Werther Santana/Estadão
O confeiteiro Augusto da Silva Santos, de 18 anos, trabalha desde os 14 e quer estudar Medicina Werther Santana/Estadão

IBGE revela que 6 em cada 10 jovens que concluem o ensino médio param de estudar para trabalhar

Levantamento mostra que o ensino superior é hegemonicamente privado no Brasil; apenas um quarto dos estudantes de graduação (26,3%) estão matriculados em instituições de ensino superior públicas

Daniela Amorim e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 10h00

RIO e SÃO PAULO – Ao menos seis em cada dez jovens que concluem o ensino médio não continuam a estudar porque precisam trabalhar ou porque não têm recursos para bancar os estudos, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento mostra que o ensino superior é hegemonicamente privado no Brasil. Apenas um quarto dos estudantes de graduação (26,3%) estão matriculados em instituições de ensino superior públicas.

O País tem 13,810 milhões de jovens de 15 a 29 anos que já têm ao menos o ensino médio completo mas não puderam prosseguir com os estudos e ingressar no ensino superior: 44,4% deles argumentaram que precisavam trabalhar, e outros 17,5% alegaram falta de recursos para bancar os estudos.

“Esse motivo da falta de dinheiro é presente principalmente entre essas pessoas que estariam aptas a cursar o ensino superior. A gente tem preponderância do ensino superior privado no Brasil”, lembrou Marina Aguas, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

A rede pública de ensino atende a maior parte dos estudantes brasileiros desde a creche até o ensino médio, período em que a taxa de escolarização da população na faixa etária avança para patamares de universalização. Em 2019, as instituições públicas concentravam 74,7% dos alunos na creche e pré-escola, 82,0% dos estudantes do ensino fundamental regular, e 87,4% dos que cursavam o ensino médio regular.

Dentre esses alunos, estava o confeiteiro Augusto da Silva Santos, de 18 anos, que começou a trabalhar aos 14 anos de idade. Quando estava no 1.º ano do ensino médio, ele se dividia entre a escola e o trabalho em um hospital em Guarulhos, na Grande São Paulo. Morador de Guaianases, na zona leste da capital, ele também ajudava a família nas tarefas domésticas. No 2.º ano, sofreu um acidente trabalhando em uma obra para ajudar a pagar as contas da casa e ficou dois meses afastado das aulas. 

"Sempre trabalhei. Ajudo com os afazeres da casa, faço a janta dos meus pais. Às vezes, não dava tempo de fazer as atividades de casa, mas eu não podia deixar de trabalhar."

Isso não o afastou dos estudos, nem quando quase perdeu o ano. "Quando sofri o acidente, fiquei internado por 21 dias. Fraturei o polegar esquerdo trabalhando em uma obra em um final de semana. Minha família estava passando por uma situação delicada e eu estava ajudando. Até fazer a cirurgia, tomou dois meses e acabei me atrasando em todas as matérias."

Apesar de todas as dificuldades, Santos, que sempre foi aluno de escola pública, conseguiu concluir os estudos com a ajuda da Educafro, entidade que atua na inclusão de negros no ensino superior por meio de cursinhos.

Na instituição, ele também auxilia outros jovens e coordena um projeto com aulas online com foco em vestibular, o Educafro 100% online. "Comecei a pensar nisso no ano passado e tem dois meses que teve início. No começo, eram dez participantes. Agora, temos 40. Com a situação da pandemia, não seria possível a gente se reunir para estudar. A gente vê o potencial das pessoas e, quando elas me procuram, faço um relatório sobre o que é o estudo para ela, vou tentando ajudar."

Agora, ele sonha em ser médico. “Minha família tem um histórico grande de problemas cardíacos.  Agora, o que quero é correr atrás para prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e tentar tirar uma nota boa para entrar em Medicina", finalizou. 

“A principal provedora é a rede pública, e cai bastante quando a gente vai para graduação e pós-graduação. Tem a ver com a nossa lei de educação, tem a infraestrutura montada pelos governos locais para prover esse ensino básico. Quando a gente parte para o ensino superior, a gente já percebe a presença das instituições privadas”, disse Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Rede pública 

Em 2019, 73,7% dos estudantes de graduação frequentavam uma instituição de ensino privada. Nos cursos de pós-graduação, a rede privada deteve 74,3% dos estudantes nessa etapa de instrução.

No Brasil, a proporção de pessoas de 25 anos ou mais de idade que terminaram a educação básica obrigatória – ou seja, concluíram, no mínimo, o ensino médio – alcançou 48,8% em 2019, ainda menos da metade.

Em 2019, 51,0% das mulheres passaram a ter ao menos o ensino médio completo em 2019, contra uma fatia de 46,3% dos homens. Entre os que não completaram a educação básica, 6,4% eram sem instrução, 32,2% tinham o ensino fundamental incompleto, 8,0% tinham o ensino fundamental completo e 4,5%, o ensino médio incompleto. O porcentual de pessoas com o ensino superior completo subiu de 16,5% em 2018 para 17,4% em 2019.

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