Raphael Calixto
Na sala de aula da PUC de Minas, cada aprendiz tem seu computador e pode acessar um simulador Raphael Calixto

Ferramentas digitais que aproximam as universidades da indústria

Simuladores, internet das coisas, big data e softwares diversos se tornam principais instrumentos de ensino nas faculdades

Vanessa Fajardo, especial para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

Big data, internet das coisas e inteligência artificial (IA) são algumas das ferramentas digitais que invadiram salas de aula dos cursos de Engenharia. As instituições de ensino tiveram de se adaptar às inovações tecnológicas em sintonia com a indústria, que passou cada vez mais a utilizar essas soluções em rotinas profissionais. "Desde 2012, as novas tecnologias digitais começaram a ser inseridas na indústria. Isso tem gerado um reflexo grande nas escolas de Engenharia, porque as metodologias de ensino não podem ser mais as das décadas de 1990 e 2000. A mudança vem acontecendo ao longo dos últimos sete anos e é muito dinâmica. É um desafio sincronizá-la ao ensino", explica Luís Henrique Santos, coordenador do curso de Engenharia Aeronáutica da PUC-MG.

Santos conta que mesmo os alunos iniciantes já têm acesso a tecnologias como big data e internet das coisas no curso, por meio de um projeto em que precisam fabricar uma aeronave em que os comandos são acionados pelo celular. "Ela precisa ser fabricada do zero, com asas e fuselagem; e o aluno tem de embarcar um dispositivo para 'conversar' com o celular. Pelo aparelho, ele liga o motor e aciona os comandos dessa aeronave. São as primeiras disciplinas em que se faz uso do big data."

Big data é o conjunto de técnicas e ferramentas que permitem a análise dos dados, que por si só são números e não geram informação. A internet das coisas, por sua vez, envolve sensores que enviam esses dados para a nuvem (ambiente digital) e permitem que os dispositivos conversem entre si. A inteligência artificial ocorre quando uma máquina consegue tomar decisões a partir da programação de algoritmo. 

No caso do projeto em que os alunos criam uma aeronave, os sensores mandam os dados para o software, que os trata e gera gráficos para entender como o avião está funcionando, se precisa de alguma manutenção, por exemplo. "São bases conceituais aplicadas em grandes indústrias. Grandes fabricantes de motores têm a mesma filosofia de funcionamento desse aviãozinho. Sensores mandam dados para a nuvem e os engenheiros nas bases conseguem avaliar e tomar decisões voltadas para o âmbito da manutenção. São tecnologias que conseguem fazer algo simples, mas ao mesmo tempo muito grande e relevante", complementa o coordenador da PUC-MG. 

Ainda dentro da Engenharia Aeronáutica, a tecnologia colabora com o uso dos simuladores, por meio de softwares. Santos diz que dessa forma consegue "colocar os alunos em frente a diferentes tipos de aeronaves", o que seria inviável se tivesse de ser feito no espaço físico. "A simulação permite navegar em um espaço muito grande, de uma forma simples. Na minha sala de aula, cada aluno tem seu computador, acessa o simulador e no 'Datashow' explico cada painel e sua especificidade. É um dinamismo muito grande."

Perto do real

Ana Paula Bacelo, coordenadora do curso de Engenharia de Software da Escola Politécnica da PUC-RS, afirma que as atividades desenvolvidas nos laboratórios permitem uma vivência próxima da realidade da indústria. "Muitos dos experimentos, totalmente controlados e instrumentados, possibilitam aos estudantes o tratamento dos dados e entendimento dos conceitos de forma integrada."

Mais do que projetar a realidade, esses instrumentos permitem que os estudantes construam conhecimento prático sem correr riscos. Simuladores possibilitam que alunos façam voos e explorem cavernas, no caso dos cursos de Engenharia de Minas, por exemplo. "A tecnologia está difundida nas mais diversas áreas: onde há riscos, a coleta de dados pode ser feita por robôs e dispositivos. Na Engenharia Civil, dá para usar sonda para fazer perfuração sem risco de furar uma estrutura, andar pela obra antes de construir, entender a luminosidade. Hoje não faz sentido ter Engenharia sem aplicações tecnológicas", diz Claudiney Vander Ramos, professor de Engenharia de Software da PUC-MG. 

Estudante consegue ir de 'usuário para desenvolvedor'

"Antes do curso, era usuário de tecnologia. Agora, consigo ver pela visão do desenvolvedor", diz Eduardo André Soares, de 22 anos, do 7.º semestre de Engenharia de Software. "Não penso só em como um app funciona, penso qual problema veio resolver, qual impacto vai ter no mundo, como essa tecnologia se diferencia das outras."

Focado na codificação de projetos, o curso, segundo Soares, mescla teorias mais acadêmicas com a abordagem moderna. Ele aprendeu algoritmos clássicos, desenvolveu trabalhos em Java e fez codificações em plataforma da Google.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Engenharia do futuro: humana e robô

Tendência de currículos de graduação e pós é multidisciplinaridade, que inclui até aulas para controlar medo de falar; e já é possível se graduar em Engenharia de Robôs

Ocimara Balmant e Vanessa Fajardo, especiais para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

Embora o Ministério da Educação reconheça mais de 40 graduações em Engenharia, cada uma com suas especificidades, a tendência é de uma formação multidisciplinar. "Por muito tempo, a preocupação era estritamente com a performance técnica, sem levar em conta a pessoa e o cidadão. As instituições focavam na formação de um profissional que era bom para resolver problemas complicados. Mas hoje ele precisa resolver problemas complexos. O complicado está dentro da sua área do conhecimento, mas o complexo envolve várias outras", afirma José Carlos de Souza Junior, reitor do Instituto Mauá de Tecnologia. "Na pós também acontece algo parecido: as novas tecnologias atraem profissionais que querem se reciclar e ter uma visão ampliada."

A formação multidisciplinar, na visão de Souza Junior, atende a uma necessidade do jovem da atualidade. "Hoje, não há mais a tradição de ser formado para o emprego e para uma profissão, porque as pessoas mudam de carreira. Cada ser humano é uma startup que pode pivotar de uma hora para outra, dependendo do caminho que toma." Dentro da grade curricular da Mauá, os alunos trabalham com projetos e atividades especiais que colaboram no desenvolvimento de competências socioemocionais. Entre elas, há opções como teatro, ioga e controle do medo de falar. 

Sem fronteiras

Gustavo Donato, reitor da FEI, concorda com a abordagem multidisciplinar. "Um engenheiro mecânico responsável pelo projeto de sistemas de mobilidade como veículos, aeronaves e até cadeiras de rodas não pode atuar sem competências e domínio de tecnologias de Engenharia Elétrica, Automação e Controle, Programação, Ciência da Computação e visão computacional (autônomos)", exemplifica. Para ele, a Engenharia está no centro quando "pensamos em soluções para o agronegócio e a segurança alimentar, saúde e bem-estar, energias limpas, água e saneamento, mobilidade segura e autônoma, manufatura digital, química verde, novos materiais ou biotecnologia". "Tudo passa por desenvolvimentos de Engenharia, devidamente articulados com outras áreas."

Além disso, a FEI lançou, em 2019, um curso inédito de graduação no Brasil: Engenharia de Robôs, que combina competências de computação, Inteligência Artificial, Engenharias Elétrica, de Automação e Controle, Mecânica, de Materiais, entre outras. O estudante Guilherme Nicolau Maróstica, de 22 anos, é um dos criadores do Robô Hera, do projeto RoboFEI, que existe desde 2003 com a proposta de criar robôs para competições mundiais. 

Com a RoboFEI, o estudante já viajou pelo mundo para participar de várias disputas de robótica, e não para de aprender. "Desenvolvemos um robô para auxiliar pessoas com baixa mobilidade. Dentro da liga são avaliadas diversas tarefas domésticas, como retirar o lixo da cozinha, tirar compras, encontrar coisas pela casa. Somos pentacampeões e nos tornamos uma referência mundial, pois há seis anos estamos entre as dez melhores equipes do mundo", comemora Maróstica. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cidades ainda são um desafio até para os cursos de Engenharia

Há poucas graduações e pós na área; no caso, a Engenharia Urbana se propõe a buscar soluções para um mundo em construção

Ocimara Balmant, especial para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

Caso se coloque em um gráfico quantos cursos de Engenharia Civil e Ambiental têm surgido no Brasil nos últimos anos, certamente será uma curva ascendente. Se em outro gráfico forem considerados os problemas das cidades, a curva também mostrará que a urbanização sem planejamento faz crescer continuamente mazelas. Então, certamente há algum ajuste a ser realizado na formação dos profissionais. 

Essa argumentação era a resposta que o idealizador do curso de Engenharia Urbana da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Romero César Gomes, dava a cada vez que era questionado sobre a criação desta que é a única graduação com esta nomenclatura no País. Cursos de pós-graduação no tema são mais comuns, mas é na cidade histórica de Minas Gerais onde estão os estudantes que serão os primeiros egressos dessa engenharia que se propõe a olhar as cidades de forma integrada.

"De forma geral, os cursos propõem uma visão técnica e de forma isolada. Enquanto a Engenharia Civil está mais ligada às questões estruturais, a Engenharia Ambiental tem o olhar direcionado às questões de saneamento", compara a coordenadora do curso, Aline de Araújo Nunes. "Na Engenharia de Cidades, estudamos como gerir a cidade de forma sistêmica. Não adianta termos vias asfaltadas para aumentar a mobilidade, se isso esmaga os cursos de água dos rios."

O curso começou em 2018 e agora já são cerca de 300 matriculados. A formatura da primeira turma acontece em 2023, e o mercado de trabalho já tem sinalizado que serão profissionais cobiçados. "O que a gente mais almeja é que estejam à frente da gestão das cidades, mas eles também têm atribuição técnica para atuar em projetos de saneamento, geotécnico de barragens, e podem ainda ser consultores, entre outros caminhos", diz Nunes.

Karinna Furst Ferreira não hesitou quando descobriu na Engenharia Urbana a possibilidade de realizar um sonho de infância. "Quando eu era criança, fazia placa de trânsito e usava para sinalizar o movimento da pracinha perto de casa. Era um prenúncio de como eu queria uma cidade que fosse mais sistêmica", conta. Estudante do oitavo semestre, ela se forma no próximo ano e já sairá da universidade com o diploma e um currículo cheio de estágios. Atualmente, estagia na Secretaria de Obras de Santa Luzia, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte.

Corrigir miopias

No interior do Estado de São Paulo, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) oferece o programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana desde 1994. São quase 30 anos de produção de pesquisa com o objetivo de integrar temas como planejamento urbano, saneamento, transportes e geotecnia às áreas de meio ambiente, habitação social e geoprocessamento. "A gente tem um perfil de estudantes composto em boa parte por gestores urbanos, gente que trabalha em Secretarias de Habitação e Desenvolvimento Urbano", diz o coordenador do curso, Erico Masiero.

Quanto à formação inicial, é muito diversa. Existe um porcentual grande de engenheiros civis e arquitetos, mas também há sociólogos, geólogos, biólogos e bacharéis em Direito. "Essa diversidade de formação acaba sendo uma grande vantagem para o que nos propomos a fazer, que é uma formação técnica humanizada", completa Masiero. Uma das linhas de pesquisa, por exemplo, é bastante voltada à discussão sobre transporte público e sustentável.

São trabalhos que focam como incorporar sistemas ativos de mobilidade em áreas consolidadas – o que inclui preocupação com sustentabilidade e segurança. São prioridades que se impõem nos países em desenvolvimento como o Brasil, onde se tem a convivência entre a cidade regular, formal, e a cidade clandestina e informal, com favelas e loteamentos irregulares.

Rio e conforto acústico

Arquiteta de formação, Maria Eugênia Fernandes, de 34 anos, estudou no mestrado como a forma urbana influencia no conforto climático. Ela avaliou quatro regiões da cidade de São Carlos – com arborização, calçamento e fluxo de carros distintos – de forma quantitativa e qualitativa. O resultado, após medições de temperatura e velocidade do vento e entrevista com moradores, mostrou que o ponto mais agradável era uma região de parque, com menos barulho e sombra de árvores.

No doutorado, Maria Eugênia está estudando conforto acústico. Agora está na fase de coleta de dados às margens do Rio Piracicaba, que cruza a região da cidade de mesmo nome, no interior paulista.

"Estou tentando investigar como o rio influencia na percepção de conforto acústico. Você tem o rio, o trânsito, pessoas passando, passarinhos. Essa mistura de fontes constitui uma paisagem sonora e eu quero entender como isso influencia a percepção dos usuários", conta ela. No fim deste ano, Maria Eugênia segue para fazer parte do curso na Itália. Na volta desse doutorado-sanduíche, termina e defende a tese e tem a intenção de trabalhar na gestão pública.

Ferramentas à disposição

Novas tecnologias digitais – como a inteligência artificial, big data e internet das coisas – podem ajudar a construir cidades inteligentes. Mas é preciso que isso seja uma política de Estado. "É sabido, por exemplo, que a maioria dos deslocamentos nas cidades é feita a pé, mas as calçadas não recebem o tratamento que é dado aos carros. Pessoas com deficiência, idosos, cadeirantes. Muita gente evita sair na cidade porque não é seguro. Tudo isso precisa ser revisto. O que envolve pesquisa, mas também um interesse político no País de rever prioridades", alerta Masiero.

Uma comparação comum, nesse sentido, é aquela que considera o Brasil e a Europa. Enquanto por aqui a Engenharia Urbana ainda engatinha – com apenas um curso de graduação e uns poucos programas oferecidos de lato e stricto sensu –, lá é uma das áreas mais clássicas e procuradas da Engenharia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Engenharia que salva vidas' usa 3D, dados, inteligência artificial e nanotecnologia

Profissional que une áreas de conhecimento ganha cada vez mais espaço em setores de inovação e na aposta feita por healthtechs

Vanessa Fajardo, especial para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

Se o engenheiro é um profissional habilitado a resolver problemas e planejar soluções, nas últimas duas décadas há um profissional específico para atuar com este intuito dentro da área da Saúde: o engenheiro biomédico. "É a engenharia que salva vidas. É o 'backstage da Medicina'. É quem desenvolve e conserta os equipamentos utilizados por médicos e enfermeiros", explica Patrícia Marcondes dos Santos, coordenadora da graduação em Engenharia Biomédica da Universidade do Vale do Paraíba (Univap).

Os engenheiros também atuam dentro dos centros cirúrgicos em casos de operações de média e alta complexidade, que utilizam equipamentos e dispositivos elétricos e eletrônicos. É da Univap o primeiro curso de graduação em Engenharia Biomédica do Brasil, inaugurado em 2001. A instituição possui um Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento com 50 laboratórios utilizados pelos estudantes da área. Além disso, há sete clínicas – Veterinária, Odontologia, Análises Clínicas, Fisioterapia, Enfermagem, Estética e Nutrição – abertas ao público. "Os alunos da graduação fazem a gestão de todo o parque tecnológico dessas clínicas. São cerca de 700 ordens de serviço por semestre, incluindo chamados para manutenção preventiva dos equipamentos ou calibração", diz ela. 

Vale também pensar em otimização de procedimentos. Atualmente, trabalha-se ali, por exemplo, no desenvolvimento de uma tecnologia que possa resolver a questão da bomba de vácuo responsável pela sucção do sangue e saliva em cirurgias bucais. Embora a atual seja eficaz e imprescindível, utiliza muita água, 800 ml por minuto.

Perfil

Segundo Patrícia, o perfil do aluno que procura pela graduação em Engenharia Biomédica é aquele que adora a área médica, mas não se vê operando um paciente, e ao mesmo tempo é apaixonado por tecnologia. "Sem tecnologia, não tem saúde", diz ela. 

Pela complexidade da missão, o engenheiro biomédico é um profissional bastante híbrido e diferenciado, na visão de Welbert Pereira, gerente de ensino e coordenador da graduação de Engenharia Biomédica do Einstein. "A depender do projeto, é preciso usar de modelagem matemática e computacional, seguida de construção de sensores e dispositivos mecatrônicos. Em outros cenários de problemas da saúde, a solução passa por engenharia de células com edição do DNA doente e construção de um órgão com bioimpressão 3D. Podemos ainda pensar numa inovação que reúne próteses de coluna com biomateriais avançados que se conectam a computadores. Enfim, a variedade e a diversidade das complicações de saúde exigem uma formação igualmente transversal."

Currículo

Para transitar nesse universo, o currículo do curso do Einstein traz disciplinas como Matemática, Física, Programação e Dados, Biologia, Anatomia e Fisiologia Humana, Biomecânica, Design, Manufatura e Instrumentação Biomédica. A partir do sétimo semestre, entram Biomecatrônica e Robótica, Engenharia de Células e Tecidos, Nanobiotecnologia e Inteligência artificial. 

"O domínio tecnológico é dificilmente alcançado por profissionais da assistência separados dos que atuam nas engenharias. E o mais interessante: a união desses dois mundos (Medicina e Engenharia) no profissional da Engenharia Biomédica é mais efetiva nos projetos do que colocar juntos médicos e engenheiros, cujas ciências e linguagens encontram barreiras que prejudicam criação e inovação. O engenheiro biomédico dialoga muito bem com as Exatas, as tecnologias, a Saúde e o mercado, e isso é também um diferencial", diz Pereira. Por isso, as oportunidades no mercado estão em expansão. "Há muito investimento em healthtechs, além de empresas de tecnologia criando e crescendo seus departamentos de saúde, indústrias farmacêuticas buscando novas formas de alcançar tratamentos e curas, grandes centros de diagnóstico inovando sensores, kits de autoteste e ferramentas, além da bioinformática."

Inspiração

Foi em uma healthtec que a engenheira biomédica Thaís Veriato, de 25 anos, conquistou seu primeiro emprego, depois de se dedicar por seis anos à pesquisa. Hoje atua como trainee no departamento de pesquisa e desenvolvimento da Bright, companhia que desenvolveu a fotocêutica, uma terapia customizada de fotobiomodulação que atua no tratamento de dores e inflamações musculoesqueléticas usando inteligência artificial. "Antes, ficava dentro de um laboratório criando coisas e fazendo testes, sem ter a visão de como chegaria ao paciente. Hoje, consigo acompanhar um procedimento com o uso do dispositivo, ver o funcionamento e avaliar possíveis pontos de melhoria", conta. "Minha conversa é com o aplicador, que manuseia o dispositivo, mas acompanho o relato dos pacientes e vejo o sentido do meu trabalho."

O gosto pela profissão foi despertado depois que a mãe, que possui uma insuficiência cardíaca grave, passou por uma cirurgia para a colocação de um marca-passo, um dispositivo eletrônico. Entre a equipe multidisciplinar que a atendeu, havia engenheiros biomédicos. Ao entender, na prática, a importância desse profissional, Thaís, que até então estudava Engenharia Mecânica, resolveu migrar de curso. 

"O marca-passo tem fios que são conectados ao coração e dão vida para a minha mãe. Se ela não o tivesse, poderia sofrer um impacto a qualquer momento. Sempre quis (na vida profissional) contribuir com a saúde de alguma forma. Minha mãe especificamente não vou conseguir ajudar, mas quero deixar algo para alguém no mundo", afirma a engenheira biomédica.

Olhar de gestão

O engenheiro que busca atuar em Saúde também pode optar por uma especialização em Engenharia Clínica, curso que prepara o profissional para atuar em instituições de saúde, tanto na administração das áreas de tecnologia médica quanto no gerenciamento do parque tecnológico. No Einstein, o curso tem como foco desenvolver entendimento da gestão das tecnologias médicas pela integração das disciplinas de Anatomia, Fisiologia e Instrumentação, em paralelo à apresentação ds ferramentas de suporte. 

Na Unyleya, a especialização em Engenharia Clínica visa a capacitar o discente para gestão de tecnologias e serviços em ambiente hospitalar e exibir as ações de biossegurança. Oferecida na modalidade a distância, a pós tem disciplinas como Equipamentos de Esterilização, Diálise e Centro Cirúrgico, Fundamentos de Ciências da Saúde e Instalações Hospitalares. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Quando tudo começa na educação básica

Alterações na BNCC permitem eletivas mais voltadas para o ensino superior; curso livre traz opções para todas as idades

Vanessa Fajardo, especial para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

O contato com a Engenharia pode começar muito antes do ensino superior. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de 2017, possibilitou uma flexibilização do currículo do ensino médio e inclusão de disciplinas eletivas. Dessa forma, em algumas escolas os adolescentes têm oportunidade de optar por áreas em que possuem maior interesse e afinidade. No Colégio Emilie de Villeneuve, em São Paulo, os estudantes que optaram pelos itinerários de Ciências Exatas e Ciências da Natureza podem cursar eletivas como Engenharia e/ou Automação. 

Em ambas têm a oportunidade de aprender mais sobre as habilidades e competências necessárias para atuação do engenheiro, realizar projetos na área e participar de encontros com profissionais. Na eletiva de Automação, por exemplo, os estudantes aprendem a linguagem de programação, princípios da eletrônica, entre outros temas. "Os projetos usam a interface do Arduino, onde se faz programação e automação. Os alunos desenvolvem vários projetos, como acender a luz por meio de um sensor, o que conversa bastante com a Engenharia da Computação", explica Marizilda Escudeiro de Oliveira, coordenadora do ensino médio.

No caso da disciplina de Engenharia, Marizilda conta que o objetivo é apresentar aos alunos como esse profissional trabalha, contemplando as 15 principais áreas das engenharias escolhidas nos vestibulares e os campos de atuação específicos. Embora novas profissões tenham surgido por causa do impacto tecnológico e mudanças do mundo contemporâneo, diz Marilza, as carreiras clássicas ainda são buscadas pelos adolescentes. "Há muito interesse do aluno por Engenharia e buscamos esclarecer alguns conceitos preestabelecidos para que faça uma escolha consciente do curso de ensino superior e se torne um profissional competente e feliz com sua decisão."

Aluno do último ano do ensino médio, Vitor Monteiro Coutinho, de 17 anos, quer estudar Engenharia Civil. O adolescente diz que as eletivas o ajudaram a tirar dúvidas e ter mais certeza sobre a escolha profissional. Ele já cursou eletivas como Automação, Ciência dos Cosméticos, Medicina e Engenharia – essa última por duas vezes. A recomendação da escola é para que os alunos não repitam as eletivas, até para poderem ampliar o repertório, porém a direção abriu uma exceção para Vítor. 

Na primeira experiência, ele conta que a eletiva abordou as Engenharias de forma ampla, o que contribuiu para entender as diferenças entre elas e compreender com quais tinha maior afinidade. Na segunda oportunidade, neste primeiro semestre do ano, o estudante disse que conseguiu se aprofundar mais no tema. E conta que desde criança se identifica com a área de Exatas: gosta de fazer projeções no quarto, montar e desmontar objetos e mexer com Lego. "As eletivas me ajudam a ter certeza da minha escolha. A escola foi aconselhando e fui pesquisando."

Cursos livres

Se a ideia for uma imersão ainda na infância, é possível encontrar cursos livres que garantem essa experiência. Uma das opções é a Engineering For Kids, empresa americana que tem mais de 170 unidades em 37 países. A única unidade do Brasil fica em São Paulo e atende crianças de 4 a 14 anos, em cursos regulares ao longo do ano letivo e atividades nas férias. Na faixa etária dos 4 aos 6 anos, o curso é focado no "engenheiro júnior", que aprende conceitos de Engenharia Mecânica, fabricando brinquedos, e princípios de Engenharia Química, fazendo experiências.

Dos 7 aos 10 anos, o programa é para "engenheiro aprendiz", com design de jogos e introdução à robótica. Por fim, os participantes com idade entre 11 e 14 anos, no "master", constroem foguetes e projetam soluções relacionadas à sustentabilidade de formas mais sofisticadas. Já entre as atividades de férias há opções como corrida de drones, robótica, programação de jogos e Minecraft. "A Engineering For Kids busca inspirar e encantar crianças", conta Rodrigo Oliveira Alhadeff, que é engenheiro de formação e fez carreira no mercado financeiro antes de empreender e abrir a escola. 

Ele diz que os cursos são procurados pelas famílias que estão interessadas no desenvolvimento de competências que vão ajudar as crianças na escola e, futuramente, no mundo do trabalho. "Para os engenheiros, é o sonho de plantar uma sementinha para que os filhos sigam sua carreira, ou que tenham melhor conhecimento sobre ela. Para não engenheiros e pais que seguiram carreiras de Humanas e Medicina/Biológicas, é uma forma de desmistificar a Matemática. Estes, muitas vezes sem querer criam em seus filhos barreiras com a Matemática por causa das próprias dificuldades."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Floresta com Araucária é a mais degradada'

Criador da Sociedade Chauá, Pablo Hoffman foi eleito no Prêmio Whitley como 'pioneiro em soluções para a crise de biodiversidade'

Ocimara Balmant, especial para o Estadão

11 de julho de 2022 | 05h00

O engenheiro florestal Pablo Hoffmann, de 43 anos, foi um dos eleitos em abril na mais recente edição do Prêmio Whitley como "pioneiro em soluções para a crise de biodiversidade". A premiação, concedida anualmente pela fundação britânica de mesmo nome, é uma das mais prestigiadas de preservação ambiental no mundo. Há 20 anos, Hoffmann e um grupo de amigos criaram a Sociedade Chauá, com o objetivo de preservar as espécies ameaçadas de extinção na Região Sul do País. "A Floresta com Araucária é o ecossistema mais degradado e o mais ameaçado de extinção no Brasil. Minha esperança é de que o prêmio internacional ajude a abrir os olhos da população."

Como surgiu seu interesse por Engenharia Florestal?

Venho de uma família rural. Aprendi com a minha avó a gostar de plantas. Quando fui prestar o vestibular da Universidade Federal do Paraná, achei um folder no meio do manual que falava sobre Engenharia Florestal. Uma parte do texto dizia: "Se você gosta de atividades ao ar livre e também gosta de um trabalho de escritório, esse curso é para você". Logo no início do curso, montamos um grupo e fomos fazer uma expedição de caiaque no litoral norte do Paraná. Já era um pessoal que gostava de Conservação e Botânica. Depois da formatura, em 2003, oficializamos como Sociedade Chauá. A conservação ainda é um caminho incomum, porque a Engenharia Florestal é bastante voltada para a produção de pinus e eucaliptos, inventário florestal e silvicultura.

Na Chauá, o olhar é voltado para espécies ameaçadas?

Isso. Começamos a construir um viveiro, um canteirinho. Daí nos empolgamos na busca por sementes e vimos que não havia mudas, sementes nem informação de como produzir. Se tornou o nosso desafio. Do viveiro com cinco espécies e mil mudas, hoje temos 215 espécies e 60 mil mudas. Hoje temos laboratórios, estrutura de germinação, irrigação automática. E é esse trabalho que as instituições internacionais reconheceram antes mesmo do que o Brasil. Nadamos há anos contra a corrente.

A corrente do agronegócio, sem viés ambiental?

Sim, e para mim é evidente que esse caminho de País é um suicídio. A população acredita que dá emprego, mas traz a miséria e não enriquece o País. Na Região Sul, a gente podia estar produzindo madeira nativa, erva-mate. Mas foi só na depredação. Por causa da ganância, do desejo de fazer as coisas rapidamente. Essa desvalorização é um processo de muitos anos na política brasileira, mas agora só piorou. Nossa obsessão é seguir nadando contra a corrente.

Como vocês fazem isso?

Além do trabalho prático da conservação das espécies raras e ameaçadas de extinção, o que a gente tenta fazer é engajar as pessoas com ideias. Promovemos cursos, conversamos com estudantes da universidade, organizamos visitas técnicas, workshops. Porque, na verdade, há muito espaço para geração de conhecimento e de negócios. Muita pesquisa científica pode ser feita, seja com árvores ornamentais, medicinais, alimentícias. Isso pode gerar sustento para o Brasil, recursos econômicos. Fora a parte de biodiversidade, que a gente nem sabe mensurar.

Não se fala menos do que se deveria sobre Floresta com Araucária?

Os olhares estão voltados para o Cerrado e a Região Amazônica, e a Floresta com Araucária é o ecossistema mais degradado e o mais ameaçado de extinção. Minha esperança é de que o prêmio internacional ajude a abrir os olhos da população. Atuar com conservação é ser resiliente. Acreditamos que ainda dá para mudar o mundo. Mesmo que em pequenas doses, há esperança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.