Kalil e o imperador da cardiologia

Especialista cuida do coração de Lula reencontra seu mestre Fulvio Pileggi, que ajudou a criar o Incor

Carolina Stanisci, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Outubro 2009 | 01h18

O cardiologista Roberto Kalil lembra quando seu ex-professor Fulvio Pileggi passava pelos corredores do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. "Todos comentavam: ‘Chegou o doutor Pileggi.’ As pessoas tinham respeito por ele. Era mágico", afirma Kalil, que cuida do coração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice, José Alencar.   O cardiologista dos famosos nunca deixou de se aconselhar com quem, em suas palavras, é o "o todo-poderoso" e "o número 1". "Ele é uma espécie de imperador da cardiologia", disse durante o encontro entre os dois promovido pelo Estadão.edu.   "Só falta você dizer que eu sou um imperador como o Adriano", diverte-se Pileggi, palmeirense roxo, referindo-se não ao descendente de colonos que governou Roma, mas ao atacante do Flamengo.   Mestre de Kalil e de toda uma geração de cardiologistas, Pileggi ergueu, ao lado de Euryclides Zerbini, Luiz Décourt e outros, o Incor, centro de excelência do País no tratamento de doenças do coração. Comandou o instituto por décadas, primeiro como diretor científico, depois como diretor-geral. Aposentou-se compulsoriamente em 1997, aos 70 anos. Kalil é sobrinho de Pileggi "por afinidade": seu pai é irmão da mulher do médico. Na Medicina, o caminho dos dois se cruzou em meados da década de 80, quando tanto o Incor como o "doutor Pileggi" já eram consagrados. Formado pela Universidade Santo Amaro (Unisa), Kalil fez residência no instituto entre 1987 e 1989. No final do período, ouviu do então diretor do Incor para "sumir" e fazer "carreira fora do Brasil".   "Fiquei com um misto de revolta e medo. Revolta, pois não fui contratado como alguns colegas meus foram. E medo, porque não sabia o que aconteceria no meu futuro", diz. Mesmo contrariado, Kalil fez o que repetiria muitas vezes depois: acatou o conselho do mestre. Seguiu para um estágio no Departamento de Cardiologia do Johns Hopkins Hospital, em Baltimore, Estados Unidos.   Descendente de italianos, de humor instável, o ex-diretor do Incor ficou conhecido pelo seu estilo pouco burocrático – a porta de sua sala vivia aberta. "Ninguém marcava hora para falar comigo", confirma. A relação com os aspirantes a cardiologistas era franca. Ele dizia que mandaria para a rua o residente que não tratasse bem um paciente pobre.   Pileggi, de 82 anos, é seco ao comentar o sucesso do ex-residente: "Para se vencer na vida, é preciso estudar e trabalhar. Ele venceu, então não preciso dizer mais nada."   Kalil, de 50 anos, hoje diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês e professor do Incor, lembra de muitas histórias protagonizadas por Pileggi. Como no dia em que, em meio a rumores de greve, 30 residentes entraram na sala do diretor. Depois de ouvir algumas piadas e sofrer um tiquinho de pressão de Pileggi, saíram de lá com os ânimos desarmados e decididos a não aderir à paralisação. "Ele sabia, como ninguém, resolver as situações."   Quem não aguentava conviver com as mortes dos pacientes ouvia do diretor: "Vá fazer balé!" Mas, se a barra pesava demais para os residentes, Pileggi também acolhia, dava colo. "Eu dizia assim: Você fez tudo o que podia pelo paciente, certo? Então vai para casa descansar, filho", lembra.   As melhores lições, diz Kalil, eram as aprendidas no dia a dia. Como a da paciente cuja febre alta não cedia. "Ninguém entendia o que estava acontecendo", conta. Uma junta de médicos e residentes se formou ao redor da mulher. "O doutor Pileggi entrou no quarto e disse: ‘Levanta o lençol. Estão vendo isso? É gesso. Tirem já esse gesso, pois ela está com uma infecção na perna.’" Pileggi estava certo.   Outro caso que marcou Kalil começou com as suspeitas de uma manicure. Ela estranhou o comportamento de uma cliente e sugeriu que procurasse um médico. Na primeira avaliação, Kalil não conseguiu detectar nada de importante. "Quinze dias depois, o doutor Pileggi me chama em sua sala e diz: ‘Essa paciente que não tinha nada tem um tumor na cabeça.’"   Esse cuidado com o paciente Kalil diz ter carregado pelo resto da vida profissional. "Fiquei com a paranoia do bem, de examinar tudo. Qualquer dor acima do umbigo você tem que descartar a possibilidade de ser doença coronária." Kalil diz que a maior lição passada aos residentes por Pileggi é a de que, para se tornar um clínico cardiologista, é necessário ser um bom clínico-geral e saber escutar o paciente, para monitorar o que está acontecendo. "O doente sempre tem razão quando se queixa", afirma Kalil.   Para Pileggi, que se interessou pela especialidade durante uma aula de eletrocardiografia, a arte de ouvir tem sido negligenciada: "É a tecnologia, a aparelhagem, isso e aquilo. Mas se esquecem desse item fundamental." Pileggi brincou com os elogios rasgados de Kalil, mas não esconde que tem orgulho de sua carreira. "Ajudei a formar muita gente", afirma o ex-diretor do Incor, que ainda atende em seu consultório. "Alguns pacientes envelheceram comigo. Não posso abandoná-los."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.