Inclusão acadêmica

Em artigo, Sonia Guimarães, professora do ITA e conselheira da Afrobras, diz que para negros, a graduação não basta, 'é preciso fazer carreira em pesquisa'

Sonia Guimarães,

24 Novembro 2009 | 00h17

"Quando entrei como professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, era a única negra no Departamento de Ensino Fundamental. Ser a única negra foi uma situação que se repetiu em minha vida acadêmica. Essa estrada pode ser um pouco solitária, mas é muito importante que se tenha em mente que a razão dessa solidão jamais é falta de competência ou inteligência.   Existe, sim, uma política de exclusão das pessoas de pele negra, é uma política centenária – e muito efetiva. Brigamos com um século de injustiça. Em minha carreira acadêmica, as coisas não foram fáceis, e talvez para muitos negros jovens hoje também não sejam.   O ensino superior, mesmo sendo uma realidade mais próxima, por conta de programas de cotas e do ProUni, ainda é o teto para muita gente. Não deveria ser mais assim. É possível ter uma carreira acadêmica bem-sucedida e ir além do grau superior. Posso contar um pouco a minha experiência. Quem sabe isso não anima outros jovens, negros e de famílias que não podem custear seus estudos?   Tive alguma sorte. Durante o ensino médio, trabalhei meio período. O resto do tempo eu estudava. O que ganhava pagava o cursinho para a faculdade, portanto qualquer dinheiro a mais de que eu precisasse recorria à minha mãe, que tinha um bufê. Ela conseguiu também me manter estudando desde o dia em que coloquei os pés na universidade.   Eu me formei em Física, na Universidade Federal de São Carlos, fiz mestrado em Física Aplicada em Células Solares na USP de São Carlos. Meu doutorado fiz em Bolonha, na Itália, em junções super-rasas, com aplicação em microeletrônica. Finalizei o meu doutorado em Manchester, Inglaterra, em materiais semicondutores. Hoje, sou professora de física na Divisão de Engenharia Eletrônica do Departamento de Micro-ondas, no ITA. Sou gerente do Projeto de Sensores de Radiação Infravermelha no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE).   Na minha carreira participei de 17 congressos nacionais, 5 internacionais, tenho 11 publicações em revistas científicas internacionais. Dois de meus artigos mereceram citações da Nasa.   Todos esses anos venho me dedicando à pesquisa e ao ensino. Com tudo isso, vocês devem estar se perguntando: "E o fato de ser mulher e negra não atrapalhou em nada?"   Durante o tempo em que fui estudante eu não reparei muito, não. O que é muito perceptível é a presença ínfima de negros no ambiente universitário. Desde a pré-escola até o dia que eu defendi minha tese de doutorado, não me lembro de nenhum professor negro.   Na faculdade éramos 5 num universo de 1.500 alunos. Fora do Brasil também é assim. No último congresso ao qual compareci, em Utah, nos Estados Unidos, o outro negro era francês. Na Inglaterra, onde fiz meu doutorado, éramos 3 negros brasileiros. Em 1993, no primeiro ano em que dei aula no ITA, tinha 3 alunos negros. Este ano, tive apenas uma aluna negra e, mesmo assim, ela trancou a matrícula.   Se você é negro, seguir uma carreira não vai ser fácil. Mas ficar posando de vítima não vai atrair a simpatia de ninguém. É importante pensar que, quanto mais difícil for a caminhada, maior vai ser o valor do sucesso. E, quando tudo parecer perdido, continue lutando. O sucesso pode estar mais perto.  

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