algum ponto que a família gostaria que melhorasse na escola do filho, o aluno já sabe ler, de que forma os pais incentivam a leitura, como está o desempenho da criança. Tudo isso foi discutido para solucionar o problema de Renan, que sente muita dificuldade para ler letras minúsculas.

 

“Ele só lia letras maiúsculas, mas eu conversei com a professora, sou uma mãe participativa”, conta Graziella. Para a agente Priscila, nessa residência não há grandes problemas. “Enfrentamos situações bem mais adversas”, conta ela.

 

Depois de visitar a residência do aluno, o agente escreve a ‘devolutiva’, uma espécie de relatório no qual constam as observações mais relevantes sobre aquela família e o aluno. “Cada caso é tratado de um jeito, mas vários aspectos são analisados. Por exemplo: o fato de o pai ter ou não um vício, a criança morar em casa de chão de terra, fazendo com que as tarefas dela venham sempre sujas, a falta de espaço em casa para brincar”, enumera Priscila. “Tudo isso é levado em consideração para dar um retorno à escola, de modo que ela consiga proporcionar melhorares resultados para os alunos”, completa.

 

A família também vai à escola

 

Ao contrário do ‘Escola vai para Casa’, o programa ‘Escola da Família’ (criado em 2003 pela Secretaria de Estado da Educação) proporciona a abertura das instituições da rede estadual aos finais de semana, com o objetivo de criar cultura de comunidade, despertar potencialidades e ampliar os horizontes culturais dos participantes. Ele oferece às comunidades atividades que possam contribuir para a inclusão social ligadas ao esporte, cultura e saúde.

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