VALERIA GONCALVEZ/ESTADÃO
VALERIA GONCALVEZ/ESTADÃO

Indústrias e consultoria são campos de trabalho para engenheiros ambientais

Atuação pode incluir tanto o trabalho em empresas como a colaboração com organizações não governamentais

Alex Gomes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Você e sua empresa têm hábitos sustentáveis? Faz algum tempo que essa questão deixou de ser mera curiosidade para se tornar uma verificação necessária, posta na ordem do dia em agendas dos mais diferentes setores da sociedade, em decorrência dos problemas que afetam os ecossistemas mundiais.

Na contramão do que pensam os céticos do clima, cresce a demanda por especialistas em questões ambientais que são tão prementes ao bem-estar do planeta e de seus habitantes. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), estima que até 2030 mais de 20 milhões de postos de trabalho podem ser criados, se as políticas para promoção de uma economia mais verde forem aplicadas.

É um campo de trabalho em expansão para os engenheiros ambientais, cuja atuação pode incluir tanto o trabalho em indústrias como a colaboração com organizações não governamentais e instituições públicas e privadas no fornecimento de projetos e consultorias.

“O principal desafio do engenheiro ambiental é atuar de uma maneira crítica e criativa com visão no desenvolvimento da preservação, com gestão da qualidade do meio ambiente e do uso sustentável dos recursos naturais, sem perder de vista o desenvolvimento humano e econômico”, afirma Antonio Felipe Falcão de Montalvão, engenheiro do centro nacional de controle operacional da Petrobrás e coordenador da pós-graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

A atuação do engenheiro ambiental tanto pode englobar ecossistemas completos como áreas específicas, como os meios urbanos. E indo além, com ênfase ainda mais restrita a segmentos como a construção civil, cujos processos podem ter consequências globais.

Foi o que aprendeu a arquiteta Amanda Alves Costa na pós em Construção Sustentável e Certificação Ambiental em Empreendimentos Imobiliários do Centro Universitário Senac. Com o curso, ela encontrou inspiração para aplicar, em seus projetos para incorporadoras e construtoras, conceitos ambientais em amplo debate na atualidade, mas que nem sempre são aplicados a projetos imobiliários, como a logística reversa. “Nas aulas, visitamos um aterro especializado em reciclagem de materiais de construção, que produz blocos de concreto feitos a partir da reutilização de compostos. Eles até ficam mais resistentes que blocos de concreto comuns.”

Para Amanda e outros profissionais que buscam os cursos de Engenharia Ambiental, uma importante lição é transmitida: o fato de as questões ambientais afetarem o mundo como um todo requer uma profunda reflexão sobre os impactos do exercício da profissão em todos os âmbitos da sociedade.

“A sustentabilidade também envolve o aspecto social. O uso do bambu, por exemplo, tem sido uma escolha sustentável: é uma planta que cresce rápido, é resistente e, principalmente no exterior, tem sido utilizada como estrutura de construções. Por outro lado, há muitos registros de trabalho escravo nos processos de produção. Isso não faz sentido. É preciso ser sustentável de forma integral.”

Com diversos assuntos globais para estudar...

Temas como aumento do efeito estufa, chuvas ácidas, extinções de espécies e outros relacionados à natureza afetam o planeta de uma forma ampla, que não se limita a fronteiras. Por isso, ações de profissionais ligados a questões ambientais devem alcançar outros países do globo, muitas vezes em regiões completamente distintas.

Tais ações exigem cooperações internacionais e, por isso, instituições de ensino brasileiras se integram a propostas conduzidas com entidades estrangeiras. É o caso da Universidade de Passo Fundo (UPF), que tem alunos e professores de seu programa de pós-graduação em Engenharia Civil e Ambiental envolvidos em um projeto internacional de análises sobre mudanças climáticas. 

Intitulado Transformando Universidades para as Mudanças Climáticas, o projeto foi elaborado pela University College London, do Reino Unido. A atuação da universidade brasileira teve início em fevereiro de 2020, tem duração prevista de três anos e um orçamento equivalente a R$ 1,8 milhão a partir de um edital de fomento de pesquisas para países em desenvolvimento. 

Os estudantes brasileiros trabalham em parceria com estudantes da Kenyatta University, no Quênia; da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique; e da University of the South Pacific, nas Ilhas Fiji. “No momento, os pesquisadores parceiros estão trabalhando em uma revisão da dinâmica dos sistemas de ensino superior nos seus respectivos países. Busca-se, com isso, analisar como desigualdades socioeconômicas e questões de justiça ambiental influenciam a abordagem das universidades sobre as mudanças climáticas nos diferentes contextos globais”, detalha Luciana Londero Brandli, coordenadora do curso de Engenharia Civil da UPF e responsável pelo projeto no Brasil. 

Realidades. Para a pesquisadora, um dos principais ganhos do projeto é permitir um estudo comparativo dos contextos ambientais dos países parceiros na pesquisa, o que fornece aos profissionais envolvidos um olhar mais rico sobre ecossistemas. “Fiji, Quênia e Moçambique são países muito vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas e conhecer a realidade desses contextos mais de perto nos mostra como essas questões tomam as mais diferentes formas e afetam sistematicamente a todos”, afirma a coordenadora.

Além de um aprofundamento em questões relacionadas às mudanças climáticas, espera-se que os alunos da instituição gaúcha tenham oportunidades únicas de formação de redes de conhecimento, trocas de contato e fortalecimento do espírito de cooperação acadêmica. “As carreiras dos pesquisadores serão muito impactadas. É uma oportunidade de troca com outros pesquisadores e este contato pode resultar em muitas cooperações futuras”, completa Luciana.

... ou ações pontuais em meios urbanos para implementar

Se por muito tempo a atuação de engenheiros ambientais era vista como focada na preservação de ecossistemas e biomas, com ações diretas em áreas florestais ou rurais, ganham peso atividades direcionadas aos ambientes urbanos. Profissionais do ramo contam com opções de pós-graduação específicas para lidar com elementos das cidades e seus desafios de sustentabilidade.

Nessa seara, a construção civil figura entre as atividades de maior impacto e é tema da pós-graduação em Construção Sustentável e Certificação Ambiental em Empreendimentos Imobiliários do Centro Universitário Senac. Uma das ideias centrais do curso é desmistificar a ideia de que sustentabilidade e economia não combinam. As aulas mostram que, com um bom planejamento, é possível reduzir custos com recursos como reúso de água e aproveitamento de luz natural.

“Os profissionais tendem a atuar não somente nas construções, mas também nas reformas, sabendo do potencial que têm para reduzir o consumo de água e de energia e implementar a separação adequada dos resíduos”, afirma Mônica Medina, coordenadora da área de meio ambiente do Senac São Paulo. “Uma pessoa com certificação ambiental precisa ter consciência de que projetos específicos de substituição de fachadas de vidro e trocas de equipamentos de ar-condicionado podem reduzir o consumo de energia em até 50%, com ganhos mensurados em curto, médio e longo prazo.”

Outro conceito explicado no curso é o desenvolvimento de projetos adequados à certificação internacional LEED, criada pela organização americana sem fins lucrativos United States Green Building Council e que se tornou referência no planejamento de edifícios sustentáveis. A certificação engloba requisitos como localização e transporte, eficiência no uso de água, qualidade dos ambientes e propriedades de materiais e recursos. 

Esse aprendizado atendeu às necessidades da ex-aluna Amanda Alves Costa, que atua em escritórios de arquitetura desenvolvendo projetos para incorporadoras e construtoras. As lições aprendidas nas aulas deram fundamentação para que ela pudesse elaborar propostas enquadradas nas exigências ambientais da certificação, cada vez mais cobradas pelos clientes. “A construção civil é conhecida por causar um grande impacto no meio ambiente, com grandes gastos de água e insumos como cimento. Os projetos alinhados à certificação LEED servem não só como respostas às necessidades econômicas do mercado, mas como uma valorização dos empreendimentos”, comenta. 

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