JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Grupo de estudo via celular facilita aprendizado e dá autonomia a alunos

Estudantes do ensino fundamental e médio estão criando opções por salas e anos no WhatsApp; eles se responsabilizam por áudios, vídeos, textos e fotos que explicam conteúdos aos colegas

Isabela Giantomaso e Hannah Cliton, especial para O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2018 | 07h00

SÃO PAULO - “Filho, sai do celular e vai estudar.” A frase, dita muitas vezes por pais, pode ganhar um novo contexto. Com smartphone na mão e uma rede 3G ou Wi-Fi, estudantes do ensino fundamental e médio estão criando grupos de estudo no WhatsApp – para transmitir informações passadas em sala de aula, além de ajudar os colegas a tirarem dúvidas.

Os grupos de estudos são divididos por salas ou anos. Isso para que ninguém fique sem receber recados ou sem acompanhar o cronograma de tarefas e provas. Alunos do Colégio Sagrado Coração de Jesus, na zona oeste de São Paulo, os irmãos Carolina e Nicolas Zampoli, de 14 e 16 anos, respectivamente, aprovam e participam da novidade. Para ela, que está no 9.º ano, o principal diferencial está na resolução de questões. “Antes, a gente tinha de ligar para alguém ou correr antes da prova para perguntar tudo que não entendeu”, lembra. 

De acordo com os irmãos, outra característica importante é a diversidade de formatos: os alunos enviam áudios, vídeos, textos e fotos para explicar os conteúdos, de forma que cada um encontre sua maneira ideal de estudar. “Eu tenho muita dificuldade em fazer resumos – e um pouco de preguiça. Quando mandam no grupo, com os textos organizados, é ótimo para estudar”, conta Nicolas, que está no 2.º ano do médio.

Conforme os alunos, História, Matemática, Física e Química são as campeãs de dúvidas. A primeira por conter muitas datas e acontecimentos. Já as de Exatas pelas equações e, de acordo com Carolina, “pelo terror da tabela periódica”. “Tudo que envolve fórmulas e ‘decoreba’ gera mais dúvidas”, conta.

Método varia conforme a disciplina

Do outro lado dos grupos, Luisa Henriette, de 16, participa mais ajudando os colegas do que tirando as próprias dúvidas. Entretanto, a estudante do 2.º ano do médio do Colégio Dante Alighieri acredita que o trabalho de voluntária também a auxilia durante os estudos.

“Quem está ensinando aprende muito também. Eu faço os vídeos para 36 pessoas, então tem de ser fácil de entender”, explica. Ela costuma se filmar resolvendo questões de Matemática e Física, que, segundo ela, não podem ser compreendidas apenas com uma foto da resposta. “É melhor para mostrar o raciocínio, pois (os colegas) conseguem entender de onde veio cada número.” 

O método varia conforme a disciplina. “Para Literatura, uma amiga faz áudios de 20 minutos contextualizando cada capítulo do livro”, conta ela. “São áudios enormes, mas com todas as metáforas possíveis.”

Professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Dirce Zan vê os grupos como um importante passo para a autonomia dos alunos. “É importante que tenham esses espaços para aprenderem a estudar sozinhos, compartilhar dúvidas e aprendizados.” E as escolas podem ajudar. “O professor precisa refletir e ajudar a confrontar os conteúdos com outros materiais”, indica. “O aluno deve construir, com base no que os colegas enviam, o próprio argumento, sem estudar apenas com o resumo recebido.”

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Isabela Giantomaso e Hannah Cliton, especial para o Estado

29 Outubro 2018 | 07h00

SÃO PAULO - Além dos grupos de estudo no WhatsApp, resumos escolares de diversos assuntos são compartilhados no Instagram em perfis conhecidos como studygrams, palavra em inglês que une study (estudo) e Instagram. Uma busca pela #studygram mostra mais de 2,5 milhões de publicações, enquanto a versão brasileira dessa hashtag, #studygrambr, apresenta mais de 26,3 mil posts. 

“Cada um tem seu estilo de estudo, o meu é fazer resumos”, conta Fabiana Silva, de 18 anos, que publica seu material no perfil @olhomagicoporfabi. Os posts combinam mapas mentais, esquemas de estudo, caligrafias desenhadas, conhecidas como lettering, e artigos coloridos de papelaria. 

Já a estudante Thaís Lopes dos Passos, de 18, conheceu o mundo dos studygrams quando pesquisava sobre Arquitetura, faculdade que deseja cursar. Ela, que sempre gostou de fazer resumos coloridos e com desenhos, decidiu começar a publicá-los na rede social para ajudar estudos de outras pessoas. Os temas vão de geomorfologia à guerra fria e incluem dicas e a discussão de assuntos que podem cair na redação do Enem.

Com o perfil no Instagram @studies.t, ela já conquistou mais de 72,6 mil seguidores, que interagem com as postagens e pedem para compartilhar os resumos pelo Google Drive, para que possam imprimir e estudar. “Várias vezes eu preciso explicar que faço os resumos conforme a matéria que estou estudando, não é por encomenda”, conta Thaís. 

A maior parte dos studygrams é sobre assuntos que podem cair no Enem ou em vestibulares, mas alguns perfis abordam assuntos mais variados, como é o caso do @studykidss, criado pela estudante Camila de Oliveira Jorge, de 10. Incentivada pelos alunos da mãe, a professora de Química Silvia Maria de Oliveira Jorge, Camila precisou insistir com os pais por bastante tempo antes de autorizarem a criação.

“O perfil acabou sendo um incentivo para ela. Nós recebemos muitas mensagens de crianças, adolescentes e adultos falando como está inspirando as pessoas para uma coisa boa, é muito legal”, opina a mãe. Em 5 meses, o perfil passou de 122 mil seguidores.

E a febre dos studygrams também chegou ao YouTube. Vídeos com dicas de estudo e testes de produtos de papelaria fazem sucesso e alcançam milhares de visualizações. Fabiana, que também faz posts sobre o assunto no Instagram, conta que prefere o YouTube, onde tem mais retorno do público. “O meu foco é postar dicas de estudos e como se motivar para estudar. Não sou muito focada em resumos”, diz a estudante de Direito, que tem mais de 118 mil seguidores no Instagram e 155 mil inscritos no canal.

Muitos pais podem até ver esse uso da tecnologia como uma distração, e não como uma ferramenta de aprendizagem. Mas, de acordo com a professora da Faculdade de Educação da Unicamp Dirce Zan, o uso do celular é frequente na vida de todos e deve ser incorporado à rotina estudantil. “Não é a tecnologia que cria o problema. Há estudos que indicam que a internet ajuda até mesmo os mais distraídos e pode ser um facilitador.”

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