Grupo Estado adota nova ortografia a partir de 1º de janeiro

Leitor receberá informação completa sobre alterações, aceitas por 8 países, no decorrer das próximas semanas

José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo,

24 de novembro de 2008 | 20h28

O Grupo Estado vai adotar, a partir do dia 1º de janeiro de 2009, o Acordo Ortográfico aprovado em 1990 pelos oito países de língua portuguesa.   Veja também:  Acordo ortográfico divide opiniões de especialistas  Teste seus conhecimentos sobre o acordo    Embora o decreto assinado em 29 de setembro deste ano pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio, tenha estabelecido um cronograma com tolerância de quatro anos, até dezembro de 2012, para aplicação do acordo, O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Agência Estado e os portais na internet adotarão as novas regras na data em que elas entram oficialmente em vigor.   Aprovado pela ABL e pela Academia de Ciências de Lisboa, o Acordo Ortográfico foi assinado por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em 1990 e depois recebeu a adesão do Timor Leste e de Macau (região administrativa especial da China que também fala o português).   "O fato de um jornal como O Estado de S. Paulo aplicar o acordo desde o primeiro dia é uma grande contribuição para a fixação e adoção das mudanças ortográficas", disse o filólogo e acadêmico Evanildo Cavalcante Bechara, responsável na ABL pela aplicação do acordo.   Bechara, que participa da organização do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a ser publicado pelo setor de lexicografia e lexicologia da ABL em janeiro ou fevereiro, acredita que a adoção da nova ortografia pelo Grupo Estado ajudará os leitores a se familiarizar logo com as mudanças.   "Os leitores terão uma memória visual das novas grafias e assim absorverão com naturalidade e rapidez as regras do Acordo Ortográfico", observou Bechara. Isso significa que, mesmo sem estudar ou discutir as razões da reforma, o brasileiro aprenderá a grafar as palavras corretamente.   Aprendizagem fácil   Na opinião do acadêmico, será uma aprendizagem fácil, porque as mudanças trazidas pelo Acordo Ortográfico, na maioria dos casos, simplificam a grafia. "Mesmo que não entenda por que pôde (pretérito perfeito do indicativo) e pôr (infinitivo) continuem tendo acento circunflexo, quando a regra foi acabar com os acentos diferenciais."   O acordo ressuscita o uso de três letras que haviam sido riscadas do alfabeto - k, w, y - e acaba com o trema, além de simplificar o emprego do hífen, até agora um dos desafios para uma escrita correta.   Desaparece o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver - creem, deem, leem e veem (mais informações nesta página).   O prazo de tolerância no cronograma de aplicação das novas normas é de quatro anos a partir de janeiro de 2009.   Embora o acordo entre em vigor em janeiro, as regras antigas, até agora em vigor, serão toleradas nesse período, de uso facultativo, em vestibulares, provas escolares, exames e concursos públicos.   "Os livros didáticos terão de se enquadrar às regras do acordo até 2010, quando o Ministério da Educação deixará de comprar obras que não tiverem adotado as mudanças", explicou o acadêmico Evanildo Bechara.   As principais mudanças nas regras   O fim do trema: o acento será totalmente eliminado. A palavra 'freqüente' passa a ser escrita 'frequente'. A única exceção serão as palavras de origem estrangeira.   Inclusão de letras: as letras antes suprimidas do alfabeto português (k, y e w) voltam, mas só valem para manter a grafia de palavras estrangeiras.   Fim das letras mudas: Em Portugal, é comum a grafia de letras que não são pronunciadas como 'acção' para 'ação'. Elas sumirão. No caso das letras mudas pronunciadas na norma culta de um país, como 'facto', usado em Portugal no lugar de 'fato', consagra-se a dupla grafia.   Eliminação de acentos em ditongos: acaba o acento nos ditongos 'ei' e "oi' paroxítonos. Dessa maneira, 'assembléia' vira 'assembleia' e paranóico, paranoico.   Acento circunflexo: quando dois 'os' ou dois 'es' ficam juntos, o acento some. Logo, 'vôo' vira 'voo', lêem, leem.   Acento diferencial: o acento que diferenciava palavras homônimas de significados diferentes acaba, na grande maioria dos casos. Conseqüentemente, 'pára', do verbo parar, vai ficar apenas 'para', e as formas pêlo (substantivo), pélo (verbo pelar) e pelo (preposição) passam a ter a mesma grafia, pelo. São exceções os acentos que distinguem "pode" (presente do verbo poder) de "pôde" (pretérito perfeito do mesmo verbo) e por (preposição) de pôr (verbo). Passam a ser facultativos acentos diferenciais nos seguintes casos: dêmos (presente do subjuntivo, primeira pessoa do plural) e demos (pretérito perfeito, primeira pessoa do plural), forma e fôrma e nos verbos onde pode haver confusão entre o pretérito perfeito e o presente do indicativo, como amámos (pretérito perfeito) e amamos (presente).   Ter e vir: esses verbos e seus derivados continuam a ter acentuação diferenciada no plural e no singular: ela vem, elas vêm, ele contém, eles contêm.   Cai o acento do "i" e "u" tônicos dos hiatos em paroxítonas, quando precedidos por ditongo: feiúra passa a ser feiura. Caso a palavra seja oxítona, o acento se mantém, como em Piauí.   Proparoxítonas: continuam a ser todas acentuadas, mas passam ser admitida dupla grafia, como nos casos em que há divergência entre os países, como econômico (Brasil) e económico (Portugal). A dupla acentuação vale para todas as palavras onde há esse tipo de divergência, como matinê e matiné, Vênus e Vénus.   Verbos: passa a ser aceita dupla grafia em certas formas verbais onde há diferença entre a pronúncia culta e a popular. Assim, averíguo, por exemplo, passa a ser uma forma alternativa de averiguo.   Hifens: o acordo estipula novas regras - algumas de interpretação ainda controversa - para o uso do hífen, incluindo normas específicas para a hifenização de nomes de lugares e de espécies de animais e plantas. A maioria dos hifens em palavras compostas desaparece. Assim, pára-quedas vira paraquedas, co-autor vira coautor, contra-regra, contrarregra, anti-semita, antissemita. Mas circunavegação ganha um hífen e torna-se circum-navegação. Além disso, será mantido o hífen em palavras compostas cujo segundo componente começa com h, como pré-história. Nesse caso, a exceção são os prefixos des e in: desumano, inábil, inumano ficam como são. Em substantivos compostos onde a última letra da primeira palavra e a primeira letra da segunda palavra são as mesmas, será feita a introdução do hífen. Assim microondas vira micro-ondas. A exceção é co: cooperar, coordenar, por exemplo, continuam do mesmo jeito.

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