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Interesse em vestibular de meio de ano se mantém em alta, dizem instituições

Apesar do momento turbulento vivido com a pandemia, inscrições se mantém na média de candidatos e, em alguns casos, até aumentam

Alex Gomes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2020 | 17h02

Para as instituições de ensino superior, como em vários outros segmentos da sociedade, os efeitos da pandemia têm sido ásperos. Altos índices de evasão e inadimplência resultaram em demissões em massa de professores pelo País. Mas, em meio a turbulência, há um movimento positivo: instituições de ensino constataram a manutenção ou até aumento de inscrições em seus vestibulares no meio de ano.

O Insper, que pela primeira vez adotou um vestibular totalmente online, viu os números finais de candidatos aumentarem em 9% em relação ao ano passado, com a maior procura no curso de Engenharia de Produção. Já o Mackenzie manteve praticamente inalterada a demanda, o que surpreendeu a escola. “Esperávamos uma redução na procura entre 20 a 30%. Assim, frente a nossas expectativas que tínhamos, consideramos a procura muito boa”, afirma Milton Pignatari, coordenador do vestibular. 

Para os especialistas, essa procura por formação acadêmica reflete a preocupação do cidadão brasileiro com a empregabilidade. Em um panorama econômico nebuloso, com estimativas de desemprego que podem alcançar uma taxa média de 17,8%, conforme projeção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado em abril, ter um curso superior pode ser uma garantia de se manter ativo.

“Por meio de análises, nós constatamos que o risco de alguém com um diploma de graduação ficar desempregado é 54% menor”, diz Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp).

Quando se pensa em remunerações mais vantajosas, ter uma graduação no currículo continua uma ótima vantagem: pode-se ganhar 140% a mais de quem somente concluiu o ensino médio, segundo o relatório Education at a Glace, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Hi-tech. Mover esforços de todos os tipos para manter e expandir a demanda em tempos de pandemia não é o único desafio das instituições de ensino superior. Entre as várias mudanças que se viram obrigadas a fazer, modificar o formato dos vestibulares é uma das mais complexas. Se garantir a lisura no processo de execução das provas quando essas são realizadas no espaço físico da universidade já requer uma rigorosa lista de medidas de monitoramento, o que fazer quando o candidato está a distância com uma multiplicidade de recursos disponíveis para dar aquela ajudinha nas respostas?

Grande parte das instituições de ensino optou por simplesmente cancelar seus vestibulares e considerar apenas notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), chegando a avaliar resultados de até dez edições passadas. Outras, no entanto, decidiram aplicar seu processo seletivo a distância e, para isso, tiveram de criar verdadeiras provas hi-tech. 

A Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) foi uma das instituições de ensino pioneiras na realização do vestibular online, ocorrido em 14 de junho. Acostumada aos formatos tradicionais de aplicação de exames, a instituição teve de implantar uma extensa relação de medidas de acompanhamento e controle que poderia causar inveja a instituições como bancos e outras acostumadas a vigilâncias severas.

De início, foi necessário que o candidato utilizasse um computador devidamente adaptado ao protocolo predefinido, que consistia em possuir câmera e microfone, um navegador seguro e um sistema de monitoramento remoto no qual todos os movimentos na tela eram acompanhados por um fiscal.

Quaisquer outras ações no computador, como consulta à internet ou acesso a aplicativos, eram previamente desabilitadas. E o sistema da Faap também era capaz de reconhecer a presença de qualquer dispositivo conectado ao computador, como um outro projetor por exemplo.

Em relação ao ambiente, foi exigido que fosse um local calmo e silencioso. Assim, caso alguém estivesse sussurrando respostas ao candidato, o som seria imediatamente percebido pelo fiscal remoto. E, para reforçar a fiscalização, o sistema utilizou inteligência artificial capaz de detectar presença de pessoa e equipamentos como celulares por perto, além de acompanhar o comportamento e olhar do candidato. 

Entretanto, ainda há questões que exigirão aprimoramento, como a necessidade de interrupção para necessidades fisiológicas. Quem precisava ir ao banheiro tinha de pedir autorização do fiscal. Por tratar-se de um momento em que, em tese, um parente ou amigo de quem faz a prova poderia passar alguma informação, a duração da interrupção era de no máximo três minutos, para justamente coibir possíveis conversas paralelas. E sempre pairava uma ameaça: no retorno, caso fosse notada alguma evidência de trapaça, a prova poderia ser sumariamente cancelada.

Mesmo complexo, o novo vestibular da Faap foi bem recebido e será continuado.

“Foi uma experiência tão boa que já avaliamos manter o formato e incrementar o modelo. A demanda foi da ordem de 20% menor do que o processo tradicional do ano anterior, no mesmo período, mas acima das expectativas iniciais, em função do cenário de pandemia e da forma remota que adotamos”, explica Rogério Massaro Suriani, assessor acadêmico da faculdade.

Conversão. A boa procura pelas vestibulares de meio de ano anima as universidades, mas ainda resta a angústia de saber se os candidatos aprovados irão efetuar suas matrículas. “Pelo que estamos acompanhando de resultados econômicos, havia sido desenhado um cenário bem caótico para as instituições de ensino. Porém, ao conversarmos com os candidatos, apesar de toda a dificuldade que estão passando, eles afirmaram que ainda pretendem estudar no próximo semestre”, explica Gustavo Gonçalves, CEO da Mkt4edu, uma empresa de marketing educacional.

Uma pesquisa desenvolvida pela Mkt4edu que ouviu 5 mil inscritos em processos seletivos de cursos superiores apontou que 65% pretendem se matricular a partir dos resultados dos vestibulares de julho. Dos 35% restantes que não pretendem se matricular em 2020, somente 6% desistiram de estudar. O restante mantém o interesse, só adiou o início.

“Para as instituições de ensino, a lógica de prestação de serviço é neste momento estar junto dos seus consumidores e potenciais clientes. É tentar ser empática e oferecer soluções que viabilizem ou minimizem os efeitos da covid-19 na vida destas pessoas. É estar ao lado dos alunos, escutar o que eles precisam e tentar atender dentro de suas possibilidades”, conclui Gonçalves.

Com a covid-19, sobem evasão e inadimplência

Segundo a terceira edição da pesquisa Cenário Econômico Atual das Instituições de Ensino Superior Privadas, publicada em junho pelo Semesp, em maio a inadimplência no pagamento de mensalidades teve um salto de 51,7% em relação ao mesmo mês em 2019. Além disso, a entidade estima que a taxa anual de inadimplência deve chegar a 11,3% até o fim de 2020, que representa um recorde desde o início da medição, em 2006.

“O que as instituições de ensino têm feito é chamar os alunos para renegociar as dívidas, caso a caso. Não se pode propor soluções como descontos de mensalidade para todos, pois tanto há aqueles que não precisam como outros para quem um abatimento como de 30% não é suficiente”, afirma Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp. 

O especialista defende que se busque soluções como parcelamentos ou créditos educativos, nos quais as dívidas possam ser pagas após a formatura. Outro ponto, acrescenta, deve ser a garantia de que o planejamento de aulas será executado ou a formulação de uma alternativa que dê segurança ao aluno. “Quem depende de aulas práticas ou laboratoriais pode achar que não conseguirá tê-las. É preciso deixar claro como tais aulas serão feitas ou, caso não possam, formas de evitar ou restituir a cobrança pelas disciplinas.”

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