‘Há alfabetização científica e tecnológica’

Especialista destaca que iniciativas dão a crianças de até 3 anos capacidade analítica e de observação

Entrevista com

Deise Peralta, professora do Departamento de Matemática da Unesp

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

02 Novembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Deise Peralta iniciou em julho um grupo com alunos universitários para ensinar robótica e programação a alunos de 3 a 6 anos e diz que as aulas de robótica são uma “alfabetização científica” para as crianças e estimulam o pensamento dos alunos.

Para a criança, qual a importância de aulas de robótica?

Podemos destacar contribuições da robótica nos diversos níveis de ensino. Na educação infantil, com crianças de 3 a 5 anos, é desenvolvida uma capacidade analítica de observação de fenômenos. Mesmo os mais novos adquirem noção de causa e efeito e de necessidade de adequar o que se faz de acordo com o objetivo pretendido. A robótica na educação infantil cria oportunidades de alfabetização científica e tecnológica. No ensino fundamental, dos 6 aos 13 anos, nossas pesquisas têm demonstrado que um ambiente de programação em língua portuguesa é essencial para o processo de alfabetização e letramento. O desempenho dos alunos em Matemática e nas Ciências Naturais pode ser atestado pelo aumento das notas em avaliações. Já a partir dos 14 anos, a principal contribuição é o potencial de tornar o aluno produtor, e não apenas consumidor de tecnologia digital, pois a construção e a manipulação de robôs podem servir de plataforma para fazer conexões entre as áreas do conhecimento e o mundo social, científico e talvez até o profissional. Em escolas públicas há pesquisas que mostram a contribuição da robótica na superação da exclusão de alunos e também têm reforçado o papel socializador e educativo da escola ao não permitir que os alunos sejam expostos à experiência do fracasso escolar.

Ao ter uma melhor compreensão sobre robótica e programação a criança tem mais facilidade para entender conceitos de outras disciplinas consideradas difíceis, como Matemática, Física e Química?

Pesquisas desenvolvidas por neurocientistas têm chamado a atenção para o fato de que montagem e programação de robôs possibilitam, de forma geral, melhor estruturação do pensamento e de comportamentos em relação à solução de problemas. Isso porque melhora a capacidade analítica, a percepção de causa e efeito em fenômenos observáveis nas diversas áreas do conhecimento, a relação entre conceitos e interpretação de problemas. Alunos participantes de pesquisas relatam que conceitos de Matemática, Física e Química se tornam “menos abstratos” e “mais atrativos” se tratados dentro de um projeto envolvendo robótica. A robótica ainda foi avaliada pelos alunos como responsável por eles conseguirem enxergar a relação dos conceitos dessas disciplinas, culturalmente consideradas difíceis.

As escolas deveriam ver as aulas de robótica como um fim em si próprio, já que é uma linguagem do futuro? 

As escolas deveriam ver a robótica não como um fim em si mesmo, mas como uma alternativa ao ensino tradicional de conteúdos curriculares na educação básica, admitindo que ela tem o potencial de tornar o aluno produtor e não apenas consumidor de tecnologia digital nos processos de ensino de forma interdisciplinar. A robótica, ao se apresentar não como ação estratégica de instrumentação, mas como oportunidade de interagir com o mundo em uma relação de autoria, aparentemente, tem se mostrado capaz de promover ação e reflexão, tornando o aluno mais consciente de suas ações escolares.

O ensino de robótica parte do princípio da autonomia do aluno sobre o seu aprendizado e de como resolver problemas sozinho. Esse princípio deveria ser expandido para as outras disciplinas? 

O princípio da autonomia do aluno em atividades que requerem habilidades de resolução de problemas, tão preconizado pelas atividades de montagem e programação de robôs, pode servir de inspiração para o funcionamento das escolas. O contexto escolar precisa se transformar e formar protagonistas no mundo. As habilidades e comportamentos requeridos em atividades de robótica, muito além das habilidades técnicas, são desejáveis em todos os processos educacionais. Parece possível afirmar que a robótica na escola pode se pautar pelo ideal de que é possível criar sempre.

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