França enterra coração do menino Luís XVII

O coração do herdeiro do trono francês, morto aos 10 anos na prisão, foi tirado de seu corpo, conservado, roubado, recuperado e agora, dois séculos depois, passou por um teste de DNA, que comprovou sua origem. Na semana que vem, o coração de Luís XVII será finalmente enterrado numa cripta real, no norte de Paris, com autorização do Ministério da Cultura.Depois que se desfizeram todas as dúvidas e os historiadores foram persuadidos pelos testes genéticos de que o coração petrificado é realmente do menino que deveria ter sido rei, a nobreza européia lhe prestará honras em cerimônias nesta semana. Depois disso, ele descansará, finalmente, na Basílica de Saint-Denis, perto do túmulo de seus pais, Maria Antonieta e Luís XVI.Lendas e rumoresAs cerimônias de reconhecimento procuram encerrar 209 anos de rumores, lendas e incerteza histórica que rodearam o menino, tornado um marionete da Revolução Francesa e morto numa prisão imunda. Apesar disso, os céticos ainda persistem - para muitos historiadores, o verdadeiro herdeiro escapou e a criança doente que morreu era um substituto."Eu gostaria de acreditar na história de que a criança sobreviveu", disse o príncipe Charles-Emmanuel de Bourbon de Parma, um dos parentes vivos mais próximos de Luís XVII. "Hoje, a ciência provou o contrário."A curta vida do herdeiro foi coisa de pesadelo. Ele perdeu seus pais na guilhotina e passou três anos trancado na prisão parisiense do Templo - parte desse tempo, solitário e confinado em uma cela escura, com ninguém para lavá-lo ou as suas roupas, conta o historiador Philippe Delorme. O garoto e teve seu corpo devastado por tumores e sarna e finalmente morreu de tuberculose, em 1795.Corações reaisFoi sepultado numa cova comum, mas, antes, um médico secretamente retirou seu coração, mantendo a tradição de preservar os corações reais em separado dos corpos. O médico contrabandeou o órgão da prisão escondido em um lenço e o manteve como uma curiosidade.Imediatamente espalharam-se rumores de que o verdadeiro herdeiro tinha sumido da prisão, deixando um plebeu em seu lugar. "É um mito universal o do rei perdido ou escondido", diz Delorme, cujas pesquisas sobre Luís XVII o levaram a organizar os testes de DNA em 2000. "Em todas as civilizações, em todas as eras, há um mito de uma pessoa que teve de se esconder de nós."Entre as lendas mais persistentes, uma veio da Rússia, mantendo durante anos a esperança de que a filha mais nova do czar Nicolau II, Anastasia, escapara dos bolcheviques que mataram o monarca e sua família. Dos conjuntos de ossos da família - Nicolau, a mulher e cinco filhos -, dois nunca foram encontrados. Muitas mulheres se proclamaram princesa Anastasia, assim como muitos mais se disseram Luís XVII.Cem pretendentesDepois da restauração da monarquia francesa, em 1814, cerca de cem pessoas reclamaram seu direito ao trono. Até mesmo um missionário em Wisconsin, que era em parte nativo americano, afirmou ser o "delfim perdido", como Luís XVII freqüentemente era chamado.Na França, o médico que fez a autópsia no corpo do menino manteve o coração num vaso de cristal, imerso em álcool, numa estante - um souvenir irresistível para um de seus alunos, que o roubou. Arrependido, em seu leito de morte, o ladrão pediu à mulher que o devolvesse.Depois da restauração, o coração foi oferecido a vários membros da família real e, finalmente, encontrou seu lugar no ramo espanhol dos Bourbons. Eles devolveram o coração a Paris em 1975, onde foi mantido, desde então, na Basílica de Saint-Denis. Mas era reconhecido meramente como o coração da criança que morreu na prisão e não necessariamente o do herdeiro real.DNAQuando cientistas de duas universidades européias compararam o DNA de células retiradas do coração do menino com o DNA do cabelo cortado de Maria Antonieta, durante sua infância na Áustria, a ligação foi confirmada.O resultado fez os céticos voltarem-se para outra explicação: o coração seria de um irmão de Luís XVII, que morreu em 1789. Mas os historiadores não acreditam nisso, porque, nesse caso, o coração teria sido cortado e conservado dentro da rígida tradição real. Para Delorme, sempre haverá quem duvide. Afinal a história de Luís XVII "foi tão horrível que as pessoas preferem um final mais feliz"."Ele foi uma criança a quem roubaram a vida", lamenta o historiador. "Até mesmo sua morte lhe foi roubada."

Agencia Estado,

07 de junho de 2004 | 15h19

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