Rafael José da Silva/Facebook
Rafael José da Silva/Facebook

Filho de pedreiro e doméstica faz 'vaquinha' para intercâmbio em Harvard

Estudante de Medicina da USP, Rafael José da Silva tenta arrecadar R$ 50 mil para pagar hospedagem e alimentação em Boston

Marcone Tavella, Especial para o Estado

18 Outubro 2017 | 18h42

FLORIANÓPOLIS - Filho de pai pedreiro e mãe empregada doméstica, Rafael José da Silva, de 19 anos, percebeu ainda na adolescência que somente por seu esforço poderia realizar seus sonhos. Foi estudando por conta própria que foi aprovado aos 17 anos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), uma das mais conceituadas do País. Recentemente, foi selecionado em um concorrido intercâmbio na Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. Para conseguir pagar as despesas, o jovem iniciou uma vaquinha online para tentar arrecadar R$ 50 mil.

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O valor é destinado a custear a alimentação e a hospedagem nos Estados Unidos durante um ano. Para isso, criou uma campanha no site de arrecadação virtual Catarse. Em nove dias, ele já conseguiu quase R$ 22 mil. As doações serão encerradas no último dia do ano.

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Silva estudou a vida inteira em escola pública na cidade Blumenau, em Santa Catarina. A família sempre morou no mesmo bairro, onde ele fez o ensino fundamental e médio na Escola Estadual Santos Dumont e colecionou notas altas.

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"Sou muito grato aos meus pais. Eles não têm ensino superior, mas sempre me apoiaram a estudar. Chegavam em casa cansados e faziam os deveres de casa comigo", relembra Silva. "Sempre foram presentes e me ajudaram a ser disciplinado."

No início da adolescência, sua avó Olindina, a quem era muito apegado, foi diagnosticada com câncer. O sofrido processo familiar despertou no estudante a vontade de ser médico. Olindina morreu em 2013, mesmo ano em que o neto criou um método de estudo, já que pagar um cursinho era inviável.

"Organizei um cronograma de contraturno escolar e comecei a estudar todo conteúdo que conseguia gratuitamente na internet relacionado aos vestibulares", afirma Silva. "Também comecei a interagir virtualmente com alunos que estavam cursando Medicina, para entender o funcionamento dos métodos de ensino."

O universitário mora na Casa do Estudante de Medicina, um alojamento fornecido pela USP para pessoas em condições de vulnerabilidade social. Sua maior viagem, até agora, foi para São Paulo, já considerada sua segunda casa.

 

Intercâmbio

A confirmação da seleção em Harvard chegou no dia 27, em uma carta assinada pelo chefe do Center for Interdisciplinary Cardiovascular Sciences, Masanori Aikawa, que disse que gostou do perfil de Silva.

"O processo começou com uma carta de apresentação em que listei o meu histórico escolar e minhas experiências pessoais. Depois, passei por uma entrevista em inglês com um professor de Harvard", conta o universitário.

Em Boston, Rafael vai trabalhar em uma pesquisa na área de Cardiologia, sobre aterosclerose, que são desenvolvimentos de placas de gorduras nas artérias do corpo, que podem causar doenças como enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), causas de grande mortalidade no Brasil.

Voluntário

Além do estudo acadêmico, Silva participa de extensas atividades extracurriculares. Entre elas, é tutor no MedEnsina, um cursinho pré-vestibular voluntário organizado por alunos da FMUSP para ajudar jovens sem condições de bancar aulas privadas.

"Tenho como propósito ajudar estudantes em situações parecidas com a minha", diz o universitário.

Ele também se considera politizado e acredita na pesquisa como a mola propulsora para o desenvolvimento do Brasil.

"A pesquisa científica determina a velocidade que avança o conhecimento. Na medicina, permitiu aumentar a expectativa de vida em décadas, curar moléstias antes incuráveis, erradicar doenças que assolavam o mundo e aumentar a qualidade de vida das pessoas", explica. "Quando se investe em um pesquisador você está investindo na melhora das condições para todos."

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