Felipe Rau/Estadão
Ideb do ensino médio tem maior alta da história, mas notas de 1º a 5º ano desaceleram. Felipe Rau/Estadão

Ideb do ensino médio tem maior alta da história, mas crescimento do 1º ao 5º ano desacelera

Maiores crescimentos do ensino médio foram do Paraná, 3º colocado no ranking, e da Bahia, que ficou em último; todos os Estados aumentaram notas de Português e Matemática na etapa, mas só dois bateram meta

Renata Cafardo, Victor Vieira e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 09h32

Estagnado há anos, o ensino médio do País teve o maior crescimento da história no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) registrado em 2019, antes da pandemia do novo coronavírus. O Ideb é o principal medidor de qualidade da educação no Brasil. A nota foi de 4,2, o,4 a mais do que em 2017, mas ainda abaixo da meta estipulada em 5. 

Por outro lado, o desempenho das crianças de 1º ao 5º ano do ensino fundamental desacelerou e aumentou só 0,1, o menor avanço desde 2005, quando houve a primeira medição. Esses dados, que consideram as redes pública e privada de ensino, saem a cada dois anos e foram divulgados nesta terça-feira, 15, pelo Ministério da Educação (MEC).

A nota do Ideb varia em uma escala de zero a dez. Para calcular o índice, considera-se o desempenho dos alunos em Matemática e Português no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), prova aplicada pelo MEC, e também índices de aprovação e evasão. No caso do ensino médio, o aumento de 0,4 foi o maior desde 2005. De lá para cá, as notas tinham ficado estagnadas em três avaliações e tinha subido apenas 0,1 em outras quatro oportunidades. 

As escolas particulares avançaram menos que as públicas entre 2017 e 2019 nos dois ciclos do fundamental. Nos anos iniciais desta etapa (1º ao 5º ano), o Ideb na rede privada ficou parado pela primeira vez em 15 anos. No ensino médio, a nota das particulares passou de 5,8 para 6,0, enquanto a nota das redes estaduais do País, em conjunto, progrediu de 3,5 para 3,9. O Brasil tem 7,465 milhões de alunos no ensino médio - 84% deles nas redes estaduais. 

Todos os Estados avançaram no Ideb do ensino médio público, segmento considerado o mais problemático no País pela dificuldade de atrair e manter o jovem na escola. Nos últimos anos, Estados passaram a investir em ensino integral para adolescentes. Já a reforma do ensino médio, aprovada em 2017 com o objetivo de modernizar e flexibiliar o currículo na etapa, ainda não foi colocada em prática e tem sido ignorada pelo governo Jair Bolsonaro. Radiografias feitas por uma comissão da Câmara dos Deputados para analisar o trabalho do MEC já apontaram "paralisia" em ações da pasta e "omissão" durante a pandemia. A pasta passou por turbulências este ano, com duas trocas de ministros em menos de um mês.

"Pelo contexto de 2019 nao é factivel atribuir o aumento do Ideb a alguma política coordenada nacionalmente, as respostas estão nos Estados", diz o secretário de Educação do Espírito Santo e vice-presidnete do conselho de secretário do País, Vitor de Angelo. A rede estadual do Espírito Santo tem o segundo Ideb mais alto do Brasil e as melhores notas de Português e Matemática. Ele diz que, no Estado, o que fez diferença foi o acompanhamento de perto das escolas que tinham desempenho mais fraco nos últimos exames.

Todos as redes estaduais também aumentaram suas notas de Português e Matemática.  Mesmo com o desempenho melhor dos adolescentes do ensino médio, a meta para o País em 2019, de 5,0, não foi atingida. Os únicos Estados que bateram as metas foram Pernambuco e Goiás. O Estado de São Paulo melhorou na nota, mas não atingiu o objetivo e está em 4º no ranking nacional. O maiores crescimentos do Ideb do ensino médio foram do Paraná, 3º colocado no ranking (mesma posição de Pernambuco), e da Bahia, que ficou em último lugar.

O Ideb estabelece metas para cada rede e escola até 2021. A ideia surgiu no governo Lula, que criou o índice, por causa da simbologia do bicentenário da Independência do Brasil em 2022, quando é prevista a divulgação do próximo índice. O Brasil também não deve alcançar o objetivo estipulado para a próxima edição. Segundo tabulação do Estadão, teria de avançar no Ideb exatamente na mesma proporção em que cresceu desde 2005, mas em apenas dois anos. A previsão do Ideb era de que o Brasil chegasse a médias próximas de 6,0 em 2021, consideradas comparáveis à educação de um país desenvolvido.

A pandemia ainda vai trazer desafios extras para melhorar índices de aprendizagem entre crianças e adolescentes, diante de quase seis meses de escolas fechadas no País para conter a transmissão do vírus, uma das quarentenas mais longas na educação no mundo. Além da dificuldade de assimilar o conteúdo por aulas remotas e recuperar eventuais desafasagens na retomada de aulas presenciais, educadores apontam dificuldades para implementar medidas sanitárias, como reduzir o total de alunos por turma, risco de aumentar a evasão e de ampliar as desigualdades entre alunos ricos e pobres. "O período de exepcionalidade que estamos vivendo, a pandemia, vai prejudicar em todas as etapas", diz o secretário do Espírito Santo. Ele lembra que o Ideb é calculado justamente usando taxas de aprendizagem e e de evasao, que serão abaladas por causa do período de escolas fechadas. "Vamos assistir em 2022 a um resultado muito ruim."

A gerente de pesquisa e desenvolvimento do Itaú Social, Patricia Guedes, chama a atenção para o fato de o resultado atual do ensino médio retratar apenas os "estudantes que ficaram".  "Sem tirar o mérito de se garantir bons resultados para esses alunos, os números não contam toda a história, precisaríamos, como País, olhar também para aqueles que já deixaram o ensino médio", afirma. No Brasil, atualmente, 4 em 10 jovens de 19 anos não concluem a escola. E, com a pandemia, essa evasão tende a aumentar.

Fundamental é o único que deve bater meta para 2021

O ensino fundamental 1 (1º a 5º ano) deve ser o único a chegar ao patamar previsto para 2021. Já em 2019, o Ideb foi de 5,9 (a meta era 5,7).  O resultado para o Brasil nesta etapa, porém, é desigual pelo País. No Ceará, 98,9% dos municípios atingiram a meta, o maior índice - o Estado é apontado por educadores há mais de uma década como exemplo bem sucedido em políticas de alfabetização, principalmente por atender alunos mais pobres. Já no Rio de Janeiro e no Maranhão, menos de 50% dos municípios conseguiram. Ao separar os dados da rede particular da pública, no entanto, as escolas privadas não atingiram seu objetivo de 2019 - tiveram Ideb 7,1 e a meta era 7,4.

O nível de 6º a 9º ano (fundamental 2) teve índice 4,9 e não atingiu a meta nem nas redes públicas nem nas particulares. O Ideb precisa chegar a 5,5 em até 2021 - o que exigiria um aumento relativo a um terço do que já cresceu de 2005 até hoje. 

Os dados foram divulgados na segunda-feira, 14, embargados para jornalistas e anunciados nesta terça pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro, que está há pouco mais de dois meses no cargo. Em ano de eleição municipal, cujo 1º turno está previsto para 15 de novembro, o MEC não divulgou ontem aos jornalistas os índices de cada cidade e escola. Os dados foram disponibilizados nesta terça-feira no site do governo. No ensino fundamental, o Brasil tem 26,9 milhões de alunos e mais da metade (56,5%) das matrículas estão nas redes municipais, principalmente do 1º ao 5º ano. 

 

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São Paulo volta a liderar rankings do ensino fundamental público e melhora no médio

No ensino médio estadual, depois de ter piorado na última edição, Estado registrou as mais altas notas paulistas em Português e Matemática desde 2005, mas manteve-se no mesmo quarto lugar na lista nacional

Renata Cafardo e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 09h30

O Estado de São Paulo voltou a crescer no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e lidera os dois rankings do ensino fundamental público (1º a 5º ano e 6º a 9º ano) de 2019. No ensino médio estadual, depois de ter piorado na última edição, registrou as mais altas notas paulistas em Português e Matemática desde 2005, mas manteve-se no mesmo quarto lugar na lista nacional e não atingiu a meta para a etapa. Os dados foram divulgados nesta terça-feira pelo Ministério da Educação (MEC) e são de antes da pandemia do novo coronavírus.

No Ideb da rede particular, São Paulo não fica em primeiro em nenhum dos três rankings. Escolas privadas de Minas Gerais e Espírito Santo tiveram as melhores notas do País. O Ideb é o principal medidor de qualidade da educação brasileira e leva em conta o desempenho do alunos em provas de Matemática e Português no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e índices de aprovação e evasão

Em 2017, última divulgação do Ideb, a nota de São Paulo do ensino médio público - que é de inteira responsabilidade do governo do Estado - tinha caído de 3,9 para 3,8. Agora foi a 4,3, um crescimento de 13%. No entanto, os paulistas não atingiram a meta estipulada pelo MEC, de 4,9. Apenas os Estados de Pernambuco e Goiás, primeiro e terceiro colocados no ranking respectivamente, atingiram os objetivos. 

Nos anos finais do ensino fundamental público (6º ao 9º) as notas de Português e Matemática também foram as mais altas desde 2005 e o Estado pulou da quarta colocação para a primeira em 2019, empatado com o Ceará. A meta de São Paulo, no entanto, não foi atingida, enquanto o estado nordestino alcançou seu objetivo. As metas são feitas pelo MEC de acordo com a situação de cada Estado para que haja evolução em cada contexto. São consideradas as notas das redes estaduais e municipais dos Estados. 

Já entre as crianças menores, de 1º ao 5º ano, as redes públicas paulistas mantiveram o desempenho da última edição. O Ideb foi o mesmo, 6,5, mas atingiu a meta para o ano. 

O secretário estadual de São Paulo, Rossieli Soares, disse que o Estado "corrigiu a trajetória" e teve bons resultados. Sobre o fato de não ter atingido as metas tanto no ensino médio quanto nos anos finais do fundamental ele diz que esses objetivos foram calculados há muitos anos e não havia um histórico de quanto um Estado poderia crescer no Ideb. As metas foram criadas em 2005 pelo governo Lula. "Um crescimento linear não é possível, apesar dessas metas serem, sim, importantes", diz Rossieli, que foi ministro da Educação na gestão Temer.

Rede particular

Entre as redes privadas do País, Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina se revezam entre as primeiras colocações dos três rankings. São Paulo aparece na terceira colocação dos anos iniciais e finais do ensino fundamental (1º ao 9º ano). No ensino médio, está na quarta posição. 

Apesar de terem notas mais altas, entre 6 e 8, no Ideb, as redes privadas raramente atingiram suas metas para 2019 nos Estados. Especialistas explicam que é mais difícil crescer quando se está em um patamar mais elevado, mas mesmo assim as notas das escolas particulares têm se mostrado quase estagnadas ao longo dos anos. No relatório divulgado pelo MEC ontem, é destacado o fato de ter diminuído a distância de desempenho entre as duas redes ao longo dos anos de Ideb.

Credita-se também à não evolução das particulares o fato de a população usar o Ideb para cobrar melhorias nas escolas públicas, já os pais de escolas privadas preocupam-se com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Dessa forma, as escolas pouco se dedicam ao Saeb, exame cuja nota compõe o Ideb.

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Saiba o que é o Ideb, índice que mede a qualidade da educação no Brasil

Até 2022, o País tem o objetivo de chegar à média geral de 6 pontos nos anos iniciais do ensino fundamental para que o índice seja celebrado nos 200 anos da Independência do Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 09h31

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2019 foi divulgado nesta terça-feira, 15. Criado em 2007, o indicador é um dos principais mecanismos para medir a qualidade da educação no País. A partir daí, é possível traçar metas e estratégias para melhorar os resultados de aprendizagem. Entenda como funciona o Ideb.

O que é o Ideb e para que serve?

Criado em 2007, o Ideb é o principal medidor de qualidade do ensino fundamental e médio no País. Foi criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação. O Ideb serve para estabelecer metas para cada rede e escola e monitorar o nível de qualidade do ensino no Brasil. Os dados também podem indicar como está o ensino por região, estado, município e escola. 

Como a nota do Ideb é medida?

O resultado é divulgado em uma escala de zero a 10, levando em conta os dados de aprovação escolar, extraídos do Censo Escolar, e o desempenho dos alunos em Português e Matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), prova aplicada pelo Ministério da Educação. O cálculo do Ideb é feito com base nesses dois números. 

Quais são as metas do Ideb?

Até 2022, o Brasil tem o objetivo de chegar à média geral de 6 pontos no Ideb dos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano), para que o índice seja celebrado nos 200 anos da Independência do Brasil. Nos anos finais do fundamental (6º ao 9º ano), o objetivo é 5,5 pontos e, no ensino médio, 5,2. A nota equivale à média dos alunos dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo compatibilização dos resultados do Ideb e do Pisa, avaliação aplicada pela entidade internacional, feita pelo MEC. 

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Análise: Ideb de 2019 traz algumas boas notícias, mas mantém preocupações históricas

Especialista analisa dados do Ideb, que foram divulgadas nesta terça-feira. 'O desafio da melhoria da qualidade da Educação no Brasil se amplia agora em função da pandemia', destaca Mozart Neves Ramos

Mozart Neves Ramos*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 16h23

A edição de 2019 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) trouxe algumas boas notícias, e manteve algumas preocupações históricas. Foi gratificante verificar, tomando como referência a rede pública, que no Ensino Médio todos os Estados da federação tiveram um crescimento no Ideb de 2017 para 2019. Isto, entretanto, não foi suficiente, quando comparado à 2017, para que um número maior de Estados alcançasse a meta prevista para 2019. Como em 2017, apenas Goiás e Pernambuco conseguiram esse êxito. 

O Estado do Paraná foi quem mais cresceu no Ensino Médio com um incremento de 0,7 ponto, e agora ocupa a 4ª posição no ranking nacional. Os três primeiros continuam sendo Goiás, Espírito Santo e Pernambuco.

Olhando para o Ensino Fundamental, os três melhores estados são Ceará, São Paulo e Paraná. A maior preocupação que se observa, nesta edição de 2019, foi um crescimento tímido no Ideb no Ensino Fundamental, especialmente nos Anos Iniciais, exatamente na etapa em que o Brasil vinha tendo melhoras substanciais no campo da aprendizagem escolar. Isso de certa forma pode refletir que a rede pública atingiu uma certa saturação no que se refere à qualidade do ensino oferecido. O Ceará continua sendo a grande pérola nordestina. Isso, em grande parte, decorre do exitoso trabalho de alfabetização das crianças cearenses aos 7 anos de idade.

Para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, os dois Estados que mais evoluíram, de 2017 para 2019, foram Alagoas e Piauí. Foi também Alagoas quem mais cresceu no Ideb nos Anos Finais do Ensino Fundamental com 0,6 ponto. Apenas sete estados alcançaram a meta prevista para 2019.

O desafio da melhoria da qualidade da Educação no Brasil se amplia agora em função da pandemia. Muitos alunos não tiveram até aqui atividades escolares, nem presenciais nem remotas. Isso naturalmente deve impactar tanto na aprendizagem, como no abandono escolar, e como consequência no próprio Ideb. Isso ocorrendo, o País ficará ainda mais distante de cumprir a meta 7 do Plano Nacional de Educação (PNE), vinculada à qualidade do ensino.

*É titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP – Ribeirão Preto.

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MEC ainda avalia como medir efeitos da pandemia sobre a aprendizagem dos alunos brasileiros

Presidente do Inep disse nesta terça-feira que está vendo a possibilidade de fazer avaliações amostrais. Interrupção das aulas trará desafios extras para a educação nos próximos anos, afirmam especialistas

João Ker, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 14h36
Atualizado 16 de setembro de 2020 | 15h56

O Ministério da Educação (MEC) informou nesta terça-feira, 15, que ainda estuda como avaliar os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a aprendizagem dos alunos no Brasil. O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, afirmou que o órgão está “vendo a possibilidade de fazer avaliações amostrais” sobre esses efeitos, mas seriam para estudos internos e não avaliações em larga escala.  

A declaração foi dada na coletiva de imprensa de divulgação dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2019, que mostram avanço inédito do ensino médio, mas desacelação do crescimento dos anos finais do fundamental.

Na apresentação, gestores do MEC destacaram o avanço do ensino médio, que vinha de anos de estagnação, mas lembraram do desafio nesta etapa e também nos anos finais do fundamental, grupo que o ministério promete olhar com mais atenção para combater a evasão escolar.

"Entendemos que essa conversa tem que começar lá no ensino fundamental 2, de modo que nossos estudantes possam chegar ao ensino médio e estancarmos essa questão", afirmou Izabel Pessoa, secretária da Educação Básica, reforçando a ideia de investir na educação integral.

Segundo educadores, a pandemia vai trazer desafios extras para a educação nos próximos anos. O período prolongado de fechamento das escolas deve aumentar a defasagem de aprendizagem de grande parte dos alunos, especialmente os mais vulneráveis, e também elevar o risco de evasão. Além disso, o poder público terá dificuldades para implementar medidas sanitárias para reduzir o contágio do novo coronavírus, como reduzir o número de estudantes por turma, em um cenário de maior restrição orçamentária. 

Apesar de ainda não haver um plano traçado pelo MEC, a maioria dos especialistas em educação concorda que os efeitos da pandemia sobre o ensino precisam ser estudados, em especial a forma como as aulas remotas reforçou desigualdades sociais no aprendizado. “O grande problema é que os alunos estão sendo afetados de uma maneira muito desigual, seja por falta de equipamento, conexão, por não saber usar os dispositivos etc.”, afirma Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Articulação do Instituto Ayrton Senna.

Ela aponta que a falta de ações coordenadas pelo governo federal ou pelo MEC, deixando que Estados e municípios criassem as próprias regras, também foi um problema, já que “cada rede foi tentando achar o melhor caminho para contornar essa situação”. Ainda assim, ela explica que a situação serviu para mostrar como a situação tornou imprescindível a atenção às competências socioemocionais.

“Com a questão da pandemia, levantou-se uma variável que não era muito clara: o quanto o emocional, o sentimento e o afetivo podem ser impactantes para o sucesso ou para o fracasso. Esse é um ponto que não podemos ignorar”, afirma, frisando a importância de políticas públicas que mirem todos os níveis e etapas da vida escolar. 

Izabel Pessoa, do MEC, anunciou que o governo federal vai destinar R$ 525 milhões para ajudar as escolas que decidirem retomar as aulas presenciais ainda este ano. O aporte será transferido pelo Programa Dinheiro Direto na Escola, que ainda inclui apoio técnico e orientações a protocolos de biossegurança para 116.767 escolas de 5.100 municípios em todo o País, impactando 36,8 milhões de estudantes.

Ministro diz não fazer pregação e reforça 'valores'

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse nesta terça-feira, 15, ter sido escolhido para o cargo por estar de acordo com “valores" e "princípios” propostos pela gestão Jair Bolsonaro, mas afirmou estar aberto ao diálogo com secretários estaduais e municipais. 

“Claro que temos uma linha e um propósito com relação à educação e isso deve prevalecer." Ainda segundo Ribeiro, sua indicação não teve viés político, uma vez que ele não é afiliado “a nenhum partido nem grupo religioso, tampouco os evangélicos”.

“Tenho conversas com eles, mas não os represento”, afirmou ele, que além de ter sido vice-reitor da Universidade Mackenzie também é pastor presbiteriano. "Ele (Bolsonaro) pagou o preço de colocar alguém que nem conhecido era. Um pastor, como sou. Embora eu não esteja aqui fazendo pregação no MEC. Minha visão é outra sobre meu trabalho. Ele se expôs politicamente ao me colocar aqui", disse ele, em fala que durou menos de dez minutos, antes de deixar o evento. 

Na quinta-feira, 10, Ribeiro foi criticado após afirmar que os jovens são “zumbis existenciais” por não acreditarem em Deus ou na política, durante evento no Palácio do Planalto. "Temos hoje no Brasil, motivados, creio eu, por essa quebra de absolutos e certezas, verdadeiros zumbis existenciais. Não acreditam mais em nada, desde Deus e política, não têm mais nenhuma motivação."

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Rede municipal de São Paulo tem maior aumento do Ideb no ensino fundamental, mas não atinge meta

A cidade, com uma rede com mais de 1 milhão de alunos, está em 10º lugar no ranking das notas do Ideb nos anos finais do ensino fundamental nas capitais. Liderança é de Teresina 

Renata Cafardo e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 18h21

A rede municipal da cidade de São Paulo teve o maior aumento no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do País nos anos finais do ensino fundamental (6º a 9º ano), mas mesmo assim não atingiu a meta proposta para 2019. No ranking das capitais, liderado por Teresina, a cidade está em 10º lugar.

A capital tem a maior rede municipal do Brasil com mais de 1 milhão de alunos e enfrenta atualmente um impasse sobre volta às aulas presenciais por causa da pandemia do novo coronavírus. O prefeito Bruno Covas deve anunciar nesta quinta-feira, 16, se as escolas poderão ou não retornar em outubro, como autorizou o governo do Estado.

Nos anos iniciais (1º ao 5º) o Ideb da rede municipal ficou estagnado em 6,0, mas atingiu a meta. No entanto, ainda está muito longe de capitais como Teresina (7,4), Rio Branco, (6,7) e Palmas (6,6), cidades com orçamentos inferiores ao paulistano.

O secretário municipal de Educação, Bruno Caetano, acredita que os resultados seriam melhores caso a cidade não tivesse permitido a reprovação a partir da gestão de Fernando Haddad em todos os anos do fundamental 2. O Ideb leva em conta o resultado dos alunos em provas de Português e Matemática e ainda índices de aprovação e de evasão. Mesmo com a política, que não foi mudada na gestão atual, a aprovação na cidade nesse nível de ensino aumentou de 91,9% para 94,6%. A nota de São Paulo nos anos finais do fundamental cresceu 0,6, indo de 4,2 para 4,8. O mesmo aumento só foi registrado em Recife.

“Tem faltado à cidade a perseguição de um projeto educacional”, disse, argumentando que os prefeitos que assumiram ao longo dos últimos anos não deram continuidade ao trabalho dos anteriores, mudando principalmente políticas de avaliações.

Covas concorre à reeleição, mas entrou no cargo em 2018, quando João Doria resolveu concorrer ao governo. A cidade lançou nesta gestão o currículo de São Paulo, que dá as diretrizes do que deve ser ensinado. “É o mínimo de uma política educacional, agora é preciso colocá-lo em prática”, diz o secretário.

Segundo ele, todas as salas de aula terão computadores em que os professores poderão montar suas aulas com base no currículo e as habilidades esperadas dos alunos até o fim do ano. A pandemia do novo coronavírus, no entanto, para Caetano, pode colocar em risco muito do trabalho que vem sendo feito.

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Mucambo, no interior do Ceará, tem salto na nota e se torna o maior Ideb do País

Cidade desbancou Sobral e passou a liderar ranking das melhores redes municipais nos anos iniciais do ensino fundamental. 'Estamos soltando fogos', diz prefeito do município de 14 mil habitantes

Renata Cafardo e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 20h19
Atualizado 15 de setembro de 2020 | 21h43

Sobral, a cidade cearense que ficou conhecida como a melhor do Brasil nos últimos anos por causa do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), caiu no ranking nesta edição, e deu lugar à desconhecida Mucambo. Também no Ceará e próximo de Sobral, o município surpreendeu ao crescer seu indicador de 6,8 para 9,4 em 2019 e se tornar o maior Ideb do País entre 1º e 5º ano do ensino fundamental.

“Estamos soltando fogos”, disse ao Estadão o prefeito Francisco das Chagas Parente Aguiar, conhecido como Canarinho (PDT). “Esperávamos um crescimento, mas não ser a primeira do Brasil”. A cidade tem 14 mil habitantes e 15 escolas apenas. A mais de 300 quilômetros de Fortaleza, Mucambo sobrevive da agricultura familiar e do emprego em repartições públicas. Durante a pandemia, professores têm ido às casas dos alunos que não têm internet para ensinar.

Aguiar disse que teve ajuda do Estado do Ceará para viabilizar políticas, como melhorar a formação dos professores e investir em material didático próprio. A parceria entre Estados e municípios na educação, com investimento em dinheiro e em apoio técnico, é um dos pilares do sucesso da educação cearense.

“Isso significa que as nossas crianças e jovens terão um futuro melhor. Tudo isso é possível graças às parcerias que temos realizado com os nossos municípios. São resultados que nos enchem de orgulho e indicam que estamos no caminho certo para termos um estado mais desenvolvido, justo e humano”, disse o governador Camilo Santana (PT) em live nesta terça-feira, 15. Em 2019, 98,9% dos municípios cearenses atingiram a meta do Ideb.

Sobral, no entanto, apesar de altíssimo, diminui seu índice de 9,1 para 8,4. A cidade, que já foi primeira colocada no País, foi para a 10ª posição. Segundo o secretário de Educação de Sobra, Hebert Lima, os dados ainda estão sendo analisados escola por escola. No entanto, o município é muito maior do que outros que registraram resultados superiores; são quase 150 mil habitantes.

Além do Ceará, Alagoas também teve destaque nesta edição, com 94,1% dos municípios que atingiram a meta nos anos iniciais do fundamental. Três cidades do Estado ficaram nas primeiras colocações dos rankings do fundamental: Coruripe, Teotônio Vilela e Jequiá da Praia.

Para a gerente de pesquisa e desenvolvimento do Itaú Social, Patricia Guedes, Alagoas tem feito um trabalho de colaboração intermunicipal expressivo, com ajuda para formação continuada dos professores, por exemplo. Ela lembra, no entanto, que apesar dos ótimos exemplos, o País precisa de uma política mais focada nos anos finais do ensino fundamental.

“É necessária uma política para a transição do 5º ano para 6º ano, em que o aluno deixa de ter uma professora principal, precisamos de projetos para estimular esse adolescente”, diz. Segundo os dados dos anos finais do fundamental, 22 Estados aumentaram seus índices, mas apenas sete alcançaram a meta de 2019: Amazonas, Piauí, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Paraná e Goiás. E só 23% dos municípios do País chegaram ao desempenho estipulado para este Ideb. As menores quantidades de cidades com nota suficiente estão no Pará e no Rio de Janeiro.

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