Greve de professores mineiros completa 100 dias

Estado tem algumas das melhores escolas do País no Enem, mas essas não estão em greve

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu

15 Setembro 2011 | 11h05

A greve dos professores da rede estadual de Minas completa 100 dias nesta quinta-feira. O sindicato da categoria reivindica o cumprimento de uma lei federal de 2008, que instituiu o piso salarial. A paralisação afeta principalmente alunos que prestarão mês que vem o vestibular num Estado com alguns dos colégios particulares mais competitivos do Brasil no Enem.

O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE) declarou greve em 8 de junho, um mês depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) entender que o piso nacional deve ser interpretado como vencimento básico,  isto é, sem gratificações e outros adicionais.  O governo de Minas, segundo o sindicato, soma as gratificações para chegar ao piso, e portanto não cumpre a lei. "Minas Gerais deve ser em outro país", diz a líder do sindicato, Beatriz Cerqueira. "O que o STF decide não é cumprido, as leis não são respeitadas." Segundo ela, mais da metade dos professores da rede estadual recebe hoje menos de R$ 712, que deveria ser o piso para uma jornada de 24 horas por semana. No Estado, o piso para um professor sem ensino superior, com essa carga horária, é de R$ 369.

Como resposta à greve, o governo estadual contratou professores substitutos em agosto, somente para as turmas do 3º ano do ensino médio, medida contestada pelo sindicato no Tribunal de Justiça de Minas. O TJ manteve a contratação. O governo também criou o Plantão Enem, programas televisivos de reforço escolar veiculados na Rede Minas, com duração de 2 minutos. Nesta semana, enviou projeto de lei à Assembleia Legislativa com nova proposta de remuneração, também rejeitada pelo sindicato. "O novo projeto prevê a mesma remuneração para o iniciante e para o servidor ao final da carreira", reclama Beatriz.

Depois de dois meses e meio sem ir ao Instituto de Educação, Rafael Ribeiro, de 17 anos, voltou a ter aulas, agora com os professores substitutos contratados emergencialmente. "É a mesma coisa que não ter aula", afirma o estudante. "Exceto por física e biologia, os substitutos não têm didática e não se impõem na sala de aula." Além disso, segundo ele não há professores para sociologia nem química. "No horário dessas aulas, a gente fica na rua, joga baralho, desenha no quadro", conta. Rafael quer uma bolsa para estudar Ciências Aeronáuticas na Fumec, uma das maiores universidades particulares de Belo Horizonte, ou talvez cursar Relações Internacionais na PUC-Minas.

Yasmin Goulart, de 17 anos, está no 3º ano da Escola Estadual Donato Werneck, zona norte de BH. O professor de inglês substituto disse aos alunos não ser professor de inglês e não ter experiência, diz ela. Mas em compensação o novo professor de matemática é melhor. "As aulas de todas as matérias viraram revisão pro Enem", conta. "Ficou tipo um cursinho." Para Yasmin, os professores estão este ano mais persistentes do que na greve de 2010, que durou 49 dias. "A greve é justa para os professores, mas injusta para os alunos", diz. Yasmin quer ser professora e cursar Pedagogia na UFMG, mas sua primeira opção é a graduação em Dança da Federal de Viçosa (UFV).

Cézar Augusto Ferreira, de 18 anos, cursa na Escola Estadual Tancredo Neves o 2º ano, e portanto está sem aulas há 100 dias. Aproveitou o tempo livre e começou há poucas semanas um curso de inglês, com aulas às terças de manhã. Não conhecia o Plantão Enem, mas assiste ao Telecurso 2000 de vez em quando, quando acorda cedo. "Faço nada em casa, mas às vezes ajudo minha mãe", conta. Cézar ainda não sabe o que vai tentar no vestibular, mas acha que a decisão seria mais fácil se estivesse na escola.

A média no Enem 2010 do Instituto de Educação foi de 571. Na Donato, 497. A do Tancredo Neves foi 500. A melhor escola pública de Belo Horizonte foi o Colégio Militar, com nota 715. Os melhores colégios particulares, o Bernoulli e o Santo Antônio, tiveram médias de 741 e 740, respectivamente, alcançando a 4ª e a 5ª posição nas notas mais altas do Brasil. Mas esses colégios não estão em greve. E é contra alunos deles que Rafael, Yasmin e Cézar planejam disputar vagas nas faculdades.

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