Gabriela Biló/Estadão
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Leitura profunda e o Pisa

Qualidade da leitura ao longo da vida permite formar circuitos cerebrais sofisticados

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2019 | 05h00

A leitura não é mais como há 20 anos. E a maior avaliação de estudantes do mundo, o Pisa, mudou por causa disso. Os resultados que serão divulgados em 3 de dezembro das provas de leitura, feitas por quase meio milhão de adolescentes de 79 países, vão mostrar quem adquiriu as habilidades necessárias para ter sucesso no mundo de hoje, imerso na cultura digital.

Compreender e interpretar um texto não são mais suficientes para ser um bom leitor, deixa claro a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realiza a prova. É preciso saber analisar e avaliar profundamente. Ter certeza sobre se o que está escrito é verdadeiro, quais as fontes, o que pretende o autor. 

No entanto, ao mesmo tempo, há um paradoxo. Pesquisas científicas têm indicado que justamente o mundo digital está dificultando essa chamada leitura profunda. “O problema é que os ambientes contemporâneos nos bombardeiam constantemente com novos estímulos sensoriais”, escreve a neurocientista americana Maryanne Wolf, autora de O Cérebro no Mundo Digital, lançado há alguns meses no Brasil pela Editora Contexto. “Não vemos ou ouvimos com a mesma qualidade de atenção, porque vemos e ouvimos demais, nos acostumamos e pedimos mais.”

Pesquisas indicam que checamos o celular entre 150 e 190 vezes por dia. No livro, ela conta que um experimento norueguês pediu que metade de um grupo de jovens lesse um conto no Kindle e outra metade, em um livro físico. O resultado mostrou que quem leu no papel reconstruiu melhor o enredo em ordem cronológica do que os leitores de tela. Mesmo assim, Maryanne afirma que “não está ainda esclarecido como tudo isso afeta a compreensão dos estudantes”.

O fato é que a leitura é algo aprendido pelo cérebro, não faz parte das suas capacidades originais. E é a qualidade dessa leitura ao longo da vida que permite formar circuitos cerebrais cada vez mais sofisticados. Fora a capacidade de analisar e fazer referências, uma das consequências mais belas da leitura profunda é a empatia.

“O ato de assumir a perspectiva dos sentimentos dos outros é uma das contribuições mais profundas”, escreve. Isso se vê principalmente na leitura de ficção. “O que acontecerá aos jovens leitores que nunca encontram e entendem pensamentos e sentimentos de alguém totalmente diferente?”, questiona no livro. 

O Pisa, em vez de oferecer um texto para cada pergunta, que não se relacionava com outros e que só tinha a função de fazer com que o estudante respondesse a questão, agora tem o que a OCDE chama de cenários. Vários textos – de literatura, e-mails, blogs, inquéritos policiais, documentos históricos – com temática semelhante estão sendo usados como referência para muitas questões. Os alunos precisam pesquisar informações, relacionar conteúdos, identificar fontes e propósitos. 

É difícil acreditar que os jovens brasileiros tenham se saído bem, na sua maioria, em tarefas elaboradas como essas. Participaram da prova no Brasil 623 escolas, 525 delas públicas, em um total de 17 mil estudantes de 15 anos. Aqui, até a habilidade mais simples está distante da maioria. No ensino médio, só 27,5% sabem Português no nível considerado adequado. 

Infelizmente, devemos continuar entre os últimos lugares do ranking mundial de leitura, como, apesar de alguma melhora, tem se repetido ao longo dos anos. Segundo nos lembra a própria OCDE, ler adequadamente é a base para uma participação plena na sociedade contemporânea. A leitura está associada a melhores condições de saúde e à emancipação do cidadão. Ainda, quem lê bem tem melhores empregos e uma atitude mais positiva em relação às instituições, o que o País tem precisado muito ultimamente. 

* RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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