LETÍCIA CORREA DA COSTA MOLINA
LETÍCIA CORREA DA COSTA MOLINA

Formação continua após o curso de Medicina

Escolha de campo para se especializar exige amadurecimento do aluno ao longo dos estudos

O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2018 | 03h00

A ideia inicial de Letícia Correa da Costa Molina, que cursa o 6.º ano de Medicina na Universidade Estadual Paulista (Unesp), era trabalhar na área de Cardiologia, Neurologia ou Oncologia Pediátrica. Sua vontade de se especializar em um desses campos de atuação existia desde que ela decidiu sua carreira. Mas tomou um rumo diferente.

“No primeiro ano, tive pouco contato com o que pretendia fazer. Quando comecei a ter, vi que não tinha nada a ver comigo”, conta Letícia. “No ano passado, passei a pensar em cirurgia. Mas você analisa várias coisas, tanto o gostar quanto a vida, o dia a dia, a carga de trabalho. Cirurgia é muito mais puxado. Pulei para Ginecologia e Obstetrícia.”

A escolha, no entanto, ainda não seria definitiva. “Nos últimos dois anos da faculdade, você passa mais pelas especialidades. No meio deste ano, fiz estágio de Anestesiologia e gostei bastante. A vida era mais tranquila. Foi aí que eu me decidi”, diz a estudante.

Esse dilema pelo qual Letícia passou faz parte da rotina de muitos alunos de Medicina que iniciam a graduação ou mesmo os que estão no fim do curso e se deparam com a dúvida: que especialidade devo seguir? “Às vezes, o aluno se sente abalroado pelas informações disponíveis e acaba desistindo de certas áreas. Muitas vezes, a especialização não é uma escolha por afinidade. Damos opção para o aluno circular nas diversas áreas e para que ele possa fazer escolhas por valores pessoais e por gosto, não sendo pressionado”, observa Alexandre Holthausen Campos, diretor de graduação em medicina e diretor acadêmico de ensino da Faculdade Israelita Albert Einstein.

Letícia concorda. “As pessoas acham que é obrigação sair da faculdade decidido. Vários amigos meus preferem trabalhar um ano (em postos de saúde ou fazendo plantões) e depois ver como vai ser.”

Caminho

Depois dos seis anos da graduação, o médico precisa continuar aprendendo. “O aluno de Medicina estuda muito. O conhecimento, hoje em dia, aumenta em uma velocidade espantosa. Duas áreas cresceram muito no fim do século passado: Medicina e Engenharia. O aprofundamento é muito necessário”, afirma o radiologista Aldemir Humberto Soares, integrante do Conselho Federal de Medicina (CMF) e representante da Associação Médica Brasileira (AMB).

De acordo com a Resolução 1634/2002, art. 4 do CMF, para que o médico possa declarar vínculo com a especialidade escolhida é preciso ter o certificado de residência ou o título da área - obtido em uma prova da AMB, apenas para quem não fez residência. “Cada especialidade tem um tempo mínimo (de residência), que varia de dois a cinco anos. Depende da área e da complexidade dos procedimentos que ela requeira”, afirma o representante da AMB.

Variedade

Existem 54 especialidades, de acordo com dados da Demografia Médica no Brasil, estudo coordenado por Mário Scheffer, professor de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Anestesiologia, especialidade escolhida por Letícia, é uma das mais procuradas. Ocupa a quinta colocação no ranking do levantamento, com 23.021 títulos, o que corresponde a 6% dos especialistas do País.

Uma das áreas pouco conhecidas é a Medicina Preventiva e Social, ligada à Educação, porque forma professores e pesquisadores. Para se ter uma ideia, são apenas 1.863 títulos médicos, número que equivale a apenas 0,5% do total. “Isso porque houve uma transição, ela foi realocada. A Medicina de Família e Comunidade a substituiu na prática”, explica Scheffer.

“É uma especialidade que não é clínica. Forma administradores, gestores. O médico vira secretário de Saúde, coordenador de Vigilância Sanitária, professor, pesquisador. Antes, essa especialidade era para médicos de atenção primária (atendimento inicial). Agora, está mais voltada para administração de saúde pública, pesquisa e também docência. Tem pouca oferta, poucos programas.”

O médico Kenneth Camargo, doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Instituto de Medicina Social (IMS), também cita essa alteração nas duas especialidades e ressalta que a Medicina de Família e Comunidade, pelo seu aspecto prático, necessita de uma forte ação multidisciplinar.

“Tem de ser um trabalho muito mais interdisciplinar, que não envolva apenas o médico. (São necessários) até mesmo cientistas sociais, políticos e economistas para pensar essa questão da saúde. Doença não é um fenômeno só biológico. No Brasil, a moradia, por causa das condições insalubres, e a violência também são um problema de saúde pública”, comenta Camargo. “A qualidade de vida determina, de uma forma ou de outra, como o cidadão vive.”

Demanda

Soares, conselheiro do CFM, destaca que o desenvolvimento de determinadas especialidades está relacionado a dois fatores. “As especialidades têm um crescimento variável e estão vinculadas, basicamente, à evolução tecnológica, com maior conhecimento em determinadas áreas, e ao poder resolutivo que essa área vai conseguindo, o que a torna mais atrativa”, afirma.

Ele cita a Geriatria como uma área que pode aumentar o número de títulos nos próximos anos, pois há demanda. “Hoje, são necessários muito mais geriatras do que há 50 anos, porque temos muito mais idosos que antes. A população está vivendo mais”, diz o conselheiro do CFM. “E, acabando com determinadas doenças, muito mais gente sobrevive. Essas pessoas vivem mais. Podem vir novas especialidades ou o aprofundamento de outras”, conclui.

ESPECIALIDADES MAIS PROCURADAS

Total de títulos

1ª Clínica Médica: 42.728

2ª Pediatria: 39.234

3ª Cirurgia Geral: 34.065

4ª Ginecologia e Obstetrícia: 30.415

5ª Anestesiologia: 23.021

6ª Medicina do Trabalho: 15.895

7ª Ortopedia e Traumatologia: 15.598

8ª Cardiologia: 15.516

9ª Oftalmologia: 13.825

10ª Radiologia e Diagnóstico por Imagem: 12.233

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