Fim do vestibular beneficiará negros, diz reitor da UFRJ

O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aloisio Teixeira, voltou nesta segunda-feira a defender o fim do vestibular ao detalhar o estudo sobre a adoção de cotas para estudantes de escolas públicas, que enviou aos colegiados da instituição. Para o reitor, a reserva de 20% das 6.300 vagas oferecidas pela universidade já no final deste ano mudaria o perfil sócio-econômico e até racial dos alunos de cursos concorridos como Medicina.No entanto, ele afirma que os mais pobres só chegarão à universidade com o fim dos exames e o aumento do número de vagas, e não pelas cotas. "Se a universidade se democratiza, a questão racial será plenamente atendida. Qualquer coisa menos do que isso é uma proposta acanhada", disse.Ele é a favor de uma avaliação contínua durante o ensino médio e contou que já conversou com os reitores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para criar um projeto-piloto que eliminasse gradualmente os exames envolvendo pelo menos dois anos de avaliação dos alunos.Elite continuaNa contramão dos sistemas adotados pelas universidades estaduais do Rio e pela Universidade de Brasília (UnB), Teixeira rejeita o sistema de cotas para negros, que, na sua opinião, "continua a formar uma elite" dentro do número reduzido de universitários no Brasil.O reitor justificou o foco no ensino público com números. De acordo com o estudo da reitoria, 70% dos jovens concluem o ensino médio na rede pública do Estado do Rio, mas representaram apenas 37% dos aprovados no último vestibular da UFRJ. "Existe um desequilíbrio visível. Vemos que apenas 25% dos que se inscrevem são alunos da rede estadual. Há uma grande parcela que sequer se candidata", afirmou.O advogado Renato Ferreira, militante da ONG Educafro, que defende cotas raciais, criticou a proposta lembrando que alunos de colégios de aplicação (públicos) podem ser beneficiados com as cotas. "Aluno de Colégio de Aplicação não é excluído", lembrou. O reitor admitiu que esses alunos e os de escolas técnicas federais já têm índice de aprovação no vestibular quase duas vezes maior do que os da rede estadual.RecursosO reitor disse que a UFRJ não tem condições de atender o decreto 4.992 do governo federal, que estabelece a data de 31 de março para o empenho de todos os pagamentos do ano, como a contratação de serviços como telefonia, energia elétrica e mão-de-obra terceirizada.Segundo Teixeira, a universidade teria que empenhar cerca de R$ 70 milhões, mas a previsão de recursos para o ano é de R$ 53 milhões, dos quais R$ 11 milhões são receitas próprias. Se contar as despesas com material, manutenção de equipamentos e bolsas de alunos, o déficit é acrescido de R$ 17 milhões."Não questiono o decreto, mas ele mostra que as universidades não podem se ajustar às políticas da União. Todas terão problemas", afirmou Teixeira, que se encontrou com outros reitores em Brasília para pedir uma solução. "Precisamos de um crédito suplementar".

Agencia Estado,

22 de março de 2004 | 23h17

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