Julio de Mesquita Filho e a opção europeia

Julio de Mesquita Filho foi incumbido de coordenar o recrutamento de professores europeus, notadamente franceses, pois comentava abertamente que os brasileiros ainda não tinham qualificação suficiente para tal

José Alfredo Vidigal Pontes,

24 Janeiro 2014 | 00h03

Derrotado pelas armas da ditadura na Revolução Constitucionalista de 1932, Julio de Mesquita Filho, diretor de redação de O Estado de S. Paulo, retomou suas preocupações com a educação no Brasil, as quais o afligiam havia muitos anos.

Como testemunhou o sociólogo e educador Fernando de Azevedo: "Com Armando Salles no poder e Julio de Mesquita Filho na direção de O Estado de S. Paulo, pareceu-nos ter chegado afinal a oportunidade de criar a Universidade de São Paulo e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que seria integrada no sistema. Julio de Mesquita e eu lutávamos por isso desde 1923 (...)".

No livro A Crise Nacional, publicado em 1925, Julio de Mesquita Filho observava a respeito da necessidade de uma universidade: "Sem o concurso dessa instituição secular a que a humanidade deve a melhor de suas conquistas, inútil se torna qualquer esforço no sentido de conseguir nossa emancipação definitiva. Ao mais superficial observador não escapará, realmente, a insuficiência intelectual das chamadas classes cultas do país".

Julio de Mesquita Filho foi incumbido de coordenar o recrutamento de professores europeus, notadamente franceses, pois comentava abertamente que os brasileiros ainda não tinham qualificação suficiente para tal - educado em Genebra, ficou horrorizado quando entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo. Para a empreitada recorreu ao auxílio do psicólogo George Dumas, professor da Sorbonne de quem se tornara amigo anos antes.

Dumas destacou-se como educador e era um entusiasta da modernização acadêmica, tendo feito visitas frequentes ao Brasil desde 1907. Sua ideia de universidade "orgânica" influenciou muito Julio de Mesquita Filho em seu conceito de interdisciplinaridade: "Uma universidade não era nem podia ser uma simples justaposição de faculdades e institutos".

O professor Teodoro Ramos foi enviado a Paris para encontrar-se com Dumas e proceder à contratação daqueles brilhantes jovens professores indicados pelo francês: Fernand Braudel (História), Claude Lévi-Strauss (Antropologia), Roger Bastide (Antropologia), Pierre Monbeig (Geografia), Jean Maugüé (Filosofia), Pierre Houcarde (Literatura) e Paul Hugon (Economia), entre outros. Em seguida, viriam também o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, professor de Italiano, o renomado gramático e professor Fidelino de Figueiredo (Português) e René Courtin (Literatura), que se destacaria depois como um dos fundadores do jornal Le Monde e secretário de Estado do general De Gaulle.

A vinda de uma geração tão brilhante foi facilitada pelas dificuldades enfrentadas pelos jovens professores franceses e europeus na ocupação de espaço nas seculares universidades, ainda presas ao antigo sistema de cátedras, o qual tornava lenta a renovação do quadro docente. Esse sistema só seria revisto a partir de 1968, e foi um dos alvos preferidos das manifestações de maio daquele ano no Quartier Latin.

A influência deixada por essa geração marcou definitivamente a atmosfera acadêmica no Brasil, projetando-a para um patamar mais elevado. Na cultura em geral a repercussão foi enorme. O primeiro texto sobre índios brasileiros assinado por Lévi-Strauss foi no Suplemento em Rotogravuras de O Estado de S. Paulo, em 1935. O jornal o enviou ao norte do Paraná para fazer um artigo com índios aculturados. Grande também seria sua influência na geração seguinte de alunos brasileiros reunidos no Grupo Clima e, posteriormente, no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, do qual faziam parte Antonio Candido e Décio de Almeida Prado.

É CURADOR DO ACERVO CULTURAL DO GRUPO ESTADO

Mais conteúdo sobre:
USPuniversidadeSão Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.