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'Humildade precisa ser exercitada desde início da carreira jurídica'

Advogados do escritório Rolim, Viotti & Leite Campos explicam como o estágio em Direito pode ser uma oportunidade para dar o pontapé na carreira

Fabio Mazzitelli, Especial para O Estado

28 Agosto 2016 | 03h00

Na fase de estágio em um curso de Direito, mais importante do que saber a cadeira em que você vai sentar ou as tarefas que vai cumprir é conhecer os advogados com quem vai interagir e apostar nas oportunidades que surgirão dessas interações.  

O Estado esteve em um dos grandes escritórios de advocacia de São Paulo para saber como estão sendo recebidos e avaliados os estagiários de Direito atualmente. Nesta entrevista, com os advogados João Dácio Rolim e Manuela Britto Mattos, do escritório Rolim, Viotti & Leite Campos, fica claro que, por mais sofisticado que esteja o sistema de avaliação de um estagiário, o exercício da humildade segue como uma das balizas para o sucesso na carreira jurídica.  

"Imagine um juiz, que está lá para decidir, se achar mais importante do que as partes que estão pleiteando os seus direitos", exemplifica Rolim, um dos sócios do escritório, que existe há 22 anos e hoje conta com representações em quatro cidades do Brasil e duas da Europa.

O escritório têm algum tipo de plano de carreira para o estagiário que chega à empresa? 

Manuela: A cada seis meses a gente avalia como o estagiário está indo, tanto se ele está gostando do escritório quanto se o escritório está gostando dele para ir renovando este contrato. E a gente costuma sempre dar um feedback. Claro que alguns se destacam e outros, não. Temos hoje duas advogadas da equipe que foram estagiárias e se formaram aqui. Na minha percepção, é a melhor formação possível. Uma delas foi estagiária, chegou a virar trainee no final da faculdade e depois foi efetivada. 

Rolim: Temos o exemplo também de dois sócios que entraram no escritório como estagiários. É uma demonstração de que tem uma carreira e que é possível segui-la.

  

Manuela: Vejo hoje muito estagiários manifestarem a necessidade de mudar drasticamente de área. Depois se arrependem. Quer conhecer tudo na fase de estágio? Ótimo. Mas por outro lado é um período curto que você tem para se aprofundar naquela área que já se interessa mais e conseguir também ser efetivado dentro do escritório. Sinto muito essa mudança, essa necessidade de conhecer tudo, o que traz uma dificuldade maior depois na hora que a pessoa quer se estabelecer. Vejo currículos em que o candidato estagiou em Trabalhista, Cível, Tributário, Societário... 

Essa necessidade de experimentar mais é algo diferente do que ocorria anos atrás? 

Rolim: Essa impressão de que o estagiário agora quer abarcar o mundo é mais atual. 

Manuela: Na época em que fui estagiária, mais de dez anos atrás, a maioria dos meus colegas foi efetivada no escritório. No meu primeiro escritório, fiquei seis anos. Hoje é muito difícil você ver uma pessoa jovem com um tempo grande em determinado lugar. A função hoje tem grandes facilidades com o processo eletrônico. Antigamente, você tinha que ir ao fórum só para tirar cópia, fazer protocolo, o que hoje é feito de forma muito mais simples. E aqui no escritório a gente ainda tem uma equipe que ajuda muito os estagiários no trabalho externo. Está mais simples, e mesmo assim falta mais disposição. Sinto falta de comprometimento de o estágio dar certo, de aproveitar o tempo de estágio conhecendo coisas novas, procurando saber como aquele tribunal trabalha, como aquela decisão é proferida, o que posso fazer nesta situação concreta, qual recurso... No estágio, você antecipa muitos conhecimentos que demorariam muito para assimilar na faculdade. É um tempo precioso, uma fase de aprendizado que você não vai ter muita oportunidade de recuperar depois se perder agora. 

Rolim, como foi o seu início na carreira? 

Rolim: Comecei na área tributária. Trabalhei na KPMG e na Price (PricewaterhouseCoopers) como advogado e depois, quando saí da PwC e formei o meu escritório, já tinha 12 anos de formado. Não foi planejado, aconteceu. Até por razões de independência. Você atuar como advogado em uma empresa com foco na auditoria... Hoje já está mais separado, mais regulado, mas na época não. Então decidimos por sermos mais independentes em um escritório de advocacia, não só em termos de opinião técnica, mas também de relacionamento com o cliente. No início, como estagiário, eu não tinha esse plano de ter um escritório, fundar um escritório.   

Quais vícios ou deslizes deveriam ser evitados no início da carreira de um advogado? 

Rolim: Uma parte importante para início de carreira é a humildade do advogado. O advogado tem uma tendência de ser vaidoso por causa dessa independência, dessa criação intelectual, de achar que a solução que eu tenho é a melhor ou que nós somos mais importantes do que o cliente. É o contrário. O advogado está para servir o cliente, dentro de padrões éticos e legais. Tem que encontrar a melhor solução possível para o cliente, mas não pensar que ele é mais importante do que o cliente. Não é isso. Essa questão é importante desde o início da carreira, senão já começa com esse desvio e aí é mais difícil de corrigir. Tem estagiário que às vezes diz "só quero fazer petição para o Supremo Tribunal Federal", não quer nem ir ao fórum. Estou exagerando... 

Manuela: Mas acontece. Desprezam todos os trabalhos. 

Rolim: Fiz trabalho de estágio e entrei lá no fórum, acompanhava o processo, tirava cópia. Hoje em dia, com a internet, não, mas esse aprendizado é importante também, ter a humildade de aprender. 

Manuela: Já entrevistei candidato a advogado júnior que, em vez de te perguntar qual é o trabalho, perguntava onde vou sentar, quantas pessoas vão estar na sala, se podia conhecer a sala de reunião... Como assim? O que é importante para você?  

É importante ter um tutor dentro do escritório? 

Rolim: Ah, sim, a gente trabalha aqui dividido em equipes.  

Manuela: A gente trabalha no escritório dividido por equipes, uma divisão por clientes. Os estagiários têm contato direto com os advogados. É uma relação muito aberta, informal. Eles tiram dúvidas, conversam, pedem trabalho ou dizem se está mais complicado, pedem ajuda. Fazemos reuniões técnicas também para discutir temas em voga ou temas mais polêmicos.  

Rolim: Nessas reuniões técnicas, às vezes, é convidado um estagiário para fazer uma apresentação. Isso faz parte do treinamento. O estagiário faz uma pesquisa sobre determinado assunto e expõe. 

E a seleção? Mudou muito a maneira de se recrutar um estagiário? 

Rolim: Quando fundamos o escritório, bem no início, a gente pedia indicação, era mais informal. Pedia para um amigo quando precisava de um estagiário. Hoje a gente mais recebe currículos e seleciona. É uma postura mais passiva. Quando recebemos indicações agora, entra no nosso processo formal, de prova técnica, entrevista e teste psicológico.  

Como é este teste psicológico?  

Manuela: Tem uma pessoa no nosso RH especializada nessa parte. A gente primeiro faz uma entrevista e comenta "este candidato gostei disso, fiquei com dúvida nesse ponto" ou "esse outro me passou tal imagem, veja o que acha". É um teste para avaliar o perfil do candidato e decidir. É muito trabalhoso você contratar uma pessoa, mobilizar todos os recursos para dali a um mês ver que não está funcionando. 

Rolim: Avaliamos as características. Essa pessoa me parece mais proativa, mais inibida, mais detalhista. Isso ajuda depois o advogado que estiver na equipe na hora de passar tarefa para eles. 

E o escritório busca, em geral, qual perfil de profissional? 

Manuela: Varia muito em função da vaga.  

Rolim: A gente busca sempre uma pessoa interessada, comprometida e que também tenha um mínimo de capacidade de comunicação, inclusive a escrita.  

Manuela: Ainda tem gente com um jeito de escrever muito rebuscado, complexo, frases confusas. A parte técnica você ainda consegue ensinar a pessoa que está em início de carreira, mas quando chega um candidato com uma redação confusa e um jeito de escrever truncado é muito mais difícil trabalhar isso.

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