Herança técnica

Das dez unidades mais bem avaliadas no Enem da região leste, três são escolas técnicas

Arthur Guimarães, especial para O Estado,

15 Outubro 2009 | 13h48

Aos 18 anos, Evandro Fernandes estava num impasse. Precisava decidir se continuava no departamento de engarrafamento da Cervejaria Antarctica ou se deixava o emprego recém-conquistado para fazer um curso técnico, que tinha aulas em período integral duas vezes por semana. Percebeu que poderia conciliar as duas coisas quando passou na seleção do curso de mecânica da Escola Técnica (Etec) Walter Belian, na Mooca. A unidade havia sido criada nos anos 40 e mantida por décadas pela própria Antarctica. Evandro teve a boa vontade da empresa e da escola e conseguiu fundir as jornadas, a profissional e a escolar. "Passei a unir teoria e prática. Sem a ajuda dos professores, dificilmente teria conseguido progredir na fábrica", conta Evandro, hoje com 37 anos, gerente de aplicações mecânicas da fabricante de máquinas Rivaltec. "A equipe tinha educadores sérios, eram até autores de livros teóricos conhecidos. E a escola tinha equipamentos muito bons, como máquinas de usinagem." A fábrica da Antarctica na Mooca já não funciona mais e muitas indústrias deixaram a zona leste. Mas o ensino profissionalizante ainda é uma marca da região. Das dez unidades mais bem avaliadas no Enem, três são escolas técnicas, como a Walter Belian e a Etec Camargo Aranha, na Mooca. Foi na Camargo Aranha que Evelin Rodrigues Pereira, de 25 anos, estudou contabilidade de 1999 a 2001. "Como só entra gente mais qualificada, por conta do processo seletivo, a maioria dos colegas está no mercado de trabalho. Hoje tenho amigos em tudo o que é lugar. Dou aula de graduação numa faculdade (a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, Fecap) e faço pós, tudo ligado à contabilidade." Rodrigo Medeiros Lima, de 18, seguiu um caminho parecido. Deixou no ano passado a Etec Martin Luther King, no Tatuapé, para cursar Engenharia Química na USP. Mais difícil que passar no vestibular foi ficar entre os 301 medalhistas de ouro da edição de 2008 da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, da qual participaram 18,3 milhões de estudantes. "No Luther King, a direção inscreve os alunos na competição. até como forma de avaliação. Como fui incentivado a estudar, acabei me dando bem. Os professores ensinaram a ter força de vontade e organização. Isso conta muito." Nem todas as boas escolas da zona leste se destacam pelo ensino técnico. É o caso do Santa Marina, na Vila Carrão, um dos colégios mais tradicionais da região. Para Guilherme Porto de Abreu, de 18 anos, o Santa Marina o ajudou a pensar além do vestibular. "Eu me preocupo mesmo é com o lado social, em buscar saídas para problemas atuais." Na escola, Guilherme organizava fóruns inspirados na Organização das Nações Unidas (ONU), como atividade extracurricular. "Cada aluno representava um país. E tinha de defendê-lo, usando argumentos embasados. Isso me fez pensar globalmente e a começar a me preocupar com o próximo", diz Guilherme, aluno de Geofísica da USP. "Quero entender o pré-sal, que pode ajudar no desenvolvimento do Brasil, e em pesquisar como será a busca por água e minerais no futuro." CONFESSIONAISOutra característica da zona leste é o bom desempenho no Enem de escolas confessionais, como a Agostiniano Mendel, no Tatuapé, única representante da região no ranking das dez melhores da cidade. "Meu maior aprendizado foi a disciplina. A gente não percebe direito a importância de ser cobrado. Depois, vê que valeu a pena", diz o estudante de Medicina da USP Gustavo Noboru, de 18, ex-aluno do Mendel. "Mas percebo que meus colegas de universidade tiveram uma formação diferente, com aulas de filosofia e sociologia. Sinto um pouco de falta disso." Aluno do Colégio Espírito Santo, no Tatuapé, no fim dos anos 50, o publicitário Washington Olivetto guarda uma imagem oposta do ambiente de disciplina rígida normalmente associado a escolas religiosas. "As freiras eram muito pouco coercitivas." Em vez de sermões, Olivetto lembra de aulas de iniciação musical. "Acho que tem a ver com os conceitos da chamada escola moderna, as irmãs já tinham uma preocupação com arte naquela época", diz. "Outra coisa que eu achava o máximo era estudar num colégio misto. Era visivelmente apaixonado por uma professora, a Daniela, e pela Sidneia, irmã do meu colega Sidney."

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