NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Greve faz professor dar ‘aula secreta’ em universidades estaduais

Docentes de USP, Unicamp e Unesp relatam intimidação e piquetes; grevistas dizem que ações foram aprovadas em assembleias

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

22 Junho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Professores e alunos das universidades estaduais paulistas, que registram greves desde o mês passado, têm combinado reuniões secretas para driblar piquetes e feito aulas em locais sigilosos para poder trabalhar e evitar a perda do ano letivo. Alguns delesgravaram vídeos para documentar invasões às salas de aula, que tentam paralisar as turmas. Os grevistas alegam que todas as suas ações foram aprovadas em assembleias estudantis e sindicais.

Um exemplo do conflito interno que está ocorrendo nas Universidades de São Paulo (USP), Estadual Paulista (Unesp) e de Campinas (Unicamp) é um vídeo distribuído pelas redes sociais que registra o momento, na quinta-feira, em que o professor do Instituto de Matémática, Estatística e Computação Científica da Unicamp Serguei Popov tem a aula de Probabilidade interrompida. Nele é possível ver que o docente tenta continuar a passar conteúdos e usa fones de ouvido para não se distrair com tambores e outros instrumentos musicais, trazidos por grevistas.

Na sequência, Popov é interrompido por um jovem. O rapaz apaga o conteúdo escrito pelo docente na lousa. “Três indivíduos chegaram falando que eu não poderia dar aula porque uma assembleia decidiu pela greve. Expliquei que eu não estou em greve e no Brasil ninguém é obrigado (a participar de uma paralisação), mas eles entraram assim mesmo, à força”, disse o professor.

Popov chegou a mudar de sala para evitar os piquetes, mas diz que está sendo vigiado. “Se a aula começa, eles chamam reforços, chegam com bumbos para fazer barulho. Começam a gritar, intimidar os alunos, chamando de ‘fura greve’. Resolvi não me curvar. Não conheço um professor da Unicamp que tenha aderido.”

O movimento Ocupa Tudo Unicamp informou que, no caso citado, o aluno tentou por “diversas vezes” dialogar com Popov para liberar os estudantes, “pois o instituto está em greve estudantil”. “E se deliberou pelo bloqueio das salas para que nenhum aluno fosse prejudicado com falta ou repasse de conteúdo.” O mesmo grupo divulgou um vídeo em que Popov aparece tentando impedir que um estudante entre na sala.

Ainda na Unicamp, a professora de Estatística Hildete Pinheiro contou que já passou conteúdos até embaixo de uma árvore para evitar a perseguição. “Meus alunos querem aula e eu quero dar aula.” Para suprir a falta de um quadro negro, ela entregou avaliações em branco para orientar como resolver os exercícios. “Há pelo menos três semanas, tenho de dar aula escondida. Se aviso onde vai ser, eles (os alunos grevistas) descobrem e impedem que aconteça.”

Em outro episódio, a docente relatou que precisou trancar-se na sala para orientar seis estudantes. “Ficaram esmurrando minha porta. Passei 30 minutos trancada, com eles gritando lá fora. Estou há quase 20 anos aqui e nunca vi uma falta de respeito dessas.” Procurada, a Unicamp informou que “vai tomar providências”.

Capital. Na USP, os professores que mantiveram as aulas também têm mudado de sala – e relatam perseguição dos estudantes. “Não só eu, mas muitos que quiseram dar aula em lugares alternativos foram perseguidos, as salas foram invadidas pelos grevistas e aulas e provas acabaram interrompidas”, afirmou o chefe do Departamento de Física-Matemática, Gustavo Burdman. 

A professora Renata Zukanovich, do Instituto de Física da USP, relatou que desde o começo da paralisação, no dia 30, também tem marcado reuniões “secretas” com os alunos para combinar onde fazer as provas. Ela ressalta também que os grevistas fazem “cyberbullying” com outros alunos para pressioná-los a participar dos atos em favor da paralisação. “Estão ameaçando os colegas”, disse.

A pressão sobre os estudantes e professores aconteceria ainda na Unesp. O professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da universidade José Duarte Neto contou que precisou gravar um vídeo dos alunos que tentaram interromper uma aula, para que saíssem da sala. “Com a gravação, eles ficaram receosos e não me desrespeitaram nem impediram o meu ingresso.” Ele disse ainda que alguns estudantes estão sendo “ameaçados” pelos grevistas para faltar às aulas. 

Defesa. Para o professor João Chaves, coordenador do Fórum das Seis - entidade que representa os sindicatos de funcionários e professores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - a briga entre estudantes e alunos por espaço nas salas é "lamentável". "Assembleias são convocadas e há ampla divulgação para que todos compareçam. Quem faz isso muitas vezes não comparece. Penso que estas são decisões  coletivas. Se estas pessoas não aparecem para dar opinião, acaba sendo decidido pela maioria", disse. 

Ao Estado, a diretora do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP e estudante  do 2º ano de Geografia, Gabriela Ferro, disse que cada unidade pode aderir à greve como preferir, seja com piquetes, seja com ocupações nos prédios. "Geralmente quando se vota greve, é para não ter aula. O piquete é um método utilizado. Fazemos piquete para garantir que nossa greve seja viabilizada. Não vejo novidade nisso", disse. Ela diz que "87% dos cursos da USP já tiveram paralisação em algum momento".

 

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