Liberdade na medida

Poder cabular (ou não) as aulas e descontração de professor de biologia marcaram ex-aluno do Santa Cruz

Felipe Mortara, Especial para o Estado, Estadão.edu

14 Outubro 2010 | 00h28

O ex-aluno do Santa Cruz Fernando Trevisan (à esq.) conversa com o professor Ricardo Paiva no jardim do colégio

 

Quando estava no último ano do ensino médio, o hoje administrador de empresas Fernando Trevisan, de 31 anos, deu de cara com um professor engraçado e mais jovem que a média, que começava a dar aulas de biologia. O então inexperiente Ricardo Paiva, hoje com 51 anos, usava a descontração como arma para estimular as turmas grandes do Colégio Santa Cruz.

 

“Biologia não tinha a ver com a minha carreira nem era o meu tema preferido, mas o formato do curso me interessava. Era uma aula relaxada, descontraída, por isso eu prestava atenção”, conta Fernando, diretor da Faculdade Trevisan. Paiva reconhece seu poder de persuasão. “Gosto de zoar, brinco de cientista maluco. Meu negócio é pegar os que não têm interesse, os não motivados. Tento chamar a atenção desses.”

 

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Durante o reencontro entre os dois promovido pelo Estadão.edu no jardim da escola, o professor lembrou das brincadeiras em classe. “Um dia, na aula do Fernando, sem querer eu fiz um truque com a minha orelha (o professor repete a brincadeira, dobrando a cartilagem da orelha, que de repente volta ao formato normal). A sala toda riu demais disso e queria que eu repetisse o tempo todo”, lembra Paiva. “Isso começou a tomar proporções assustadoras, todas as turmas pediam. Na formatura todo mundo gritava: ‘Orelha, orelha!’ Daí eu decidi parar.”

 

Fernando entrou no Santa Cruz no 1.º ano do ensino médio. Bom aluno, ele se achava um pouco estressado. Diz que a descontração do “Santa”, como a escola é conhecida pelos alunos, o ajudou a relaxar. “Foi importante para a minha formação. Eu era CDF e preocupado. Daí descobri as notas vermelhas, aprendi a lidar com elas e superar. Consegui fazer o meu caminho.”

 

Matando aulas. Fundado em 1952 por padres canadenses no Alto de Pinheiros, o Santa Cruz é conhecido por estimular o espírito crítico de seus estudantes. Na escola, o aluno do ensino médio decide se vai ou não assistir às aulas.

 

“Eu soube aproveitar a liberdade de matar aulas e gerir o meu próprio tempo”, conta o administrador de empresas. “No final, acabei aprendendo que, mesmo não sendo obrigatório, eu tinha que ir.”

 

A convivência com colegas foi outro ponto alto da escola para Fernando. Até hoje ele se encontra todos os meses com um grupo de cerca de 30 amigos para jogar futebol. “Me lembro bem das sextas-feiras, a gente ficava jogando bola à tarde. No Santa, encontrei pessoas muito leais, que se ajudavam.”

 

Responsável hoje por seis classes de 43 alunos cada uma, Paiva confessa que às vezes se confunde com os ex-alunos. “No começo, os mais memoráveis marcam mais, depois parece que as personalidades se sobrepõem.”

 

Paiva também é ex-aluno do Santa Cruz. Reencontra todos os dias na escola ex-colegas que, como ele, viraram professores e alguns dos seus antigos mestres. Outro meio de contato com estudantes que já deixaram o colégio é o Twitter, que usa habitualmente para alertar as classes sobre provas, trabalhos e avaliações. “Queria ser mais próximo de vários deles.”

 

FRASES

 

"Me sinto muito bem aqui. Vejo o quanto foi importante para a minha formação. Deixei de ser tímido e preocupado. Essa liberdade me fez bem"

Fernando Trevisan, ex-aluno

 

"Tive mais de 2 mil alunos. É claro que não dá para lembrar o nome de todo mundo. Ainda cruzo muita gente, mas me relaciono menos do que gostaria"

Ricardo Paiva, professor

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