Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

Formação em artes pode ajudar em HQs

História de Marcelo D'Salete vence em 2018 na categoria de melhor quadrinho. Obra aborda a luta dos escravos a caminho do quilombo

Guilherme Guerra, Especial para o Estado

13 Novembro 2018 | 07h00

Quem pensa se profissionalizar em HQs no Brasil deve buscar formação em áreas correlatas. Algumas das opções são Design Gráfico, Artes Plásticas, Arquitetura e Cinema. A recomendação vem de um especialista no tema: Marcelo D’Salete, artista plástico de formação, ilustrador e autor de quadrinhos premiado. Sua HQ Angola Janga: Uma História de Palmares acaba de arrematar o Prêmio Jabuti 2018, na categoria de melhor quadrinho. As outras obras do autor são Cumbe (2014), sobre a resistência dos negros contra a escravidão, e Encruzilhada (2016), sobre a discriminação contra jovens nas grandes cidades.

Em carreiras como Design Gráfico, Artes Plásticas, Arquitetura e Cinema, os alunos estudam, em maior ou menor grau, habilidades de storytelling e de desenho. Com essa visão panorâmica, é possível se especializar em roteiro, diálogos ou traço de graphic novels. “Isso revela que as histórias em quadrinhos são uma mídia extremamente interdisciplinar”, diz. E aconselha os recém-chegados: “É importante que você tenha interesse por diversas áreas para desenvolver o seu trabalho como quadrinista”.

Um quadrinista costuma ser ilustrador e vice-versa. Como profissão majoritariamente liberal, a remuneração das HQs vem a médio e longo prazo com o pequeno retorno dos royalties de vendas de livros, que atualmente é o principal método de vendas das graphic novels. Após o boom das bancas de jornais nos anos 1980 e 1990, os negócios migraram para um modelo de livrarias, com trabalhos mais autorais e sem a rotatividade das bancas do fim do século passado. 

“Cheguei a mostrar meu trabalho para algumas revistas nesse período, mas acabou que esse formato para mim foi mais difícil”, relembra, reconhecendo que o modelo atual lhe favorece mais por ser menos comercial e mais de nicho. “Eu sinceramente não sei se publicando em banca de jornal, por exemplo, meu tipo de trabalho chegaria a muitas pessoas.”

Se fazer quadrinhos é difícil, desenhar ilustrações tem outro retorno, com mais estabilidade, maior salário e oportunidade de contratos que podem ser feitos com as empresas. A rotina, contudo, pode ser trabalhosa, já que exige criatividade durante oito horas ao dia, cinco dias por semana, segundo D’Salete. “É muito comum pessoas que fazem quadrinhos terem uma renda mais fixa e contínua na área de ilustração, pensando nos quadrinhos como um projeto a longo prazo”, conta ele, que é ilustrador em grandes editoras e professor da rede de ensino de São Paulo.

Para solucionar problemas estruturais da formação do Brasil, erguer a área editorial e ampliar o debate educacional, D’Salete também defende uma atuação forte para que escolas deem valor às HQs e um resgate da cultura para combater questões estruturais do Brasil, como o analfabetismo funcional. E ele acredita que os quadrinhos são uma ótima maneira de fazer isso. “Os quadrinhos são uma ferramenta essencial tanto na educação quanto na cultura”, diz. “A gente não pode ignorar isso.”

“O importante agora, não só para o quadrinista, mas para o mercado editorial como um todo, é que a gente tenha de fato programas de incentivo à leitura, para fazer com que essas obras cheguem às bibliotecas, às escolas”, afirma D’Salete. 

‘Angola Janga: Uma História de Palmares’ leva Prêmio Jabuti

Em 8 de novembro deste ano, a HQ Angola Janga: Uma História de Palmares, de Marcelo de D’Salete, ganhou o prêmio de melhor quadrinho na 60.ª edição do Prêmio Jabuti, o mais importante da categoria no Brasil. Publicada em 2017 pela editora Veneta, a obra de ficção histórica conta a luta dos escravos fugitivos das senzalas a caminho de Angola Janga, a “pequena Angola”, como viria a ser conhecido o Quilombo dos Palmares, tão grande quanto as maiores cidades brasileiras à época, o século 16.

O quadrinho de D’Salete também ganhou outros prêmios na área, como o Grampo Ouro e o Troféu HQMIX.

Alguns meses antes, em julho, nos Estados Unidos, a recém-publicada edição americana da graphic novel Cumbe (lançada por D’Salete no Brasil em 2014) ganhou o Eisner, principal prêmio de quadrinhos do mundo, como o melhor trabalho estrangeiro. Cumbe também aborda a temática negra durante o período de escravidão no País, mostrando os escravos como protagonistas da própria história.

D’Salete espera que essas conquistas sirvam para chamar a atenção dos brasileiros para os quadrinhos e, talvez, para inspirar outros profissionais a abordarem a perspectiva negra sobre a história do Brasil. “Eu faço histórias em quadrinhos que eu gostaria que os meus contemporâneos lessem e que gostaria de ter lido quando jovem”, afirma o autor.

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