Globalização made in Brazil

Novo status do país e ofensiva internacional de empresas brasileiras exigem profissionais com visão global

Elida Oliveira, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2009 | 06h07

Duas décadas depois de abrir mercados, o País já encara a globalização como aliada. Antes vilã por fechar empresas e provocar desemprego, hoje ela remete aos emergentes do Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e às multinacionais brasileiras. Na nova etapa da globalização, a posição defensiva dos anos 90 deu lugar à ambição. Mais de 800 corporações nacionais atuam no exterior, com investimento superior a US$ 100 bilhões – só em 2008 foram US$ 20 bilhões.   Não são só as empresas do País que estão em alta. "Apesar de a quantidade de profissionais com perfil global no Brasil ainda ser pequena, eles são muito valorizados lá fora", diz Marcelo de Lucca, gerente da empresa de recrutamento Michael Page. "O executivo daqui teve de se adaptar a um cenário volátil. Pelas crises econômicas, tem facilidade de se relacionar e é mais ocidentalizado do que outros do Brics."   A reação à crise financeira reforçou projeções do Brasil como potência econômica em 2020. Mas, para chegar lá, o País precisa de profissionais de visão global, preparados para competir e liderar.   "Quem pensa que só a faculdade é suficiente estará em desvantagem. É preciso ter perspectiva global", diz Rodolfo Eschenbach, líder da área de organização e talentos da consultoria Accenture. "Precisamos de profissionais que analisem, entendam e interfiram no mundo", afirma Matias Spektor, coordenador do Centro de Estudos Internacionais da FGV.     Leia mais:  Para economista do BID, vizinhos latinos têm mais garra do que brasileiros Brasileiro se adapta ao Brasil      Malas prontas Aos 33 anos, Vivian Broge, gerente de Recursos Humanos da Natura, está de malas prontas para, como diz Spektor, "interferir no mundo". Em alguns dias, ela vai se mudar para a Cidade do México, de onde vai comandar as áreas de RH e Marketing de Relacionamento da empresa – presente em sete países. "Cada vez mais as equipes são multiculturais e precisamos de pessoas que tenham uma visão de mundo diferente e complementar. Isso é viver a globalização."   Filha de alemão com portuguesa, Vivian sempre transitou bem por outras culturas, mas essa será sua primeira experiência como expatriada (funcionária deslocada para um posto no exterior). "Ainda que eu volte para o mesmo cargo, valerá a pena."   Para preparar pessoas como Vivian para assumir postos de comando em outros países, boa parte das empresas aposta em treinamentos "caseiros". "Buscamos profissionais que já estejam um pouco preparados para a globalização. A formação técnica, a gente dá aqui dentro", diz o gerente de Desenvolvimento de Gente da Ambev, Thiago Porto.     Clique aqui para acessar a cronologia       Diretor de Tecnologia da Informação e Serviços Compartilhados da Ambev, Renato Nahas, de 42 anos, entrou na empresa em 1996, aos 29. Três anos depois, fez um MBA in company, montado pela própria empresa, com direito a um módulo em Nova York. Em 2004 já estava na Bélgica, participando do Comitê de Convergência, que preparou a unificação da cultura empresarial entre a companhia brasileira e a belga Interbrew.   "O choque foi ver como brasileiros e europeus pensam de forma diferente. Nós preferimos velocidade a perfeição, que, para eles, é o primordial", diz Porto. A "pressa" brasileira, no entanto, fez a diferença no processo de fusão. "Quando montamos o plano com prazo de um ano, eles acharam impossível de executar. Mas nós assumimos a imperfeição e acertamos os pontos dissonantes depois", diz Nahas.   Havia diferenças mais, digamos, pitorescas. "Após o almoço, só dava brasileiro escovando os dentes no banheiro. Os belgas achavam estranhíssimo, eles não têm costume de fazer isso fora de casa", diz Nahas, que hoje trabalha em São Paulo, coordenando 900 pessoas. "Tive sorte de entrar numa empresa que sempre aspirou ser um player global."    Pioneira No caso da Odebrecht, essa ambição global teve início lá atrás, em 1979, quando a construtora começou a buscar mercados na América Latina. Quinta colocada em 2008 no ranking de transnacionais brasileiras da Fundação Dom Cabral, com ativos de R$ 8,1 bilhões no exterior, a Odebrecht está presente nas três Américas, na África, no Oriente Médio e na Europa. "Ao decidir por novas geografias, já tínhamos incorporado a percepção de quais competências seriam necessárias para enfrentar os desafios", diz André Amaro, vice-presidente de Planejamento e Desenvolvimento.   Há 21 anos na Odebrecht, Amaro também foi um expatriado. No início dos anos 90, morou quatro anos na Alemanha. Trabalhou também na Argentina e em Portugal. "É um desafio largamente compensado pela adrenalina de vencer."   Vizinho alemão "Vencer" inclui sucesso nos negócios e nas relações pessoais – algo que não se ensina em faculdades. Na Alemanha, Amaro tinha um vizinho que chamava a polícia sempre que a rotina da casa mudava. "No aniversário do meu filho, a polícia chegou às 8 da noite. Eu convidei o vizinho para um jantar, para estreitarmos os laços. Éramos cinco casais e ele foi o primeiro a sair, às 10 da noite. Mas chegou em casa e ligou para a polícia, reclamando do barulho", lembra, rindo.   O responsável financeiro da vice-presidência da América Latina e Angola da Odebrecht, Fábio Freitas, de 33 anos, teve o primeiro cargo fora do Brasil aos 23 anos. "Sempre quis a experiência internacional, fosse qual fosse o país", diz Freitas. Ele foi expatriado para Angola e para a Amazônia peruana, onde ficou de 2005 a 2008. Agora, já casado, preferiu ficar em São Paulo para criar o filho de dois anos, mas não deixou a ponte aérea. "Viajo todo mês."   Freitas se enquadra no perfil do "novo profissional" que as empresas procuram, segundo Roberto Carlos Bernardes, doutor em Sociologia da Inovação pela USP e especialista em estratégia empresarial e gestão da inovação do Centro Universitário FEI. "É alguém que desenvolve projetos e, ao mesmo tempo, opera redes de gestão dispersas no mundo."      Foto: JOSÉ LUIS DA CONCEIÇÃO/AE Laguna, o brasileiro no design da Peugeot-Citröen: "Língua é nota de corte para emprego."   Preparação  Atingir esse nível de sofisticação na formação pessoal, para Bernardes e outros analistas, passa por um fator: educação. "Tudo tem como base a melhoria da educação", afirma o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa, hoje consultor de negócios. "Para o Brasil crescer e ser líder internacional, temos de ganhar competitividade em inovações tecnológicas, pesquisa – termos vagos, que todos repetem, mas difíceis de concretizar."   "Vamos precisar de muitos engenheiros para obras de infraestrutura, de profissionais de Direito Internacional e de Relações Internacionais para assessorar empresas", diz Denise Gregory, diretora-executiva do Centro de Estudos Brasileiros de Relações Internacionais (Cebri) e analista de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento. "E precisaremos de pessoas fluentes em mandarim. Leva-se em média oito anos para aprender o idioma. Os jovens de hoje devem correr."   "Depois da universidade, a única coisa que precisei estudar mesmo foram línguas estrangeiras. O resto eu aprendi no dia a dia do trabalho", diz Frederico Laguna, de 36 anos, atualmente coordenador da equipe de modelagem numérica da PSA Peugeot-Citroën em São Paulo – ele e seus comandados são responsáveis por transformar os desenhos dos designers em protótipos digitais de alta fidelidade, que vão orientar a produção industrial dos carros.   Formado em Engenharia Mecânica pela Unesp, Laguna morou um ano nos Estados Unidos, três meses no México e quatro anos na Alemanha, sempre trabalhando na indústria automobilística. Na Peugeot-Citröen incorporou o francês ao seu arsenal linguístico. "Língua é nota de corte para conseguir emprego", diz. Para Caio Moraes, de 34 anos, a língua não foi nota de corte, mas é um fator diário de preocupação. Típico executivo global, o engenheiro químico formado pela USP trabalhou ou comandou equipes em dezenas de países como funcionário da Rhodia e do grupo Ultra. A experiência internacional lhe valeu, há três anos, o convite para ser diretor administrativo-financeiro da Valeo (fabricante de autopeças francesa) na Coreia do Sul.   "Hoje estou bem integrado à cultura da Ásia, mas a gente leva muito mais tempo para se comunicar de maneira razoável", diz. "Como sabem que os ocidentais jamais dominarão completamente a língua e os dialetos, muitos coreanos se aproveitam. Já fiz pronunciamentos em inglês que foram distorcidos na tradução – em alguns casos, de propósito."

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