Cristina Quicler/ AFP
Cristina Quicler/ AFP

Lápis, papel e treino são essenciais à alfabetização

Criança precisa trabalhar coordenação motora fina e cérebro entende palavra como imagem na execução da letra cursiva, diz especialista

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

Digitar em teclados e preencher lacunas em telas passou a fazer parte da rotina escolar mesmo de crianças na educação infantil, nem que seja para se logar em aplicativos. Porém, esses equipamentos não acabam com a necessidade de se usar outras tecnologias humanas, que foram revolucionárias em outra época: papel e lápis. O espaço para o não digital é defendido pela educadora e antropóloga Elvira Souza Lima, tendo como base pesquisas das neurociências.

Elvira explica que o cérebro humano não foi programado pela natureza para ler e escrever. Essas são, portanto, aprendizagens culturais bastante complexas. “Traçar, falar e cantar estão na constituição genética da espécie. Para ler e escrever, o cérebro precisa se reorganizar: existem 17 áreas no cérebro envolvidas no processo de leitura e mais 4 para a escrita”, diz a especialista. 

O papel ganha dos teclados na fase da alfabetização porque inclui a coordenação motora fina no processo. “O movimento é um sexto sentido para o cérebro. Com o movimento de escrever no papel, você consolida melhor as memórias”, explica a pesquisadora. Durante o processo de alfabetização, a cursiva também traz outras vantagens, ao fazer as letras de cada palavra ficarem conectadas. 

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Na cursiva, o cérebro percebe a palavra como uma imagem: são unidades de percepção. Isso influencia na construção do significado
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Outro ponto em que a escrita à mão supera a digitação é que a letra de cada um, por ser única, carrega uma forma de expressão da identidade, o que mobiliza o cérebro para mais aprendizados. “A cursiva envolve mais o sistema emocional. Por isso também que o professor não deve pôr a caneta vermelha no caderno de uma criança. Tem uma pessoa por trás daquela escrita.” 

Menos telas

Mesmo depois do processo de alfabetização, o uso de telas para o aprendizado deve ser feito com parcimônia, recomenda. “A tela cansa, faz a atenção flutuar e ainda interfere no sono. A luminosidade mexe com químicas do cérebro que podem provocar irritação, desinteresse e levar até ao vício”, alerta a pesquisadora. Elvira aconselha os pais, na hora de escolher uma escola para os filhos, a refletirem se as tecnologias são de fato importantes do ponto de vista pedagógico, ou apenas um recurso “mercadológico”, para atrair em função de um discurso de modernidade. 

A pesquisadora ressalta que, apesar de pedir moderação no uso, ela é fã de tecnologias. “Escrevi minha tese de doutorado datilografando, cortando e recortando tirinhas para editar. Lógico que teria sido muito melhor no computador, um equipamento maravilhoso.”

A pesquisadora lembra que mesmo os livros didáticos em papel muitas vezes seguem uma lógica ditada pelos aparelhos tecnológicos e promovem distração. “Estudar tem de ser mais do que preencher quadradinhos. Vejo muito material didático com um monte de cores e informações, no intuito de ser mais motivador. Mas é tanta coisa que o cérebro não dá conta de processar tudo, e a criança se desliga da palavra”, afirma. 

Para o futuro longínquo, Elvira até consegue imaginar não só uma escola, mas toda uma sociedade sem papel, pois o cérebro humano também vai se alterando de acordo com a invenção de novos instrumentos tecnológicos. “Se todo mundo tiver acesso, pode ser que daqui a cem anos tenhamos uma substituição total. Então a humanidade talvez prescinda do papel. Mas, por enquanto, não.”

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