Reprodução/Facebook
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Jovem é esfaqueado e morto dentro de escola ocupada em Curitiba

Eles teriam discutido após consumir drogas; pais retiram filhos da invasão no PR

Edson Fonseca e Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2016 | 17h48
Atualizado 24 Outubro 2016 | 23h48

Um estudante de 16 anos foi morto a facadas no interior de uma escola invadida, na tarde desta segunda-feira, 24, na zona norte de Curitiba. Lucas Eduardo de Araújo Mota teria brigado com outro aluno após consumir drogas e foi atingido no peito e no pescoço. Segundo a polícia, os adolescentes brigaram por “motivos pessoais”, não tendo a morte relação com o movimento dos secundaristas. O agressor foi apreendido.

A briga teria começado após ambos terem ingerido uma droga sintética no banheiro da unidade. “Segundo relato do menor autor do crime, eles dividiram uma droga que chamam de ‘balinha’. Foram então até o alojamento, onde tiveram uma discussão”, disse o secretário de Segurança Pública do Estado, Wagner Mesquita. 

Segundo ele, Mota teria partido para cima do colega, “de quem era amigo de infância”, que portava uma faca de cozinha no bolso. Os golpes o mataram no local.

O adolescente autor da agressão foi apreendido em casa, ainda no final da tarde desta segunda, depois que investigadores da Polícia Civil interrogaram testemunhas no local. Até as 21h30, três adolescentes testemunhas do caso ainda prestavam depoimento. “O autor alega que tentou se defender com uma faca de cozinha, depois que a vítima partiu para a agressão. Após o crime, ele pulou o muro do colégio e fugiu para casa”, explicou Mesquita.

A mãe da vítima foi avisada da ocorrência no meio da tarde e, chorando, foi ao colégio acompanhar o caso. “Eu vinha buscar ele vivo. Queria levar ele vivo hoje”, disse Alexandra Mota, cujo único filho era Lucas. “Ele era um menino calmo, muito estudioso”, lembrou a amiga da família Solange Souza, que foi ao local confortar Alexandra.

O delegado Fabio Amaro, da Delegacia de Homicídios do Paraná, enfatizou que o caso não tem relação com o movimento dos estudantes. “Não tem nada a ver com a ocupação da escola”, afirmou, ao deixar prédio, no fim da tarde. “Eles usaram droga e brigaram”, resumiu.

No começo da noite, diversas famílias foram ao local, na Rua Bortolo Paulin, no bairro Santa Felicidade, buscar os filhos que ainda participavam da invasão.



Movimento. No fim da tarde, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), divulgou nota lamentando a morte. “A morte do estudante Lucas Eduardo de Araújo Mota é uma tragédia chocante, que merece uma profunda reflexão de toda a sociedade. É ainda gravíssimo e lamentável, porque aconteceu no interior de uma escola ocupada, que deveria estar cumprindo a sua missão de irradiar a luz do conhecimento e a formação da cidadania”, disse.

Com mais de 800 escolas invadidas por estudantes secundaristas no Estado, Richa voltou a pedir o fim das ocupações. “Renovo o meu apelo para que os pais redobrem o cuidado com seus filhos. Peço ainda, mais uma vez, que os estudantes encerrem esse movimento.”

As ocupações de escolas estaduais por alunos secundaristas começaram no dia 6 de outubro. Eles protestam contra a PEC do Teto, que prevê cortes no orçamento da Educação, e também são contra o projeto de reforma do ensino médio do governo federal. Por reajuste salarial, os professores entraram em greve há dois dias. 

Para a professora Anne Marie Zimmerman, que tem dois filhos em duas das escolas invadidas, a preocupação com os meninos é grande. “O clima nos últimos dias ficou muito tenso”, disse, na tarde desta segunda, diante do Colégio Estadual do Paraná (CEP), na Avenida João Gualberto, região central da capital, local da maior concentração do movimento. 

De acordo com estudantes do CEP, manifestantes contrários à ocupação começaram, a partir desta segunda, a tentar forçar a saída de colegas de pelo menos duas escolas da cidade. “Mas o pessoal resistiu”, afirmou um professor que acompanhava o movimento na unidade.

UNE e Ubes temem ‘criminalização’ do movimento

Entidades estudantis emitiram nota nesta segunda lamentando a morte do adolescente no Paraná. A União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e a Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG) disseram se solidarizar com os familiares e com os demais alunos que participam do movimento, que “passam por um momento de muita tristeza e consternação”. 

Os representantes disseram que vão acompanhar as investigações, exigindo “das autoridades competentes atenção e cuidado para que o esclarecimento seja feito com urgência”. As organizações lamentaram a “tentativa de usar o acontecimento para criminalizar os movimentos sociais”.

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