Instituições querem mais autonomia na segunda fase do Ciência sem Fronteiras

Entre 2015 e 2018, mais cem mil alunos serão enviados ao exterior; MEC ainda não detalhou como funcionará o programa

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2014 | 03h00

Para a segunda fase do Ciência sem Fronteiras (CsF), as instituições querem mais voz na escolha dos destinos dos intercambistas para consolidar parcerias estratégicas e a própria internacionalização. A nova etapa do programa, anunciada pelo governo federal em junho, pretende enviar 100 mil alunos ao exterior entre 2015 e 2018. Outro passo necessário, de acordo com especialistas, é ampliar o controle sobre o desempenho dos bolsistas.

Na primeira edição, os acordos com universidades estrangeiras e editais de convocação ficaram a cargo das agências federais de fomento. O Ministério da Educação (MEC) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão responsável por coordenar o programa, não detalharam como será o novo formato e afirmaram que os ajustes para o CsF 2 ainda estão em discussão.

Segundo gestores de relações internacionais ouvidos pelo Estado, a promessa do governo é de gestão partilhada, com mais autonomia para as universidades. “É preciso aumentar o nosso diálogo com as instituições de fora para termos acordos mais eficazes, com real cooperação científica”, avalia Márcio Barbosa, diretor do Conselho de Gestores de Relações Internacionais das Instituições Federais de Ensino Superior e responsável pelo setor na Federal do Rio Grande do Norte.

Alinhar a oferta de bolsas com o perfil da instituição também é reivindicado. “Há casos de alunos de universidades brasileiras de ponta que foram para centros de menos qualidade no exterior”, aponta Leandro Tessler, especialista em universalização do ensino superior da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O governo ainda não sinalizou se incluirá as ciências sociais e humanas – alvo de polêmica na primeira fase – nesta segunda etapa. Desde o início, as prioridades são as engenharias, tecnologias, exatas e biomédicas.

Assim como ocorre desde 2013, a obrigatoriedade da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para o ingresso no programa deve ser mantida. Na segunda etapa, a diferença é que haverá uma premiação extra para quem participou das olimpíadas de Matemática, Física e Química das escolas públicas.

Antes de iniciar a segunda versão, o governo federal precisa cumprir a meta para 2011-2014. Até o fim de junho foram concedidas 83,2 mil das 101 mil bolsas prometidas. O MEC garantiu que os próximos editais, que serão lançados em setembro, atenderão a demanda. Na primeira edição, atraso no pagamento de bolsas, problema na qualidade de universidade conveniadas e dificuldade dos candidatos com o idioma marcaram o programa.

Monitoramento. A cobrança por desempenho acadêmico dos enviados ao exterior é outra demanda, com requisitos mínimos de notas e frequência. “O governo deveria criar mecanismos para avaliar o que o estudante fez lá fora”, defende Rita de Cássia Louback, da Associação das Assessorias de Instituições de Ensino Superior para Assuntos Internacionais.“É preciso fechar a possibilidade do ‘aluno turista’.”

A validação das disciplinas cursadas no exterior também merece atenção das instituições. “Sempre pedimos relatórios do que o aluno vai cursar antes, para verificar a compatibilidade”, conta Rita de Cássia, que coordena o setor na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais.

Outra vantagem esperada, diz Barbosa, é a experiência adquirida pelo setor de relações internacionais de instituições menores para acompanhar bolsistas. “Algumas não tinham experiência. Com o processo alavancado pelo programa, o acompanhamento melhora.”

Graduação x pós. Crítico ao programa, o sociólogo Simon Schwartzman acredita que o foco deve ser nos estudantes de mestrado e doutorado. “O Brasil já tinha longa tradição de enviar alunos de pós. Como foi feito, o programa é um grande desperdício de recursos e tira força de outras áreas científicas.”

Não há perspectiva de migrar o foco da graduação para a pós. Na primeira versão, 82% das bolsas foram para graduação sanduíche. A novidade agora é que será dada preferência, na oferta para pós, a ex-bolsistas que desejem pesquisar nas áreas prioritárias do programa. “Falta um relatório final do governo sobre os resultados, após avaliação sistemática”, sugere Schwartzman. Outra proposta é ampliar as chances de apoio financeiro além da iniciativa privada. “É possível dividir despesas com os países que recebem esses alunos.”

Procurados para comentar as críticas, nem o MEC nem a Capes se manifestaram.

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