Gabriela Biló/Estadão
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Igualdade para meninos

É importante olhar para os meninos quando há pouca vontade de ler

Renata Cafardo, repórter especial e colunista

08 de dezembro de 2019 | 05h00

Muito se fala na educação, e consequentemente no mundo do trabalho, da desvantagem das mulheres. São menos encorajadas a estudar e a fazer do estudo e da carreira seus objetivos de vida. São prejudicadas pela gravidez na adolescência porque precisam deixar a escola e, mesmo adultas, quando a licença maternidade ou dedicação aos filhos se tornam entraves para promoções. São questões muito claras que devem ser gritadas o mais alto possível por mulheres – e homens – para que haja igualdade.

Mas o Pisa, a maior avaliação de estudantes do mundo, cujos resultados foram divulgados na semana passada, dá pistas de uma vantagem para as meninas nesse novo mundo de informações em que vivemos. Apesar da diferença estar diminuindo, o que é ótimo, elas ainda se saem muito melhor na prova de Leitura do que eles. Em todos os 79 países que participaram do Pisa, as adolescentes de 15 anos tiveram, em média, 30 pontos a mais na avaliação que seus colegas do sexo masculino de mesma idade.

No Brasil, essa diferença foi de 26 pontos a favor delas em Leitura, o que na escala do Pisa é uma boa vantagem. Já os meninos brasileiros ficaram só nove pontos acima das meninas em Matemática, área em que sempre houve prevalência do sexo masculino. No Pisa, homens se saíram melhor em Matemática em só 32 dos países avaliados, enquanto as mulheres os superaram em outros 14. 

Mas voltemos à Leitura. A prova feita em 2018, e divulgada agora, cobrava compreensão e interpretação de texto, mas também a habilidade de ler nas entrelinhas. Ou seja, entender o real motivo do autor para escrever o texto, se as fontes usadas são confiáveis, etc. Competências essenciais para nossos adolescentes que se informam por WhatsApp, Twitter e Facebook.

Nesse sentido, o resultado foi ruim no mundo todo. Só 1 em 10 estudantes consegue distinguir fato de opinião. A habilidade faz parte do nível considerado mais alto de Leitura do Pisa. Apenas na Estônia, Finlândia Cingapura, China e Estados Unidos os índices são melhores. 

Uma questão sobre as vantagens e desvantagens de se tomar leite é um exemplo de como isso é cobrado na prova. Há textos tanto de um empresa que vende leite como de uma suposta reportagem que cita estudos sobre malefícios do leite para a saúde. Os alunos precisam então dizer se certas afirmações são fato ou opinião. Uma delas: “tomar leite é uma das melhores maneiras de se perder peso”. 

A vantagem das meninas se dá inclusive entre as mais ricas: 20% delas e 15% deles acertaram questões como essa. Disseram que se tratava de uma opinião e não de um fato. No Brasil, esse índice foi de 7% e 4%. 

“A leitura não é mais só extrair informações, é construir conhecimento, pensar criticamente e fazer análises bem fundamentadas” diz o secretário geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pelo Pisa, Angel Gurría.

Todos nós, crianças, adolescentes, adultos ou idosos, precisamos aprender sobre essa nova forma de ler. Mas o Pisa dá dicas de quem tem mais chance de se sair melhor. Nos questionários, quase metade das meninas tem prazer em ler e diz que a leitura é um dos seus principais hobbies. Entre os meninos, são 24%. Muitas pesquisas já mostraram que quanto mais se gosta de ler, mais se lê e mais se aprende.

Assim como se reclama do pouco estímulo para meninas em Matemática e Ciência, é importante olhar para os meninos quando há pouca vontade de ler. Valorizar menos as habilidades físicas ou lógicas e aplaudir quando experimentam as maravilhas das histórias desde a primeira infância. Só assim vamos promover um futuro mais igual para homens e mulheres que precisam sobreviver no mundo da desinformação. 

*RENATA CAFARDO É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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