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'Gates, não. Niemeyer'

Italiano Domenico de Masi diz que arquiteto é exemplo prático do seu conceito de ócio criativo

Estadão.edu

31 Maio 2011 | 00h13

O sociólogo italiano Domenico de Masi virou celebridade com o livro O Ócio Criativo, de 1995, um elogio à criatividade como valor fundamental no mundo do trabalho pós-industrial. Presidente da S3 Studium, escola voltada às “ciências organizativas”, e professor universitário, ele foi um dos destaques da 18.ª Educar/Educador, misto de feira e congresso educacional realizado este mês em São Paulo.

 

Um dos temas que o senhor foi convidado a abordar em São Paulo é o desafio de estimular a criatividade nas empresas. Como é possível fazer isso?

 

Todas as organizações, pela sua natureza, tendem a se burocratizar e a perder competitividade. Para evitar essa entropia natural é preciso motivar as pessoas que trabalham na organização e ajudá-las a gerenciar a mudança de modo criativo. Ora o que é a criatividade? É uma síntese de fantasia e concretude, que pode  ser feita por meio de grupos criativos nos quais coexistam personalidades com essas duas características e uma liderança do tipo carismático.

 

A maioria das empresas não é a antítese da criatividade?

 

As grandes organizações são o cemitério da criatividade. As empresas que produziam as máquinas de escrever mecânicas não são as que inventaram as máquinas de escrever elétricas. As que produziam as máquinas elétricas não são as que inventaram as máquinas de escrever eletrônicas. As empresas que fabricavam válvulas  não foram as que inventaram o transistor. As grandes empresas não são criativas.

 

Para não ficar só no mundo empresarial, até porque entre os temas do seminário está a gestão da educação. Uma das maiores máquinas burocráticas de São  Paulo é a da Secretaria Estadual de Educação. Como eliminar as barreiras e estimular a criatividade dentro do ambiente escolar, da rede pública?

 

O ambiente escolar, afortunadamente, tem maior independência. Porque cada professor é livre para escolher o próprio programa, a própria técnica pedagógica, muito mais que um manager para escolher sua equipe e seu método. A escola é um pouco mais livre, também porque lá estão os jovens.

 

O caminho, então, é cada professor ser visto e ver a si mesmo se como um líder.

 

Sim, as classes são pequenas, cada professor tem 20, 30 alunos.

 

Nem tanto. Muitas vezes chegam a 40...

 

São 40, não são 40 mil. No comércio os números são enormes. Os bancos têm dezenas de milhares de pessoas. Há menor possibilidade de ser criativo. Nas escolas  a possibilidade de ser criativo é maior e a de ser burocrático, menor.

 

O sr. é otimista, então, quanto à possibilidade de a escola ser um lugar de estímulo à criatividade.

 

O que eu vejo é que nos últimos cem anos todas as revoluções nasceram nas escola e depois foram transferidas para as fábricas. E todas as revoluções foram iniciadas por intelectuais: 68 nasceu em Berkeley, na Sorbonne, em Paris.

 

O sr. é diretor de faculdade. Acha que o tipo de estrutura e de pensamento que se tem hoje no ensino superior é adequado à formação de pessoas realmente inovadoras, empreendedoras, que façam a diferença na sociedade?

 

Por sorte ainda existe uma diferença entre escola e empresa. Empresa é muito ligada ao modelo industrial. Vivemos numa sociedade pós-industrial. E as empresas são sempre do tipo taylorista, fordista. As empresas estão baseadas na produção de bens materiais. Mas hoje elas precisam produzir ideias. E não se pode produzir ideias com os métodos pelos quais se produz bens materiais. Não se pode produzir ideias como se produziam antes automóveis ou porcas. É preciso encontrar métodos novos de organização, baseados na coexistência de estudo, trabalho e jogo, que é o que eu chamo de ócio criativo. O ócio criativo não é a preguiça. Não é não fazer nada. É fazer três coisas simultaneamente: estudo, trabalho e jogo.

 

Então, de alguma forma, essa é uma vantagem da nova geração, a Geração Y como é chamada, que tem essa capacidade de fazer coisas simultaneamente, além de ser familiarizada com o jogo, porque parte da formação dela é com os games.

 

Mas eu sou contra a multitarefa. É uma loucura.

 

Bom, existe a crítica de que é uma geração que não tem foco, que é dispersiva.

 

Sim, dispersiva. Faz muitas coisas que não se somam, se subtraem. O ócio criativo não é uma soma de várias coisas, é uma síntese de estudo, trabalho e jogo. Significa trabalhar jogando. Jogar aprendendo. É um híbrido, que é algo diferente de uma soma.

 

O sr. buscou inspiração para a tese do ócio criativo em algum personagem específico da história? Quem põe isso em prática hoje?

 

Acho que, quando trabalha, meu amigo Oscar Niemeyer simultaneamente estuda e se diverte. Ou Chico Buarque, Caetano Veloso. Quando trabalham, eles ao mesmo tempo se divertem e estudam. Acho que qualquer pessoa criativa faz isso.

 

E quanto ao outros ícones: o sr. admira mais Niemeyer do que um Bill Gates, por exemplo.

 

Niemeyer mais do que Bill Gates. Porque o Bill Gates tem a doença do industrialismo. Niemeyer não tem essa doença. É filho de uma cultura brasileira, enquanto Bill Gates é filho de uma cultura californiana, americana. O Brasil é mais propenso ao ócio criativo.

 

A Itália também, não?

 

Também. Um pouco menos do que o Brasil.

 

Menos? Com toda essa herança cultural que vocês têm?

 

Porque a Itália teve um período industrial que o Brasil nunca teve.

 

Então é melhor para um país ter pulado essa etapa do fordismo?

 

Sim, sim. O que mata o ócio criativo é o fordismo. O Brasil nunca foi totalmente fordista. São Paulo o é, um pouco. Os Estados Unidos são todos fordistas.

 

O sr. está na academia. Tem contato com empresas? O que elas acham de suas ideias?

 

Faço palestras e consultoria para todas as grandes empresas italianas. Também para a Rede Globo e para o Sebrae no Brasil.

 

E qual a reação delas às suas ideias?

 

Se a agenda é de inovação, a reação é positiva. Se a agenda é reacionária, a reação é negativa.

 

Com base na experiência na faculdade, como o senhor vê a nova geração?

 

A situação geracional é de forte diferença entre aqueles que eu chamo de analógicos e os que chamo de digitais. Os digitais são prevalentemente jovens, que têm muita intimidade com a informática, não distinguem muito entre dia e noite, entre dias de feriado e de trabalho. Não têm medo da inovação tecnológica, não têm medo da sexualidade, não sofrem de jet lag, têm confiança no futuro. Acreditam na igualdade entre os sexos. São tolerantes com a homossexualidade. Os analógicos têm pouca familiaridade com a informática, têm medo da tecnologia, do progresso. Têm medo da multirracialidade, distinguem o dia da noite, viajam pouco, não estão no Facebook e assim por diante. São pessoa que olham para o passado, enquanto os digitais olham para o futuro.

 

Sua análise é muito favorável ao digital e crítica do analógico. Mas quais são os problemas do digital, o que o senhor vê de ruim neles? Além da incapacidade de foco já mencionada, eles são criticados por terem uma expectativa muito grande de conseguir as coisas rápido, sem a disposição de se esforçar, de dar algo  em troca.

 

Acho que essa é uma descrição conservadora (risos). Vivo continuamente com os jovens e entre eles existem todos tipos. Há jovens analógicos, nem todos são digitais. Mas os jovens, de um modo geral, conseguem ser muito entusiasmados, inovadores, se há uma ideologia do progresso e uma liderança carismática.

 

O sr. é mais digital ou analógico?

 

Tenho 70 anos, mas sou digital.

 

Por quê?

 

Eu não sofro de jet lag.

 

O sr. está no Facebook?

 

Não estou. Mas tenho três grupos de fãs. Não estou no Facebook porque não teria tempo de responder.

 

Para encerrar, que conselho o sr. daria a um jovem?

 

Um dos aspectos mais importantes da sociedade pós-industrial é a flexibilidade. Eu contraponho dois arquitetos. Um é Le Corbusier. Racionalista, ele dizia “Eu amo a linha reta, a mais breve entre dois pontos, criada pelo homem”. Eu não amo esse pensamento de Le Corbusier. Amo o pensamento de Niemeyer. Ele disse: “Amo a linha curva, livre e sensual. A linha que encontro nos rios e montes de meu país, nas nuvens do céu, nas ondas do mar, no corpo da mulher amada”. E depois conclui: “Das curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”. Diria ainda uma frase de Gilberto Freyre: “Se depender de mim, nunca ficarei plenamente maduro nem nas ideias nem no estilo, mas sempre verde, incompleto, experimental”. Acho que um jovem não deve ser nunca maduro, mas sempre verde, incompleto e experimental e deve amar a linha curva, livre e sensual, como diz Oscar Niemeyer.

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