Irã apaga o Ocidente do mapa (escolar)

Projeto elaborado pelo governo conservador de Mahmoud Ahmadinejad quer barrar efeitos da tecnologia sobre uma sociedade cada vez mais laica

Thomas Erdbrink, The Washington Post

05 Janeiro 2011 | 12h02

O Irã está reformando seu sistema de educação para eliminar todos os traços de influência do  Ocidente, na mais recente tentativa do governo de reforçar os valores islâmicos e combater o crescimento da força da classe média do país, cada vez mais  secularizada.

 

A partir de setembro, todos os estudantes iranianos do ensino médio passarão a receber aulas de “treinamento político” e “habilidades de sobrevivência”  contra “movimentos políticos pervertidos”. Nas universidades, o currículo dos cursos de direito, psicologia e sociologia,  entre outros, será alterado. Teorias ocidentais serão substituídas por variações islâmicas.

 

As mudanças têm como objetivo reduzir a crescente influência de uma classe média que cada vez mais adota o individualismo e partilha das aspirações modernas.  Os líderes iranianos culpam em parte a contaminação do sistema de educação do país – moldado por clérigos e ideólogos nos primeiros anos da  Revolução Islâmica de 1979 – pela difusão de tais ideias “ocidentais”.

 

Estudantes, professores e pais expressam o temor de que os planos tenham como único efeito uma interferência negativa nos padrões acadêmicos do  país, considerados bastante elevados. Eles dizem que os três anos de expurgos acadêmicos e curriculares que se seguiram à revolução atrasaram o  desenvolvimento intelectual dos jovens iranianos.

 

Os planos para uma reforma educacional vêm na sequência de amplas mudanças no sistema político do Irã ocorridas nos últimos anos. Muitas figuras  revolucionárias de destaque foram alvo de expurgos, enquanto o poder nas mãos do presidente Mahmoud Ahmadinejad e de um grupo dos principais clérigos e  comandantes da Guarda Revolucionária aumentou desde 2003.

 

Este grupo vê o Irã assumindo um lugar entre os países mais poderosos do mundo e os iranianos como um povo composto por seres humanos exemplares que almejam  a perfeição enquanto promovem a fé, a lógica e a justiça. Tal conjunto de ideias faz deles antagonistas do grande número de iranianos secularizados do meio  urbano que participaram de protestos após a contestada reeleição de Ahmadinejad em 2009.

 

A reforma do sistema de educação prevê que as escolas se transformem em “bases culturais comunitárias”, onde professores ofereçam  orientação “para a vida”, assistidos por clérigos escolhidos e membros da força paramilitar Basij. “Haverá treinamento oficial e educação cultural local”,  disse Hamid-Reza Haji-Babaei, ministro da Educação. O ministério também apresentará cursos para “ajudar” estudantes de  idades entre 12 e 17 anos a desenvolver habilidades de análise política. A ideia é evitar que sejam “aprisionados por movimentos  pervertidos e complôs inimigos ou por canais transmitidos via satélite, pela internet e pelo ciberespaço”.

 

Muitos educadores dizem que os planos têm uma orientação equivocada.  “Medidas de engenharia cultural como estas não funcionarão”, disse Sadegh Zibakalam, professor de ciência política da Universidade de Teerã. “Eles acham que  nas escolas poderão ensinar as crianças a serem criaturas perfeitas, mas se esquecem de que dúzias de outros fatores ajudam a moldar seus  pensamentos.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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