Formação sem fronteiras

Agências de ajuda humanitária são opção de carreira para várias profissões

Mariana Della Barba, Estadão.edu

29 Março 2010 | 19h34

Muitos estudantes de Economia sonham com o mercado financeiro. Igor Moraes foi trabalhar no Congo. Boa parte dos engenheiros recém-formados mira a Petrobrás. Felipe Buzanovsky está ajudando no Haiti. Recém-graduados em Relações Internacionais fazem de tudo para entrar no Itamaraty. Graziella Piccolo foi parar no Iraque. Jovens advogados adoram causas milionárias. Ana Letícia Medeiros está a caminho do Sudão, um dos países mais pobres do mundo.

A trajetória desses quatro brasileiros mostra uma alternativa para médicos, engenheiros, economistas, advogados e outros profissionais que não se veem num escritório ou presos à rotina por muito tempo. Trabalhar em agências de ajuda humanitária pode ser uma boa opção de carreira, que alia satisfação pessoal, experiências marcantes de vida e até um bom salário. E a boa notícia é que os brasileiros vêm sendo cada vez mais procurados para assumir esses cargos mundo afora.

 

 

Você tem perfil para trabalhar em uma agência humanitária?

 

Como seria de se esperar, profissionais da saúde formam boa parte dos quadros de organizações que atuam em países vítimas de guerra, catástrofes ou pobreza crônica. O Médicos Sem Fronteiras (MSF), por exemplo, está buscando brasileiros que sejam anestesistas, cirurgiões, psiquiatras, infectologistas, enfermeiros, pediatras e ginecologistas.

O que muitos não sabem, porém, é que 60% dos profissionais do MSF não são médicos. Há postos para administradores, profissionais de logística, comunicação e sociólogos.

Seja qual for a área, ter sólida formação educacional é o primeiro passo para entrar no setor. “Não basta gostar de viajar. Trabalhar com ajuda humanitária é bem diferente de mochilar pela Europa”, diz Ana Letícia Medeiros, advogada do MSF que se prepara para a terceira missão na África.

“Mas qualquer experiência internacional, como intercâmbios, já ajuda, porque mostra que a pessoa já foi confrontada com outra cultura”, garante o suíço Dominique Delley, chefe de Recursos Humanos do escritório do MSF no Rio.

Dominar idiomas é um conselho básico dado por todos os profissionais de agências internacionais ouvidos pelo Estadão.edu. “Leva vantagem se tiver outro idioma além do inglês. Nossa maior missão é no Congo e agora estamos com um projeto grande no Haiti – dois países de língua francesa”, afirma Delley.

No Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), a orientação é a mesma. “Um problema que costumo encontrar na América Latina é que muitas vezes as pessoas só falam português ou espanhol. Pelo menos inglês e francês são essenciais”, explica Marçal Izard, responsável pela América Latina na sede do CICV, em Genebra. “Espanhol, russo e árabe também são bastante requisitados.”

Ter alguma bagagem profissional também conta. No MSF e na Cruz Vermelha, há um pré-requisito de dois anos de experiência: “Não mandamos juniores para missões internacionais”, diz Delley. Para ele, essa experiência pode ser obtida trabalhando como voluntário. “Temos parcerias com ONGs locais que aceitam voluntários”, diz o engenheiro agrônomo Victor Arai, oficial do Programa Humanitário da Oxfam no Brasil. “Encontrei minha vaga no site Rits (http://www.rits.org/), que divulga oportunidades no terceiro setor”, conta o administrador de empresas Emídio Bastos, da Visão Global.

O currículo formal, porém, é apenas um dos itens na seleção de um candidato ao trabalho humanitário. Num campo de refugiados ou num hospital para feridos de guerra, o inglês fluente é inútil se não vier acompanhado de sangue frio e capacidade de adaptação. “Flexibilidade é a palavra-chave. É preciso saber lidar com situações complicadas”, afirma Delley. No MSF, a seleção envolve testes para ver se o candidato se sai bem sob stress intenso.

“Lidar com a carga emocional é complicado. Quando se vê o sofrimento humano, ninguém fica imune. Mas você está ali a trabalho e por isso entender seus limites é fundamental”, conta Graziella Piccolo, que, nos seus 15 anos de Cruz Vermelha, já esteve em mais de dez países na América Central, Ásia, África e Oriente Médio.

“Ser testemunha de tanta dor e perceber que você jamais vai suprir todas as necessidades dessas pessoas pode ser algo bem frustrante. Por isso procuramos pessoas com personalidade forte”, explica Izard.

Presente em praticamente todos os anúncios de emprego da seção de classificados, a capacidade de trabalhar em equipe ganha mais peso num contexto de guerra. Funcionários da Acnur, a agência de refugiados da ONU, exemplificam bem esse perfil, pois trabalham nos cantos mais remotos e perigosos do mundo.

 

É o caso do advogado José Sieber Luz, que depois de ter passado pela Bósnia-Herzegovina e Colômbia, agora está no Afeganistão.

Recompensas. Tantas exigências trazem compensações, no âmbito financeiro e pessoal. O salário de quem está na primeira missão no MSF, por exemplo, é de 1.000 (R$ 2.400) – depositado numa conta do Brasil, já que a ONG paga uma diária para despesas pessoais. E o salário sobe a cada missão.

"É gratificante saber que trazemos assistência às populações mais vulneráveis do planeta. Para mim, esse é o exercício pleno da medicina”, conta o psiquiatra Renato Souza, da Cruz Vermelha, que já esteve em países como Índia, Nigéria, Moçambique, Iraque, Líbano, Sudão e Uganda.

Souza e outros brasileiros têm alguns trunfos nas missões, como a imagem simpática criada por astros do futebol, como Pelé e Ronaldo.

 

Ironicamente, um deles é a convivência com a violência, a pobreza e a diferença social no País. “Por encarar tudo isso diariamente, o brasileiro sabe, por exemplo, que não se reage a um assalto. E isso pode ser bem útil. Sua atitude diante da violência ou da miséria é de menos choque que a de um europeu, que costuma ter mais informação, mas menos vivência e preparo emocional”, afirma Delley, do MSF.

“Brasileiro tem facilidade de expressar, ouve com interesse”, diz Fernanda Ferreira, do Save the Children. Para o economista Igor Moraes, também do MSF, o brasileiro leva vantagem no tempo que qualquer integrante de uma missão precisa até conseguir trabalhar com desenvoltura. “Por vermos miséria todo dia, a adaptação é mais rápida.”

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