Ilustração sobre foto de Jonne Roriz/AE
Ilustração sobre foto de Jonne Roriz/AE

Iandé rapé iumbuesá*

Viagens longas e idioma são algumas das barreiras enfrentadas por grupo que forma professores de 48 etnias no Amazonas

Felipe Mortara, Estadão.edu

25 Abril 2011 | 23h16

Capacitar professores já é um desafio e tanto em cidades com infraestrutura de ensino e transportes. Imagine, então, a logística  necessária para criar uma rede capaz de qualificar professores de 48 das 72 etnias indígenas do Amazonas.

 

Alcançar os alunos é apenas um dos desafios do projeto Pirayawara, que desde 1996 gradua indígenas que atuam em suas aldeias como professores, mas não tem certificação formal. A Secretaria de Educação do Estado do Amazonas já qualificou 315 indígenas e 1.268 estão em formação. “O objetivo é titular esse educador, como num antigo magistério, apesar de muitos não terem o fundamental completo”, diz Alva Rosa, gerente de Educação Indígena da pasta.

 

De acordo com o Ministério da Educação, cerca de 9 mil professores indígenas já foram habilitados a dar aulas em toda a região amazônica graças a  programas como o da secretaria. Depois dessa etapa de formação, eles podem cursar licenciaturas interculturais em 2.900 vagas abertas em 20  universidades públicas, estaduais e federais.

 

No projeto Pirayawara, as turmas de cerca de 40 alunos têm aulas divididas em nove módulos de 480 horas cada um. Nesses módulos, indígenas de até  quatro etnias são reunidos em uma mesma aldeia ou prédio público de um dos 35 municípios alcançados pelo programa.

 

A equipe de formadores tem 15 profissionais, 6 deles de origem indígena, todos com experiência em salas de aula convencionais.  “Atuamos também como técnicos para ver como anda a estrutura das escolas, quais as necessidades deles. Ficamos mais tempo viajando do que na  gerência, em Manaus”, afirma Jeana Alice da Silva de Medeiros, de 33 anos, da etnia baré, que dá aula de matemática e de ciências.

 

Como os deslocamentos podem chegar a mais de mil quilômetros, os formadores ficam longe de casa por períodos prolongados. “Cheguei a passar 45 dias na floresta. Hoje, fico no máximo 20. Mas adoro dormir lá, é muito mais tranquilo do que na cidade”, conta Inafran Bastos, de 59, mais antigo formador do projeto.

 

Na convivência na floresta, o que mais fascina Inafran é o respeito entre os membros da aldeia. “A comunidade é muito irmã. Eles matam animais e repartem entre si. São muito educados.”

 

O curso e o material didático são em português, mas isso não é uma barreira na troca de conhecimento. “Eles falam a língua deles. Sempre há um tradutor que fala português. E temos também o nheengatú, originado do tupi-guarani, que funciona quase como um curinga na comunicação”, explica Otacila Lemos Barreto, de 49 anos, da etnia tucano.

 

Otacila diz que se diverte com os alunos, mesmo sem compreender o que eles falam, “É muito rico poder conviver com a tribo. Quando começam a falar a língua deles, você fica tontinha. Eles brincam muito com quem não entende”, conta ela, que há sete anos ensina filosofia, antropologia e sociologia.

 

Troca. Inafran, que não é indígena, acredita que o intercâmbio entre culturas que surge nas aulas é bom para os dois lados.  “Eles dizem que já sabem a cultura deles. Querem aprender outras. São professores que vêm para a cidade receber salário. Exigem da gente esse aprendizado  para não serem enganados”, afirma. “Querem estudar, ter acesso à tecnologia, de computadores e celulares, para saber as coisas para a promoção do próprio  povo.”

 

Jeana, que está seis meses no grupo e é a caçula entre os formadores, já percebeu o quanto essa convivência com as pessoas nas cidades pode ser  complicada. A professora conta que, quando se deslocam das aldeias para municípios como São Gabriel da Cachoeira, a 850 quilômetros de Manaus, alguns jovens  ficam com vergonha de se identificar como indígenas. Eles mudam o visual e evitam falar a sua língua. “A cultura passa de pai para filho. Se o jovem não  quiser mais passar isso adiante, como vai ser?”, questiona Jeana.

 

Um dos papéis dos formadores, aliás, é persuadir os professores da importância de seu papel naquelas comunidades. “O professor é uma referência, uma liderança indicada pelas famílias da comunidade, chamado para todas as decisões. A gente reforça a autoestima deles”, conta Alva, da secretaria.

 

Desafios. O curso de formação de professores indígenas deveria ocorrer duas vezes por ano, mas a burocracia e problemas de  orçamento fazem com que a cronograma se arraste. No município de Ládrea, o curso começou em 2001, mas ainda está na sétima das nove etapas.

 

“É necessário um entendimento entre o governo e as prefeituras para garantir a hospedagem e a alimentação dos formadores e formandos”, diz Alava. “Mas muitas vezes não se chega a um acordo.”

 

Outro complicador é o alto custo dos deslocamentos. Uma etapa realizada em 2010 em Atalaia do Norte, no Vale do Javari, a mais de 1.110 quilômetros em linha reta de Manaus, ou sete dias de barco, custou R$ 150 mil entre transporte e alimentação, ao longo de 52 dias.

 

Apesar dos percalços, Inafran comemora os resultados já alcançados pelo projeto de formação: professores da etnia mura, de Altazes, e alguns sateré-maué, da região de Maués, estão formados e cursando faculdades na Universidade Federal do Amazonas. “Quando comecei, a maioria não sabia nem o que era uma escola.”

 

Jurunas criam seu próprio internetês

 

A língua dos jurunas só ganhou uma versão escrita em meados dos anos 90, mas já tem seu internetês. A adaptação foi feita pelos próprios  indígenas, entusiastas do MSN, que têm acesso à web via rádio em aldeias do Parque do Xingu (MT). “De uma cultura oral, eles caíram de cabeça no digital”,  diz a linguista Cristina Fargetti, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Araraquara.

 

Cristina fez a pesquisa que levou ao primeiro registro do alfabeto juruna – hoje a língua escrita é usada em escolas e até em livros. Um trabalho minucioso, porque o juruna, como o mandarim, é tonal: a ênfase dada à sílaba altera o sentido da palavra. Conforme o tom, o termo ’a’a, por exemplo, pode significar morcego, pênis ou bocejo.

 

No caso do internetês, a adaptação ocorreu porque a pesquisa foi feita numa época em que o uso do computador não era tão disseminado. Na sua proposta de ortografia, Cristina sugeriu usar o til em todas as vogais nasais. Isso é possível na máquina de escrever, mas não no computador, que só admite o sinal em dois casos: ã e õ. “Eles decidiram usar a letra n depois das vogais para substituir o til. Perguntei se era uma reforma ortográfica. Disseram que não: ‘É só para a internet’.”

 

* “Nosso caminho do saber”, no idioma da etnia baré.

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