NILTON FUKUDA/ESTADAO
NILTON FUKUDA/ESTADAO

Garantir mais recursos à USP está entre desafios comuns

Crise econômica reduziu repasses públicos, obrigando universidades a buscar novas fontes de financiamento

O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 03h00

Fomentar a internacionalização e a interdisciplinaridade; desenvolver novos modelos pedagógicos, adaptados ao mundo digital e à universalização do acesso à informação; promover a inclusão social e aumentar a produção científica, sem prejuízo à qualidade do ensino ou da pesquisa. Todas essas questões, apontadas como prioritárias pelos reitores na conferência USP 2024, exigem um fator em comum: a saúde financeira de suas instituições.

A escassez de recursos é um problema crônico de grande parte das universidades públicas do mundo, agravado em tempos de crise econômica, como a que vivem o Brasil e alguns países da Europa. Diante do enxugamento das contas, do esfriamento da economia e da consequente redução na arrecadação de impostos, instituições que dependem majoritariamente de dinheiro público para compor seu orçamento veem-se desafiadas a encontrar novas fontes de recursos.

“É uma questão de sobrevivência”, diz o francês Jacques Comby, reitor da Universidade Jean Moulin Lyon 3. “Com a crise econômica, o financiamento estatal diminuiu muito. Se não desenvolvêssemos recursos nossos, ficaríamos em uma situação muito crítica em cinco ou dez anos.” 

Para Comby (foto), universidades não podem depende só do financiamento estatal

Segundo ele, nos últimos cinco anos a universidade aumentou suas fontes próprias em 40% e, com isso, conseguiu reduzir a dependência do governo em 30%. Uma das soluções foi investir em parcerias com o setor privado. “Muitos dizem que isso é perigoso, mas depende de como você faz”, pondera Comby. “Você escolhe o parceiro e as condições de parceria.”

A Universidade de São Paulo (USP) busca um caminho semelhante. Para o reitor Marco Antonio Zago, as parcerias com o setor privado não são apenas “necessárias”, do ponto de vista orçamentário, mas também “benéficas para a sociedade”, no sentido de fomentar a inovação tecnológica e facilitar a transformação do conhecimento acadêmico em produtos e soluções concretas.

“É muito importante ter boas colaborações entre universidades e empresas”, concorda o reitor Jean-Yves Mérindol, da Universidade Sorbonne Paris Cité. “Temos de ser cuidadosos, porque pode haver conflito de interesse. Mas ser cuidadoso não significa ser contra o princípio da colaboração. Ela é absolutamente necessária.”

O reitor da Universidade Humboldt de Berlim, Jan-Hendrik Olbertz, ressalta que as parcerias público-privadas têm de cuidar para não comprometer a autonomia – financeira ou intelectual – das universidades. “É um assunto de responsabilidade pública. Parece simples, mas precisamos de mais dinheiro do lado público para garantir nossa independência, nossa liberdade”, afirma. “Se estou procurando por dinheiro de outra fonte, então ela tem expectativas. Por isso acho que é uma questão de encontrar um bom balanço.”

Experiência. O tema é polêmico no Brasil, onde muitos veem a aproximação como uma espécie de “privatização” das instituições públicas. Nas universidades mais conceituadas do mundo, porém, como Caltech, Oxford, Harvard e Stanford, a interação da pesquisa acadêmica com a indústria não só é bem vista como estimulada. 

Para o reitor da Universidade de Tsukuba, Kyosuke Nagata, é a forma mais eficiente de transformar conhecimento básico em novas tecnologias. “Temos de colaborar com a indústria. Eles são os profissionais em transformar ciência básica em algo útil para a sociedade.”

Mais do que isso, é preciso incentivar o empreendedorismo e a criação de empresas, acrescenta Mérindol. “Por isso investimos em startups geradas nos laboratórios e esperamos que elas cresçam e se desenvolvam”, diz o reitor da Sorbonne em Paris. “É muito importante apoiar essas empresas, especialmente no início.”

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