Ilustrador defende-se de acusação de racismo

O ilustrador Roberto Negreiros defendeu-se das críticas que recebeu do senador Paulo Paim (PT-RS) e do ministro da Educação, Cristovam Buarque pelas ilustrações do livro Banzo, Tronco e Senzala, proibido em escolas municipais pelo governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, por sugestão de ofensa a negros. "Em momento algum tive a intenção, deliberada ou não, de caracterizar um negro como qualquer outra coisa que não pudesse ser identificado como tal. Quanto menos a de ofender." O profissional, com 30 anos de experiência, repudia a acusação de discriminação racial e se diz ofendido. "Algumas pessoas interpretaram e julgaram leviana e equivocadamente o meu caráter, os meus princípios, minha arte e a forma de expressá-la."O geógrafo Wilson Veleci ameaça processar por racismo a editora Habra, responsável pela publicação do livro Banzo, Tronco e Senzala, caso não mude a versão que está no mercado. Veleci, que é negro, é o autor da denúncia que levou o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, a proibir o livro na rede pública da capital e a recomendar que escolas particulares não o adotem. Veleci ameaça ainda entrar com ação por danos morais contra a editora e as autoras Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, porque a sua fillha de 10 anos se sentiu agredida pelo livro sobre escravos no Brasil. A menina, matriculada na 4.ª série de uma escola particular, reclamou ao pai que nas ilustrações do livro os escravos pareciam macacos e não seres humanos. "Isso não passa de imaginação", comentou a coordenadora pedagógica da escola, quando Veleci pediu a substituição do livro.Para o geógrafo, o livro erra por desenhar escravos com cara de gorila e por tratar os negros apenas como seres passivos. Muitos negros resistiram à escravidão, montaram quilombos e promoveram a revolta das chibatas. Segundo Veleci, essa versão aumenta a auto-estima de um afrodescendente, ao contrário da única versão contada pelo livro de que os escravos foram traídos e vendidos aos brancos por outros negros, ainda na África. Outra crítica de Veleci ao livro é que a princesa Isabel virou heroína. Veleci afirma que a princesa só fez a abolição porque não tinha outra alternativa: a Inglaterra aprisionava os navios negreiros e o Exército já não mais perseguia os escravos fujões. "A abolição era uma questão de tempo, não foi por bondade." Os negros não receberam terras, nem apoio para plantar. Viraram favelados e desempregados. Para Veleci, o governo Luiz Inácio Lula da Silva deveria reconhecer a escravidão como crime contra a humanidade e adotar políticas públicas, além das cotas para negros, para reparar o dano.

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