Investimento na pré-escola garante adultos mais prósperos, diz economista

Pesquisa aponta que educação na primeira infância influencia poder econômico na fase adulta

Entrevista com

Bárbara Bretanha, Especial para o Estado

25 Abril 2014 | 02h17

SÃO PAULO - Rodrigo Pinto, economista e pesquisador da Universidade de Chicago. Brasileiro radicado em Chicago, nos Estados Unidos, o economista Rodrigo Pinto, de 35 anos, pesquisa como a educação na primeira infância tem influência no poder econômico na fase adulta. As habilidades adquiridas até os cinco anos de idade, segundo ele, podem fomentar, sim, ganhos mais altos no futuro. Nos últimos dez anos, Pinto desenvolveu trabalhos com James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, de 2000.

Por que um economista pesquisa a educação na primeira infância?

Habilidades adquiridas na infância são usadas para desenvolver outras mais complexas em períodos posteriores. Investimentos precoces podem gerar uma reação em cadeia que fomenta ganhos de capital humano durante o ciclo de vida. Se o economista quer entender a forma mais eficiente de gerar maior renda, saúde e qualidade de vida, é importante pesquisar o impacto de investimentos da infância na vida adulta.

O senhor se refere às habilidades socioemocionais? Como elas afetam o indivíduo se não desenvolvidas?

Escassez de habilidades socioemocionais tem significativo impacto no mercado de trabalho. Em casos mais críticos, a falta dessas habilidades é responsável por diversos problemas sociais – podem afetar a saúde e ainda produzir desvios de conduta, como a criminalidade. Um exemplo ilustrativo consiste nos graduados pelo sistema americano de ensino médio acelerado chamado GED (a versão americana do supletivo). Na média, os alunos GED são mais inteligentes do que os estudantes que abandonaram o ensino secundário e pelo menos tão inteligentes como os graduados do ensino médio que não ingressaram no ensino superior. Mas o desempenho socioeconômico dos alunos graduados pelo GED quando adultos é comparável aos alunos que não completaram o ensino médio. Este fato é explicado por falhas em traços de personalidade associados com determinação pessoal, motivação e cumprimento de regras, consideradas habilidades socioemocionais ou não cognitivas. Outro exemplo é dado por Ron Haskins, do Instituto Brookings. Ele usa dados correlacionados para definir três regras simples de grande influência na determinação da pobreza: concluir o ensino médio; casar-se depois dos 21 e ter filhos apenas após o casamento; manter um emprego de tempo integral. A chance de ser considerado pobre nos Estados Unidos é de apenas 2% se todos estes requisitos forem cumpridos. Curiosamente, essas regras estão intimamente associadas com habilidades não cognitivas, como perseverança e consciência.

Então não basta investir apenas na educação formal, cognitiva, na pré-escola?

Maiores investimentos em educação são habitualmente defendidos como a solução universal. Muitas vezes, essa concepção é equivocada. Considere o gasto em educação dos Estados Unidos. Os EUA atualmente investem mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de US$ 1 trilhão, em educação. É o segundo pais que mais gasta com educação per capita no mundo e, em termos reais, o custo por aluno americano mais que dobrou desde 1970. Porém, os índices do Program for International Student Assessment (Pisa), que mede o aprendizado em matemática e leitura permanecem inalteráveis. Não só isso. Os índices de graduação no ensino médio têm apresentado declínio. O desafio não é investir no ensino secundário formal para remediar as defasagens geradas por uma educação de primeira infância inapropriada, mas investir com eficácia. Para melhoria da eficiência nos gastos educacionais, é importante examinar como e onde investir, em vez de quanto.

O senhor critica o modelo educacional atual, que enfatiza habilidades cognitivas e avaliações. O senhor o considera ineficaz?

O alvo da crítica não é o processo de avaliação em si, mas a cultura de grande ênfase no desempenho de testes escolares. Testes são ferramentas de incentivo ao estudo e são usados em todos os sistemas educacionais modernos. Alguns sistemas educacionais usam parâmetros restritos no ingresso à universidade. Os Estados Unidos, por exemplo, usam muito a pontuação do teste SAT, que mede principalmente o pensamento abstrato em detrimento ao conhecimento adquirido. O método americano negligencia habilidades úteis ao mercado de trabalho, como competências associadas ao compromisso e esforço pessoal. O Brasil tem um sistema melhor de ensino no sentido de que exige do aluno um grande volume de conhecimento. Consequentemente, o vestibular não só mede capacidade cognitiva, mas também autodisciplina e ética de trabalho. Testes de conhecimento podem ser ferramentas de mobilidade social caso alunos de distintas classes sociais tenham acesso ao ensino de qualidade. Se assim for, testes constituem ferramentas meritocráticas de incentivo ao esforço e valorização da inteligência em todas as classes sociais.

Em sua pesquisa o senhor argumenta que a educação na primeira infância pode ser usada como estratégia de desenvolvimento econômico. Como isso acontece?

O investimento na primeira infância é uma das raras políticas públicas que é eficiente e ainda reduz a desigualdade. Intervenções na primeira infância podem ser usadas como uma ferramenta poderosa para reduzir uma gama de problemas sociais como crime, desemprego, baixa renda e comportamentos de risco. Em um artigo recente na revista Science, também demonstramos que o investimento na primeira infância promove saúde na fase adulta.

Dá para mensurar o retorno desse investimento?

O presidente Barack Obama fez um apelo para a adoção da pré-escola universal. Ele citou nossa análise de custo-benefício do Programa Perry (High Scope), na qual demostramos que cada dólar que investimos na educação de alta qualidade na primeira infância pode economizar $7 mais adiante por aumentar os índices de graduação, reduzir a gravidez na adolescência e até mesmo crimes violentos. O Programa Perry foi um experimento social da década de 1960, baseado em uma intervenção de alta qualidade na primeira infância a crianças economicamente desprivilegiadas.

A desigualdade educacional gera desigualdade de renda? Sim. Historicamente, o Brasil apresenta uma das altas taxas de desigualdade de renda do mundo. Parte dela é explicada pela desigualdade educacional. Em 2011, apenas 12% da força de trabalho têm diploma universitário. Este índice é de 31%, nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD). Além disso, entre todos os países industrializados da OCDE, o Brasil tem a maior diferença de renda entre o trabalhador universitário e o de ensino médio. A maioria dos países tenta solucionar esse problema dando maior estimulo à empréstimos estudantis. O sistema de empréstimo estudantil gera mobilidade ascendente e aumento de receitas – pela renda futura dos alunos. Em muitos países o Estado tem papel de fiador de última instância, reduzindo as restrições para a liberação de crédito educacional pelo setor financeiro.

O adulto que não teve essas habilidades desenvolvidas na primeira infância tem como correr atrás do prejuízo?

Plasticidade cerebral é a capacidade do cérebro de redesenhar suas conexões sinápticas em resposta a estímulos ambientais. Quanto maior for a plasticidade do cérebro, mais rapidamente uma habilidade pode ser adquirida. Essa capacidade está presente em toda vida. Entre 0 a 5 anos de idade, porém, o cérebro passa por mudanças mais velozes. Com o passar dos anos, essa plasticidade diminui. O cérebro adquire e armazena informações durante toda a vida, mas, com a idade, esse processo torna-se mais custoso em termos de atividade mental. A literatura científica mostra a existência intervalos específicos quando a aquisição de determinadas habilidades é máxima. Alguns acontecem mais tarde, como o conhecimento matemático, e outros, mais cedo, caso do aprendizado da linguagem. Um bom currículo de primeira infância é aquele que adequa estas janelas de investimento ao conteúdo administrado.

O que seriam exatamente as intervenções precoces que o senhor cita em seus estudos? Intervenções precoces baseiam-se em dois componentes: um centrado na pré-escola, época em que a criança aprende o conteúdo curricular elaborado para a primeira infância, e outro centrado na família, que é ensinada a interagir com as crianças e a melhorar a competência de mentor. Algumas intervenções, como a Nurse Family Partnership, nos Estados Unidos, também têm um forte componente na área de saúde, na qual as crianças e os pais tem acesso a serviços médicos e nutricionais. Uma intervenção precoce bem sucedida é baseada em três pilares: o momento da intervenção, a população alvo e um currículo eficaz. A intervenção Perry, por exemplo, foi baseada no currículo do High Scope e visou crianças, de 3 a 5 anos, em situação de alto risco socioeconômico. O currículo High Scope tem um forte componente chamado de função executiva (crianças planejam, desenvolvem e reavaliam atividades em classe) entre outras habilidades socioemocionais.

Como as intervenções geram maior retorno econômico? Em um artigo recente na American Economic Review, mostramos que a intervenção Perry não teve efeito substancial em habilidades cognitivas. Aos 10 anos de idade, o grupo de controle e tratamento não apresentavam diferenças de QI. Aumentos significativos em capacidade cognitiva são raros nesta literatura. Entretanto, entre crianças de 6 a 10 anos, a intervenção Perry gerou aumento substancial em diversas habilidades não cognitivas, que desencadearam impactos positivos durante o ciclo de vida dos participantes. Quando alcançaram idade entre 20 e 40 anos, foram registrados efeitos como rendas maiores, menor incidência criminal, maior empregabilidade, melhor estrutura familiar, maior escolaridade.

No ano passado, o governo do Rio trabalhou com a OECD para desenvolver a Avaliação Nacional de Habilidades Sociais e Emocionais ou Não Cognitivas. O senhor acha que esse tipo de avaliação é uma boa alternativa? A iniciativa de avaliar habilidades não cognitivas é uma abordagem importante e bem intencionada. No entanto, não é uma ferramenta eficaz para promovê-las. Os alunos podem simplesmente dar respostas falsas. Abordagens mais eficazes combinam o ensino destas habilidades e a possibilidade de exercê-las. Acho eficiente, por exemplo, a dobradinha de estágios assistidos e cursos profissionalizantes, onde adolescentes são inseridos em um ambiente de trabalho que promova o desenvolvimento de ética profissional. Vários países como Áustria, Alemanha e Suíça promovem programas como esse.

A intervenção precoce é suficiente para superar a lacuna educacional gerada entre crianças pobres e ricas?

Intervenções na primeira infância são especialmente úteis para retirar famílias desfavorecidas da pobreza. Intervenções bem projetadas, visando grupos particularmente desfavorecidos da sociedade brasileira, são suscetíveis a gerar efeitos substanciais nas vidas das crianças durante a fase adulta. Além disso, a eficácia econômica pode ser superior aos índices observados nos EUA, dado que o Brasil enfrenta os níveis de pobreza e de desigualdade mais altos.

O investimento na pré-escola é válido mesmo que não exista um sistema educacional sólido e bem estabelecido no ensino médio e fundamental?

Habilidades na idade adulta são geradas por investimentos escolares e familiares desde a infância até a adolescência. A pergunta que devemos responder é se o padrão de gastos com educação durante o ciclo educacional é eficiente ou não. Nossa pesquisa mostra que a intervenção de alta qualidade na primeira infância funciona para as crianças em desvantagem econômica. Investimentos em infância primária podem gerar retornos significativos mesmo no caso do sistema de ensino não ser ideal nas fases posteriores do ciclo escolar.

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