FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Física Sonia Guimarães e médico Raul Cutait recebem o Troféu Guerreiro da Educação Ruy Mesquita

Prêmio reforça importância do compartilhamento do aprendizado através dos alunos dos homenageados

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 19h27

Primeira mulher negra a receber o Prêmio Professor Emérito - Troféu Guerreiro da Educação Ruy Mesquita, a física Sonia Guimarães, de 64 anos, professora do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), disse nesta quarta-feira em São Paulo que há uma mudança no cenário da participação feminina na ciência brasileira.  “O vestibular deste ano no ITA aprovou o ingresso de 17 meninas. No ano passado, foram quatro. É o recorde dos recordes”, alertou a cientista do ITA, de São José dos Campos, antes de receber o Troféu, edição 2021, criado em 1993 pelo Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE.

O Prêmio, concedido também ao cirurgião Raul Cutait, 71 anos, professor de medicina da USP, no ano passado, mas adiado pela pandemia, foi entregue nesta quarta-feira pelo diretor-presidente do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto, patrocinador do Prêmio, e pelo presidente do Conselho de Administração do CIEE São Paulo, José Augusto Minarelli.

 A abertura  do evento foi feita pelo CEO do CIEE, Humberto Casagrande. O CIEE atende 220 mil jovens em programas de formação profissional e tem uma fila de 1,7 milhão à espera de vagas no País. O indicado para o prêmio de Professor Emérito sai de uma lista anual de 40 indicados.

A física Sonia Guimarães agradeceu a premiação destacando que é apenas a quarta mulher indicada em 23 anos. A primeira foi a ex-primeira-dama, professora da USP, Ruth Cardoso, seguida por  Esther de Figueiredo Ferraz e Angelina Gama.  Os demais premiados foram todos homens: Luiz Décourt, José Pastore, Hélio Guerra, Antônio Candido, Paulo Vanzolini, Paulo Nogueira, Crodowaldo Pavan, Ives Gandra, Evanildo Bechara, Adib Jatene, José Cretella Júnior,  Delfim Neto, William Saad Hossne, José Goldemberg, Celso Lafer, Rubens Ricupero, Roberto Rodrigues, Fernando Henrique Cardoso e Paulo Nathanael Pereira de Souza.

“Nestes 23 anos, eu sou somente a quarta mulher. Vocês têm de pensar em colorir mais a premiação nos próximos anos”, disse a professora, dirigindo-se à organização. “E também não tem nenhum homem negro”, emendou, sob aplausos no auditório do CIEE, no Itaim, em São Paulo.

A professora disse ainda que a carreira dela deve servir de incentivo para as demais professoras. Ela lembrou do que chamou de “machismo e racismo” contra seu desejo de ensinar, e contou que teve de lutar para crescer na ciência. “Estou lisonjeada por ser a primeira mulher negra  a receber esse prêmio”, disse.

Sonia recordou que durante a formação foi vítima de racismo. “Uma mulher racista me disse: você nunca vai aprender física. Uma outra, que nem me permitiu me inscrever para uma bolsa de iniciação científica, disse: você nunca vai usar física para nada. Por que vou desperdiçar uma bolsa dessas com você?”, lembrou  a professora no discurso. “O machismo e o racismo me expulsaram do cargo de professora, com doutorado na Inglaterra, pelo seguinte motivo: você não sabe ensinar física e a tua roupa chama a atenção para o teu corpo”, acrescentou.

Segundo a física do ITA, ela foi expulsa para um instituto no qual não daria aulas, só faria pesquisas. “Querem saber o resultado das pesquisas”, perguntou à audiência. “Criei uma técnica para produzir sensores de radiação infravermelha que vão na cabeça do míssil que permite a ele ver o avião perseguido”, relatou. “Eu inventei  a técnica e consegui a patente”, afirmou. Sob aplausos, concluiu: “Agora, além de cientista, sou inventora. O que eu mais queria  era ver essa gente toda, que dizia que eu nunca iria aprender e nem usar física para nada, agora me ver recebendo o Prêmio de Professora Emérita - Troféu Guerreira da Educação”.

Educação e informação

De acordo com Francisco Mesquita, o Prêmio indica a relevância da educação e a importância do compartilhamento do aprendizado de Sonia Guimarães e Raul Cutait através de seus alunos. “Nunca foi tão importante que educação e informação andem de mãos dadas no País”, afirmou Mesquita. “Num mundo hiper conectado, a sociedade recebe informação o tempo todo. É grande oportunidade. Quanto melhor informados, melhor decidimos”, disse Mesquita. “Ao mesmo tempo, há campo fértil para a desinformação, tentativa de manipulação das pessoas por notícias falsas ou distorcidas”, alertou. Para ele, “o remédio está na fonte de informação de credibilidade, papel que nós do Estadão temos feito há 146 anos, na defesa dos valores da democracia e da livre iniciativa, que coincidem com os valores do CIEE. E na educação; uma sociedade educada para saber interpretar corretamente os fatos e decidir o futuro”, afirmou Mesquita.

No discurso, Cutait lembrou que iniciou a vida de professor lecionando física em cursinho. Acumulando dezenas de especializações médicas na carreira, dentro e fora do País, como destacou Minarelli no discurso de apresentação, o cirurgião criticou a expansão dos cursos de medicina no País nos últimos anos. Cutait citou a Cora Coralina para dizer “feliz é aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Dirigindo-se a representantes de entidades presentes ou em assistência remota, o cirurgião criticou a expansão de faculdades de medicina dos últimos anos. Segundo ele, o País subiu de 200 faculdades para cerca de 350 instituições. “O Brasil não precisa de tantos médicos. E nem tem docentes preparados para ensinar em tantas faculdades”, alertou. “Estamos falando da formação de incompetentes”, criticou. “Onde está o lado ético?”, questionou. Cutait acrescentou. “Maldosos dizem que isso é reserva de mercado. Não é. É preocupação com a qualidade do ensino médico”.  Para ele, é necessário aprimorar avaliações de desempenho e criar critérios  de qualidade do ensino da medicina.

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