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Inteligência artificial

Algoritmos estão sendo usados para prever alunos que podem reprovar na escola

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h00

Quando se fala em Inteligência Artificial e algoritmos, logo se pensa naquela recomendação que aparece nas redes sociais para comprar algo, imediatamente depois de uma pesquisa sobre assunto correlato. E você pensa: como o computador adivinhou que estou atrás disso? Ou em robôs fazendo mais e melhor o nosso trabalho. Mas a mesma tecnologia já é usada para evitar a evasão de estudantes, a reprovação em escolas e para fazer crianças aprenderem mais.

Um programa da rede municipal de Bombinhas, em Santa Catarina, permite que os professores saibam no começo do ano quais alunos têm mais chances de reprovação em dezembro. E ainda quais apresentam mais risco de abandonar a escola em breve. Os docentes recebem um alerta assim que o robô identifica o sinal de perigo. 

O robô, no caso, não é aquele ser metalizado que aparece no cinema fazendo coisas sobre-humanas. É, na verdade, a própria programação de dados, os algoritmos. A ferramenta desenvolvida por uma empresa de Criciúma, a Betha Sistemas, em parceria com Amazon Web Service (AWS), é alimentada com diversos dados históricos sobre estudantes de Bombinhas. Entre eles estão: idade, se o aluno já foi reprovado alguma vez, faltas, notas e até se o estudante tem plano de saúde ou usa transporte público. E indica quais deles, nos últimos dez anos, foram reprovados ou evadiram. 

Assim, o robô “aprende” qual é o perfil do aluno de Bombinhas que, ao longo dos anos, não se deu bem. Ele estabelece um padrão e passa a usá-lo com os estudantes atuais. Em um exemplo hipotético, ele estabelece que quem repete de ano falta a 40% das aulas, tem notas abaixo de 5 e vai à escola de ônibus. Segundo a Betha Sistemas, há 95% de acerto. E, assim, toda vez que o robô percebe um aluno com aquele padrão, o professor é avisado. 

A intenção é que a escola intervenha o mais rápido possível para impedir o mau resultado da criança, com atividades pedagógicas, psicólogos e participação dos pais. Essa modernidade começou em 2019 em Bombinhas e já diminuiu em 20% a evasão. 

O programa é finalista de um prêmio internacional da Unesco sobre Inteligência Artificial aplicada à Educação. A organização tem se dedicado ao tema e declara em seus documentos que a tecnologia pode melhorar muito a maneira de ensinar e aprender. Em um termo de consenso assinado por 50 países, em 2019, a Unesco também deixa claro que ela deve ser usada para inclusão na educação. E não para promover o preconceito e a estigmatização que podem vir dos algoritmos. 

A preocupação é legítima. Reportagem publicada pelo site independente americano Hechinger Report, especializado em educação, mostrou que 1,4 mil universidades americanas já usam algoritmos para determinar com antecedência os alunos que terão dificuldades acadêmicas. E muitas delas acabam indicando um curso mais fácil para esses estudantes. Dados como cor e origem social estão entre os considerados para formar esse perfil. 

Críticos afirmam na reportagem que há o risco de desigualdades serem aprofundadas, já que esse grupo será direcionado para cursos menos atraentes e com menos possibilidade de ascensão social. Ou seja, o robô acaba impedindo que um estudante negro e pobre, por exemplo, que poderia ser uma exceção em um grupo vulnerável deixe de ser essa exceção.

Essas e outras questões éticas da inteligência artificial, como também a privacidade dos dados, precisam ser mais e mais discutidas. Principalmente em um país tão desigual como o nosso, em que os mais pobres estão sempre nas piores escolas. A tecnologia futurista deve ajudar nossas crianças mais vulneráveis a vencer. Caso contrário, melhor ficar no passado, que já está difícil demais. 

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E  FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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