Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Inovação vira disciplina necessária em cursos superiores e instituições miram empreendedorismo

Instituições revisam currículos e criam áreas para fomentar práticas empreendedoras

Ocimara Balmant e Alex Gomes, especiais para o Estadão

28 de abril de 2021 | 05h00

Quem nunca ouviu dizer que a criatividade era o segredo do sucesso profissional? Pois sim. Por mais de década, esse foi um mantra. Mais recentemente, no entanto, a palavra de ordem mudou: o futuro promissor pertence àqueles que conseguem inovar. Se criatividade é a habilidade de pensar fora da caixa, inovar vai além. É pensar e fazer acontecer.

Os exemplos mais famosos de inovação vêm da história dos unicórnios. A partir da constatação de que o sistema bancário era burocrático demais, alguém imaginou como seria bom se houvesse bancos digitais. Mas não ficou na ideia e criou o modelo que tem visto crescer em progressão geométrica o número de clientes. O mesmo em relação a contratos de aluguel, sempre tão morosos. Hoje, como se sabe, é possível alugar um imóvel por aplicativo e sem nem pisar em cartório. 

A boa notícia é que inovação não é um talento genético. É possível desenvolver essa habilidade e as instituições de ensino já começam a repensar sua atuação a partir dessa premissa. Isso pode envolver repensar o papel do corpo docente e discente, enriquecer os currículos dos cursos com trilhas de aprendizagens, estreitar redes de relacionamento entre estudantes de cursos distintos e instigar o convívio e contato de egressos. 

Para se tonar uma referência em inovação e empreendedorismo, a Universidade de São Paulo (USP) lançou no início deste mês de abril a plataforma Hub USP Inovação, organizada pela Agência USP de Inovação (Auspin). Trata-se de um sistema que reúne todas as iniciativas da instituição voltadas para inovação e empreendedorismo.

Conta com a relações de estruturas, como laboratórios e organizações; programas, projetos e editais em andamento; e a lista de disciplinas de graduação e de pós-graduação que lidam com os temas de inovação e empreendedorismo.

“A demanda por disciplinas de inovação tem crescido muito nos últimos três anos, tanto que há a oferta de mais de 130 opções na USP, nos níveis de graduação e pós-graduação”, explica Geciane Porto, vice-coordenadora da Auspin. Entre várias ações, os alunos podem usar a plataforma para ter contato com projetos, realizados tanto pela instituição como por grupos de estudantes, e encontrar incubadoras às quais podem submeter planos de negócios. 

As incubadoras possuem focos variados. Por exemplo, há a Tecnológica de Cooperativas Populares, voltada para a economia solidária; a InovaHC, catalisadora de inovação em saúde, que visa a tornar a jornada do atendimento mais intuitiva e eficiente; e o Parque Tecnológico Piracicaba, voltado a iniciativas do agronegócio, em especial o sucroenergético.

Nesses projetos de inovação e empreendedorismo, há alguns da Escola Politécnica, como o Poli Consulting Club, voltado a aproximar os alunos do mercado de consultoria. O projeto de extensão SanFran Social, da Faculdade de Direito, oferece assistência jurídica universitária gratuita ao terceiro setor.

Já os docentes contam com uma seção no Hub USP Inovação em que podem compartilhar competências, pesquisas e áreas de atuação. Além da aproximação com os estudantes, essa iniciativa permite que os professores usem o Hub para divulgar suas habilidades e especialidades para organizações, públicas ou privadas, que tenham interesse em desenvolver projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em conjunto. 

Por fim, para dar visibilidade às criações nascidas na universidade, a plataforma também divulga as patentes protegidas pela USP, nas quais a instituição é a titular e os inventores são docentes, funcionários e alunos. “Esperamos que o processo de identificação, licenciamento e transferência de tecnologia seja intensificado, de forma a transformar conhecimento em soluções que viabilizem novos produtos ou processos”, diz Geciane.

Referência

Na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), desde 2019 há grupos de trabalho voltados a desenvolver propostas ou mesmo mudanças radicais nos cursos. A premissa é a de que a inovação não será apenas na criação de um novo produto final, mas a partir de quais valores o aluno será capacitado para inovar. 

Os primeiros resultados apontam para uma revisão de todos os currículos com base na premissa de que questões sociais e ambientais devem receber mais ênfase, com a inserção de atividades que incluam práticas e solução de desafios reais de empresas, ONGs e projetos de comunidade. “Contamos com professores, profissionais renomados no mercado, egressos da instituição e colaboradores com potencial empreendedor e visão internacional, pensando a instituição sob os mais diversos aspectos”, afirma Rogério Massaro Suriani, assessor acadêmico da Faap. 

No dia a dia, já se veem mudanças na construção de repertório. Lançado em março de 2021, o projeto Inova FAAP consiste em cursos, workshops, oficinas e possibilidades de atuação em desafios reais. As formações são feitas em um período diferente das aulas regulares dos cursos de graduação e são gratuitas para os alunos.

“As propostas englobam soft skills, hard skills e ações interdisciplinares. Os alunos têm à disposição as centenas de disciplinas dos 19 cursos de graduação para fazer pesquisas e projetos”, explica Suriani. “Não sabemos como será o futuro, mas temos de tornar os cursos mais dinâmicos. Em uma formação de quatro anos, o conteúdo que o aluno vê no primeiro semestre provavelmente terá de ser revisto ao final.”

Mariana Zambrana, que ingressou neste semestre no curso de Relações Internacionais, já está envolvida nas atividades do Projeto Inova Faap. Ela concluiu o minicurso Poder, Discriminação e Vulnerabilidade: Antirracismos e Feminismos no Mundo Contemporâneo. 

“Acho importante estar atualizada constantemente em relação aos temas que estão mexendo com o mundo, com tudo o que possa dialogar com Relações Internacionais. O futuro do mercado de trabalho exigirá profissionais mais abertos para novos conteúdos e multifocais”, conta a aluna. No próximo mês, Mariana vai participar da oficina Fabricação do Corpo: Biopoder e Sexualidade, na qual serão estudados como questões sociais criam estereótipos, moldam os corpos das pessoas e definem seus lugares na sociedade.

É um repertório e tanto que servirá de base para que Mariana não apenas desenvolva a habilidade de inovar na sua carreira, mas que faça isso a partir de valores imprescindíveis para manter uma atuação ética, responsável e contextualizada com os desafios deste século. Depois, que venham as patentes.

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