Filósofos não vivem de sonhos, mas sim de inquietações

Desde que tomou consciência de si, há milhares de anos, o homem iniciou a busca por respostas sobre sua origem e seu destino. Nessa jornada, rabiscou suas inquietações nas paredes das cavernas, apelou para o misticismo e abraçou a religião até chegar à Filosofia, única forma racional de procurar entender o destino do ser humano na face da Terra. ?A Filosofia começa com o espanto?, já dizia Platão, no século 4.º a.C.. Então, engana-se quem acha que a Filosofia é uma carreira para sonhadores, que vivem no mundo da lua. ?Para ser filósofo é preciso ser original?, acredita Sinomar Ferreira do Rio, estudante do 3.° ano do curso de Filosofia, da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), do câmpus de Marília da Unesp. ?Uma originalidade resultante de inquietações que surgem com a admiração e o espanto com as coisas simples e cotidianas, como o nascer e o morrer de uma planta, ou de coisas complexas, como uma rede de pensamentos de uma dada cultura.? O filósofo é alguém, portanto, que não se inquieta apenas com as questões existenciais do homem, mas também com os aspectos políticos, sociais e éticos da vida. Mas não só. ?Os alunos que optam pelo curso de filosofia têm interesse por assuntos atuais, comcomportamento social, ética, estética?, explica o filósofo Antônio Trajano Menezes Arruda, coordenador do curso de Filosofia da FFC. Ressalvadas as peculiaridades de cada faculdade ? são cerca de 70 cursos de graduação em todo Brasil ?, os estudos da Filosofia estão agrupados em quatro grandes áreas básicas: História da Filosofia; História da Arte, Estética da Arte e Lingüística; Ética e Filosofia Política; e Filosofia da Ciência, Lógica e Teoria do Conhecimento. Modernamente, a Filosofia está ligada também às questões práticas da vida em sociedade. ?É o caso da chamada ética prática?, diz Arruda. ?Um exemplo é a bioética (que surgiu com os avanços nas pesquisas genéticas, que levaram aos transgênicos). Há ainda as relações dos movimentos sociais com a ética. Temas como cidadania, direitos humanos, tolerância e pluralismo também são da alçada da Filosofia.? Segundo Arruda, todos esses temas passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas e a interessar os jovens a partir dos movimentos de redemocratização que ocorreram na América Latina ? Brasil inclusive ? a partir dos anos 80. O curso de Filosofia, pelo menos o da Unesp, foi um dos beneficiários dessas novas preocupações. ?Nos últimos dez anos, a procura por nosso curso cresceu cerca de sete vezes?, conta Arruda. Uma coisa é certa: quem procura o curso de Filosofia deve estar preparado para algumas exigências da carreira. A principal delas é o gosto pela leitura. ?Para cursar Filosofia é preciso gostar de bibliotecas?, diz o professor Franklin Leopoldo e Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (http://www.fflch.usp.br). ?O aprendizado de como fazer Filosofia se dá pelo conhecimento de sua história.? Os cursos normalmente têm quatro anos de duração e podem ser de bacharelado (prepara para carreira acadêmica) ou de licenciatura (forma professores para o ensino médio). Depois de formados, os novos filósofos tinham, até há pouco tempo, basicamente dois caminhos a seguir: ser professor ? de ensino médio ou universitário ? ou pesquisador. Recentemente, novos campos começaram a surgir. ?Há oportunidades para filósofos nas áreas de jornalismo e projetos em centros e espaços culturais e em editoras, por exemplo?, diz Silva. ?Outro mercado promissor é a área de saúde, onde o profissional pode atuar em comissões de ética de hospitais e escolas de medicina.

Agencia Estado,

24 de outubro de 2002 | 20h28

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