Guti Fraga diz o que queria saber aos 21 anos

Para o criador do Nós do Morro, se soubesse como o teatro mudaria sua vida, teria fundado o grupo há muito mais tempo

Elida Oliveira, Especial para Estadão.edu

14 Dezembro 2009 | 23h15

Guti Fraga é um turbilhão de pensamentos e emoções e sempre foi assim. Não seria nada mal para o ator e diretor, se somente o palco ou a encenação pudessem dar conta de toda a sua energia. Mas ele queria mais. Ainda jovem, enquanto buscava o caminho, começou três cursos de graduação: Medicina, Agronomia e Jornalismo. Concluiu Jornalismo, mas nunca colou grau. Sua história estava mesmo no teatro. Foi como criador do grupo de teatro Nós do Morro que Guti Fraga se sentiu realizado.   Em entrevista ao Estadão.edu para a seção Coisas que eu queria saber aos 21, Guti fala sobre os conflitos de uma alma inquieta que sabe o que não quer e tateia no escuro procurando o que o faça feliz. Confira abaixo o depoimento:   "Aos 21 anos eu vivi minha primeira grande aventura. Na época eu morava em Goiânia, mas estava em viagem com o elenco da peça Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, que apresentávamos em Ouro Preto. Esperava a resposta de uma bolsa de estudos em Moscou para Agronomia. Sabia que pelo teatro não teria muitas bolsas, mas com Agronomia, sim. Em Ouro Preto recebi a negativa da universidade. Sempre fui inquieto, tive uma origem humilde e viajar por aí parecia para mim uma coisa inimaginável.   Na época, tinha uns amigos que planejavam morar na Argentina. Decidi ir para lá com eles. Foi um divisor de águas na minha vida. Passei um ano morando em Córdoba, depois em Mendoza. Fazia Medicina de manhã, Agronomia de tarde e Teatro à noite. Lá na Argentina aprendi uma coisa muito importante, que é respeitar os costumes de um lugar. Acho que a base das relações humanas é isso: respeitar as diferenças.   Depois disso, não quis voltar a Goiânia. Fui para o Rio. Desisti da Medicina e da Agronomia e me formei em Jornalismo na Uerj. Escrevi minha primeira matéria nos anos 80, com uma amiga, Helena Caroni. Era sobre a vinda do papa João Paulo II ao Brasil e conseguimos a capa do Pasquim. Eu tinha um jornal mural na comunidade em que morava, na Favela do Vidigal, e também coloquei matérias sobre o assunto. Não sei por quê, fui repreendido, tiraram meus jornais de circulação e levei um soco na cara de um desconhecido. Devem ter achado que eu era comunista, algo assim. Logo eu, que nunca fui de censurar, mas de provocar. Nunca quis escrever mais nada e esqueci meu verdadeiro nome: Gotschalk da Silva Fraga.   O teatro sempre esteve forte em mim. Achava uma das coisas mais loucas a possibilidade de fazer viagens, conhecer pessoas, circular por qualquer classe econômica e cultural, graças a ele. Foi isso que me fez ter vontade de criar o Nós do Morro, no Vidigal, em 1986. Queria dar oportunidade a quem não tinha.   Não queria apenas um grupo de teatro, mas trabalhar o coletivo, formar bons cidadãos, dar noção de responsabilidade para a garotada. Muitos pensam que isso é caretice, mas ter responsabilidade é a única forma de fazer com que as coisas funcionem.   Se eu soubesse disso aos 21 anos, teria cortado caminhos e fundado o Nós do Morro antes. Mas olho para trás e não me arrependo de nada. Continuo achando que você não deve abrir mão dos seus sonhos. Fui levado por um sentimento que não sei explicar. Faria tudo de novo, e multiplicado. Minha religião é a arte."

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