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Hora de recomeçar

Quanto menos gente circular, mais as crianças podem ter uma escola com segurança

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h00

Nada parecia perfeito, como nas reportagens de jornal (que eu mesma escrevi). O dia amanheceu cinza, caiu uma chuva forte e depois, intermitente. A escola ligou avisando que a professora acordou com a garganta arranhando e não estaria no primeiro dia da volta presencial de Estela, minha filha, de 4 anos. Coisas do protocolo. A melhor amiga, Elena, também não deveria ir porque não havia tomado a vacina de gripe, outra exigência para voltar. Como repórter, eu havia presenciado a emoção de famílias retornando após sete meses de escolas fechadas durante a pandemia, e agora temia a frustração da minha filha e lidava com a minha própria, depois de tanta expectativa. Mas era hora de recomeçar. 

Segundo a Unesco, 1,4 bilhão de estudantes no mundo ficaram sem escola durante a pandemia, uns com mais estrutura, outros sem sequer um celular para estudar. Poucos com alimentação saudável, muitos com salgadinho e refrigerante. Alguns em casas em que a violência e o abuso são rotina. Outros, felizmente, sem esses problemas terríveis. 

Mas dados de outubro da Unesco informam que só 33% dos alunos ainda estão fora da escolas, em 35 países. A Europa toda já voltou com a educação, assim como Rússia e África do Sul. Canadá, Austrália, Argentina e Estados Unidos também já abriram algumas. 

Esses 1 bilhão de estudantes que voltaram não encontraram a escola que imaginavam, mas ainda encontraram uma escola. Nem o barulho é mais o mesmo. As instituições retornam silenciosas, pelo número reduzido de crianças permitido. Aqui, na capital, como em muitos outros lugares, são 20% por dia. Salas inteiras são reduzidas a três ou quatro crianças. Mas é preciso recomeçar. E todo recomeço é lento e gradual.

Há os pais que acreditam que não vale a pena mudar sua rotina já estabelecida depois de tanta dificuldade durante a pandemia, para levar a criança uma vez por semana na escola. Para os mais ricos, voltar da praia, do sítio, do conforto que foi conquistado em tempos de isolamento. Para os mais pobres, deslocar-se, passar pelo risco do transporte público. 

Há ainda as escolas, municipais, estaduais ou particulares, que decidiram por elas mesmas que não vale a pena. Mas como disse a representante da Unesco no Brasil, Marlova Noleto, precisamos de “sistemas educativos mais resilientes e inovadores, que encontrem as soluções adequadas para assegurar o direito à educação, um dos alicerces do desenvolvimento sustentável”.

A volta à escola não deve ser uma luta só das escolas e das famílias que dela fazem parte, bem disse também a Organização Mundial de Saúde (OMS). Precisa ser um desejo de todos, pensando no País que queremos. 

Mesmo os adultos que não têm relação nenhuma com escolas deveriam evitar frequentar bares, restaurantes, lojas, impedindo a contaminação de crescer quando ela começa a arrefecer. Quanto menos gente circular, mais as crianças e os adolescentes podem ter uma escola com mais segurança. Não são eles que devem ficar em casa para que possamos ter uma vida com cinema e churrasco de novo. 

E não adianta achar que em 2021 tudo se resolve. O ano letivo deixou de existir depois do coronavírus. Agora contam-se os dias perdidos, as experiências perdidas, as aprendizagens perdidas. Não importa o calendário. Conselhos e órgãos oficiais não recomendam a repetência e pedem que 2020 e 2021 sejam considerados como um só ano na escola. E quando dois se tornam um é claro que há perdas. 

Finalizando a história: a minha Estela finalmente recomeçou. Foi sem choro – dela e da mãe. A melhor amiga heroicamente tomou a vacina e apareceu. E na hora da saída minha filha me deu o sorriso satisfeito de toda criança que passou o dia onde deveria estar. 

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADÃO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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