Silvana Garzaro/Estadão
Silvana Garzaro/Estadão

Karnal: 'A escola não pode ser uma ruptura radical com a família'

Para o colunista do 'Estado', é bom que o colégio provoque certo choque, mas não pode ser oposto aos valores que o estudante aprende em casa

Entrevista com

Leandro Karnal, historiador e colunista do 'Estado'

Luciana Alvarez, especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - Historiador e colunista do Estado, Leandro Karnal diz que uma educação pautada na memorização perdeu a utilidade, mas isso não significa permitir que a criança faça só o que quiser. Para pais ansiosos em busca do colégio certo, dá um recado: “A escolha da escola não garante o futuro do seu filho”.

Escolher a escola pensando em preparar o filho para entrar numa boa universidade é um critério válido? 

Para começar, não é possível essa engenharia: vou matricular meu filho aqui para ele entrar em Medicina na USP (Universidade de São Paulo). O ser humano não é um hamster, os filhos não vão cumprir as expectativas dos pais. Na verdade, a função dos filhos é não se adaptar ao desejo dos pais. 

Há modelo para se ter de base para buscar uma boa escola?

Há boas escolas religiosas, militares, públicas, alternativas. Não é possível estabelecer que apenas um modelo é bom. Uma boa escola depende da personalidade do filho. Algumas crianças não se adaptam a muitas regras. Uma escola mais libertária também pode causar dificuldades em crianças que precisem de uma regulação externa maior. 

Quando se visita uma escola, logo se percebe a estrutura física dos prédios, as tecnologias. O que olhar além disso?

Como se avalia uma peça de teatro? O autor fez um texto bom? Os atores atuaram bem? A sala é confortável? Tudo isso conta. Um espaço limpo e seguro é necessário. Mas os envolvidos na escola demonstram seriedade? Estão atentos à mudança? Um bom professor de qualquer nível da educação é um pesquisador. Tem de ler artigos da área, aprender sempre. E não se pode confundir modernidade com máquinas. Uma escola que dá um tablet por aluno pode ser tecnologicamente avançada, mas pode ter um projeto fascista de ensino.

Os valores da família contam?

A escola não pode ser uma ruptura radical com a família. Se minha família é adventista e a escola não, meu filho vai ter provas em horários que a minha religião não permite. Se a família é extremamente conservadora e a escola não, as aulas de ciências e de sexualidade podem provocar um choque. É bom que a escola provoque certo choque. Mas será que os pais estão preparados? 

Independentemente do perfil, há coisas que toda escola deveria ensinar?

Yuval Harari (historiador e escritor israelense) se pergunta: o que podemos ensinar que tenha validade daqui a 40 anos? A resposta é: não sei. Uma educação com base na memorização com certeza não faz sentido hoje. Tudo o que me ensinaram foi superado. Aprendi, por exemplo, a usar o mimeógrafo, que nem existe mais. A escola tem de ensinar curiosidade, autonomia, capacidade de pesquisar, além de dar uma alfabetização sólida em textos e em imagens, para permitir que a pessoa continue se educando.

É comum dizerem que a criança é naturalmente curiosa, mas a escola mata a curiosidade. Uma boa escola é uma que não mate essa curiosidade?

O senso comum diz que a criança é naturalmente curiosa e ela vai sendo direcionada, se conformando ao longo da escolaridade, o que é ruim. Mas isso não deve ser confundido com o “faça o que você quiser”. A criança tem de aprender a dialogar com o conhecimento formal, embora não apenas a seguir a fórmula consagrada. Galileu olhou para Aristóteles e duvidou. Foi um ato de rebeldia. Mas ele foi até a Torre de Pisa, fez experiência e provou suas ideias. Isso pressupõe uma confiança na pesquisa. A escola deve levar a criança a buscar resposta, a entender que a resposta é complexa, e a não responder só de maneira intuitiva. 

Apesar de tantas críticas que recebem, as instituições de ensino continuam relevantes?

Muitos dizem que o conhecimento está todo na internet. Mas quem se submeteria a uma cirurgia feita por alguém que não fez Medicina, mas é muito curioso e assistiu a vários tutoriais na internet? Eu com certeza não. A escola está lutando muito para encontrar um novo caminho. Nós, professores, que fomos educados para o conteúdo, ainda não sabemos que caminho é esse. Mas discordo de uma leitura bipolar. Vejo alunos que escrevem contra a escola e esquecem que só escrevem porque foram alfabetizados na escola. 

O momento de escolher a escola pode despertar muita ansiedade. O que diria a pais nervosos com isso?

Diria que a escolha da escola não é irrelevante, mas também não é decisiva. Faz diferença se os pais expõem o filho à diversidade cultural e geográfica, se têm livros em casa, se conversam e estimulam a riqueza vocabular. Mas nem os pais, nem a escola, condicionam em 100% o futuro da criança.

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