Incêndio no Butantã obriga pesquisadores a modificarem seus projetos

Destruição do acervo afetou bolsistas e forçou mundanças de projetos

Paulo Saldaña e Carolina Stanisci, Estadão.edu

25 de maio de 2010 | 00h40

O biólogo Cristian Alexandro Gomes, de 25 anos, levou seis meses só preparando o projeto de mestrado, que previa comparar quatro espécies de serpentes e descobrir se realmente são aparentadas. Com o incêndio no Instituto Butantã, no dia 15, será impossível dar sequência aos estudos. “Terei de mudar completamente”, diz Cristian, pesquisador da Unesp.

 

 

Desde março, Cristian já tinha analisado características – como modo de reprodução e genética – de cerca de 150 serpentes de uma espécie. Faltavam mais de 500 de outras três espécies. “É improvável encontrar essa quantidade de animais em outras coleções”, lamenta.

 

 

A destruição de praticamente todos os 77 mil exemplares de serpentes e 178 mil de aracnídeos da coleção do Butantã abalou cientistas do mundo todo. O baque foi maior para quem, como Cristian, estava no meio da pesquisa – hoje há 446 bolsistas ligados ao instituto, mas o Butantã sempre esteve aberto a qualquer pesquisador.

 

 

O professor de Zoologia da Universidade de Brasília Guarino Colli, de 47 anos, dá um exemplo do prejuízo provocado pela destruição do acervo, iniciado há 120 anos. “Tenho alunos que estudam padrões de distribuição geográfica das espécies no cerrado. Grande parte da região já perdeu sua cobertura vegetal. Agora fica impossível saber que espécies existiam lá, até porque algumas podem já estar extintas.”

“Na literatura, às vezes os dados são brutos, ela é puramente descritiva”, diz Davi Pantoja, de 27, orientado por Colli em seu doutorado, sobre comunidades de serpentes. “Costumávamos ver tamanho, anatomia, fazer a contagem de escamas e checar outras características usando serpentes da coleção.”

 

 

Formado em Biologia pela Universidade Federal de Viçosa, o carioca Davi ainda não começou seu trabalho de campo, mas já tem dúvidas sobre como proceder. “Se eu escolher, por exemplo, estudar a região do Jalapão, no Tocantins, vou ter dificuldades. Com certeza, em alguma etapa do trabalho eu teria de ir ao Butantã.”

 

 

A colombiana Maria Adelaida é outra pesquisadora que ainda não sabe o que fazer. O incêndio a pegou no meio do doutorado, sobre populações de cascavéis. “Eu dependia exclusivamente da coleção” diz Maria, que, como muitos cientistas e funcionários do instituto, acompanhou in loco o trabalho dos bombeiros, torcendo pelo resgate do acervo.

 

 

Mais otimista, a carioca Cristina España, de 34, bolsista da Capes, acredita que seu maior prejuízo será o atraso de pelo menos seis meses na conclusão do doutorado. “Acho que vou recuperar muita coisa, porque trabalho com dentição, crânio. Muitos bichos queimaram só do pescoço para baixo.”

 

 

Ao contrário de Cristina, o biólogo do Instituto de Biociências da USP Felipe Franco Curcio, de 34, já sabe que terá de mudar seu projeto de pós-doutorado – para o qual já tem bolsa federal, do CNPq. “A pesquisa era baseada em estudos de um grande número de animais”, diz Felipe, que pretendia refinar dados sobre dentição de serpentes apurados durante o seu doutorado.

 

 

Na tese, defendida em 2008, o biólogo analisou 1.800 répteis. Cerca de 800 deles só tinham exemplares na coleção do Butantã. Para encontrar os demais, ele teve de garimpar em outras 15 instituições nacionais e internacionais. “Quando você vê estantes vazias e encontra um frasco com número e sem o bicho é muito triste”, afirma Felipe. “Foi como um desastre de avião.”

 

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