Gestão escolar, chave para um ensino público de qualidade

Ilona Becskeházy * Que os recursos destinados ao ensino público são escassos, ninguém discute. Mas é fato que eles poderiam render melhores resultados se fossem mais bem aplicados.Não se trata aqui de discutir como as esferas de governo distribuem a parcela de seus orçamentos destinada à Educação. Mas sim do que os próprios gestores das escolas podem fazer para melhor aproveitar seus recursos, materiais e humanos, com um foco extremamente claro: o aprendizado efetivo do aluno.A escola pública enfrenta uma série de dificuldades, desde a infra-estrutura deficiente às condições sociais dos alunos, passando muitas vezes pela falta de valorização do professor. Parte dessas dificuldades pode ser contornada com a adoção de métodos de gerência mais eficientes.Se eles não estão presentes, não é simplesmente por culpa dos professores que hoje ocupam cargo de direção nas escolas. Mas sim porque existe uma preocupação com a formação deste profissional no campo pedagógico, mas praticamente inexiste uma preparação para que ele venha a atuar como gestor.O aperfeiçoamento da gestão dos sistemas públicos de educação permite que as escolas passem a adotar práticas que estimulem a evolução da qualidade do ensino, fortalecendo a troca de experiências entre os professores e o trabalho em equipe.Cada integrante da equipe escolar deve se guiar por uma visão otimista e confiar que é possível fazer com que os alunos aprendam mais e melhor, sempre. É claro, é um trabalho que exige constante definição e revisão de prioridades e a identificação das principais dificuldades.Para isso, o gestor escolar precisa estar constantemente preocupado em avaliar o resultado das ações adotadas. Mas ainda é muito forte a cultura - esta bastante disseminada entre os professores - de que educar é uma coisa, avaliar, medir resultados, outra.Não existe receita pronta para elevar a qualidade do ensino público. Mas a melhoria da gestão escolar e a criação de mecanismos de avaliação de resultados mais efetivos são, sem sombra de dúvida, um caminho, não só para o Brasil, mas para diversos países.A adoção de mecanismos de avaliação de desempenho dos estudantes sempre é um tema que levanta polêmica. Mas como saber se os alunos estão realmente aprendendo? Quais são os alunos que têm dificuldades de aprendizagem? E quais são essas dificuldades?As avaliações de âmbito nacional fornecem informações genéricas sobre a qualidade do ensino, mas não permitem aos diretores avaliarem como está a situação "dentro de casa".A adoção de mecanismos de avaliação consistentes é uma das preocupações levantadas pelo Grupo de Trabalho sobre Educação, Eqüidade e Competitividade Econômica nas Américas, comissão não governamental criada em 1996, como parte do Programa de Promoção da Reforma Educativa da América Latina e Caribe (PREAL).Em 1998, o Grupo já apontava que na raiz das deficiências da educação na América Latina estão quatro problemas fundamentais: falta de padrões de avaliação do aprendizado; falta de autoridade e de cobrança das responsabilidades no nível da escola; ensino de má qualidade; e investimento insuficiente nos níveis primário e secundário.Numa análise feita em 2002, o Grupo de Trabalho constatou um progresso limitado. Houve avanços sensíveis no número de matrículas (fenômeno bastante evidente no Brasil), os investimentos no ensino tiveram incremento e, aos poucos, estão sendo criados sistemas de avaliação, embora eles ainda sejam fracos e subaproveitados.Somente na década de 90, 20 países da América Latina e Caribe lançaram sistema de avaliação do ensino. No Brasil, dois exames avaliam diretamente o desempenho dos alunos do ensino fundamental e médio: o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado pela primeira vez em 1990, e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), implantado em 1998.Pegando o caso do Saeb, os dados do último levantamento, divulgado em junho, são preocupantes.As menores pontuações são dos alunos da rede municipal, na qual estão 66% dos estudantes matriculados de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental do país. A avaliação constatou ainda que 55% dos estudantes da 4ª série do ensino fundamental apresentam níveis de desempenho considerados crítico ou muito crítico em leitura.Pesquisa feita em 2003 pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) - que avaliou jovens de 15 anos de 41 países -, coloca os estudantes brasileiros na 37ª colocação em nível de leitura e em penúltimo lugar, à frente apenas do Peru, no desempenho em matemática e ciências.A adoção pelo Brasil de sistemas de avaliação foi importante. Mas é preciso aperfeiçoar os mecanismos de acompanhamento e levar a filosofia da medição de desempenho para dentro das escolas.Como afirma Pedro Ravela, membro do PREAL, em um documento intitulado "Como avançar na Avaliação de Aprendizagens na América Latina?", já não bastam os indicadores tradicionais de matrícula, cobertura, repetência e evasão. Há consenso sobre a necessidade de contar com mecanismos que permitam produzir informações sobre o que efetivamente se ensina e se aprende.No Brasil, estamos tentando disseminar conceitos de gestão e de acompanhamento de resultados por meio do programa Gestão para o Sucesso Escolar.Trata-se de um curso on-line para diretores de escolas - desenvolvido pela Fundação Lemann/Instituto Gestão Educacional (IGE), em parceria com o Protagonistés - Instituto de Protagonismo Jovem e Educação -, com ênfase na formação de lideranças participativas e no uso de instrumentos de avaliação como ferramentas de trabalho.A primeira turma - formada por diretores de 200 escolas públicas de São Paulo e Santa Catarina - iniciou os trabalhos em outubro de 2003 e concluirá seu processo de capacitação no final deste ano.Os resultados já começam a aparecer. O primeiro avanço foi que os gestores que participam do projeto conseguiram vencer as barreiras tecnológicas e utilizar o computador e a internet como ferramenta diária de trabalho. Outra vitória - esta ainda em curso - é a revisão dos planos pedagógicos e de alguns processos de ensino que cada uma das escolas vêm empreendendo.O que vemos hoje são escolas focadas no aprendizado do aluno, que não têm medo de inovar e valorizam cada vez mais o trabalho em equipe. A expectativa é de que tudo isso se reflita, já no final deste ano, na melhora das notas dos alunos.Solucionar as deficiências do sistema de ensino público não é uma tarefa de curto prazo. Mas o Gestão para o Sucesso Escolar é uma prova de que alguns resultados - como por exemplo a melhoria contínua das competências de leitura e escrita - já podem ser obtidos num prazo relativamente curto. Soluções simples dão sim resultado.Basta que as equipes escolares estejam focadas, trabalhem em uníssono e tenham a preocupação constantemente de avaliar indicadores de desempenho.Como já dito, não há receita pronta. Mas há caminhos a serem seguidos para que o ensino público brasileiro tenha a qualidade que o país precisa para crescer e ser competitivo.* Diretora-executiva da Fundação Lemann e do Instituto Gestão Educacional (IGE)

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