Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Fies passa a motivar estudantes que fazem exame nacional

Financiamento estudantil agora requer nota mínima de 450 pontos no exame que começa hoje em todo o País

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 17h00

Até o começo do ano, a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não tirava o sono de quem pretendia tentar o Financiamento Estudantil (Fies). Bastava fazer a prova para concorrer ao empréstimo do governo federal para bancar a graduação. Com as novas regras do programa, candidatos agora precisam de ao menos 450 pontos nas provas objetivas do Enem – em 1 mil possíveis – e já fazem contas para saber se o desempenho será suficiente.

Além da média mínima nas provas objetivas – Linguagens, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza –, é obrigatório não zerar a redação para tentar o Fies. O governo justificou a mudança com a necessidade de melhorar a qualidade do ensino superior. As novas normas, porém, foram anunciadas em um cenário de restrição de verbas para o programa. 

“Essa mudança me pegou de surpresa. Fiquei um pouco assustada”, conta Gabriela Bovi de Oliveira, de 17 anos, no 3.º ano do ensino médio de uma escola estadual. Ela quer o financiamento para estudar Medicina Veterinária em uma faculdade privada em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Apesar do frio na barriga nas vésperas da prova, a jovem está confiante. “Em casa, consigo ter desempenho suficiente para tirar mais de 450 pontos. Não sei como será a nota no dia, com toda aquela pressão”, afirma. 

Segundo Gabriela, a exigência do resultado mínimo é injusta. “A pessoa já tenta uma particular porque não tem condições de entrar na universidade pública, em que a concorrência é grande”, critica ela, que passou esta semana estudando do início da manhã até as 22 horas. 

Em março, o Estado mostrou que a nota mínima atinge justamente os alunos mais pobres, o principal público do programa. Em 2012, por exemplo, 93% dos candidatos que não atingiram os 450 pontos no Enem eram de famílias com renda de até cinco salários mínimos. 

Fies. Também no 3.º ano do ensino médio de um colégio estadual, Sabrina Santos conta com o Fies para custear um curso de Administração em uma faculdade privada da capital, de quase R$ 2 mil mensais. “Minha mãe é diarista e banca tudo em casa sozinha. Não dá para ela pagar”, afirma a estudante, de 19 anos.

Em 2014, ela fez a prova como treineira e agora já sabe em que deve melhorar. “Fiquei com mais de 450 pontos em tudo, menos em Matemática”, diz Sabrina. “Neste ano, fiz cursinho e aprendi matérias que nunca tinha nem visto na escola.” 

Uma alternativa, preferida pelos estudantes ao Fies, é o ProUni, que dá bolsas em faculdades privadas, mas também é disputado. A universidade pública é um horizonte distante. “Nem me inscrevi na Fuvest (vestibular da Universidade de São Paulo) porque é muito difícil.”

Outras regras preocupam. Neste ano, o governo decidiu priorizar no Fies graduações nas áreas de Engenharia, Medicina e formação de professores. Também é dada preferência a cursos nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do País. “Como aqui em São Paulo tudo é concorrido, isso também me dá medo”, acrescenta Sabrina. 

A concorrência no Fies também passou a ser em sistema digital de seleção, em que leva vantagem quem tem melhor nota no Enem. Com isso, nos cursos mais prestigiados, a nota mínima para o financiamento é bem superior aos 450 pontos. 

Prejuízos. Para Alexandre Takata, coordenador do cursinho popular Maximize, as novas regras deixam os alunos mais atentos. “Mas só vão entender mesmo a nova realidade quando forem tentar o Fies.” 

A exigência ainda pode influenciar a postura do candidato. “Se ele ia mal no sábado, voltava desmotivado no domingo, pois sabia que a vaga pública ficava difícil. Agora, vale retornar com vontade, pelo menos para garantir a pontuação mínima do Fies.”

Nos locais de prova, era comum ver estudantes que saíam logo após abrirem os portões, porque faziam o Enem para tentar o financiamento, sem se preocupar com a nota. 

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