Farta oferta de vagas em universidade deixa cursinhos vazios

Uma grave crise assola os cursinhos pré-vestibulares do Rio. A crescente oferta de vagas em universidades particulares, com exames mais fáceis do que os das públicas, tem feito com que os alunos dispensem a preparação especial. Com isso, cursos tradicionais cariocas, como o Miguel Couto e o Bahiense, em funcionamento há mais de 40 anos, têm perdido cerca de 30% das matrículas a cada ano. Alessandro Varella, de 22 anos, que cursa Publicidade na UniverCidade, conta que, ao terminar o ensino médio, nem pensou em entrar em um pré-vestibular. Não porque se sentisse suficientemente preparado, mas por ter certeza de que passaria mesmo sem estudar. "A prova daqui é simbólica. É só para dizer que fez", afirma. "É muito fácil, só múltipla escolha. Não tinha necessidade de pagar cursinho. Isso é para quem quer passar para a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)." O colega Bruno Cardoso, de 27 anos, tem a mesma opinião. Ele mora em Niterói, perto do campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), mas não cogitou tentar o concorrido concurso da instituição. "Lá tem 50 candidatos por vaga. Para que eu iria me matar de estudar, se não iria passar mesmo?", diz Bruno, que leva uma hora para chegar à faculdade, na Lagoa, zona sul do Rio. Nos anos 70, fase áurea dos cursinhos, o Miguel Couto chegou a contabilizar 7 mil estudantes; hoje, tem metade. No Bahiense, que existe há 50 anos, o total de matriculados chegou a quase 5 mil. Atualmente, são 900. A retração foi tamanha que duas das cinco unidades fecharam em julho - a arrecadação era insuficiente até para o pagamento do aluguel dos imóveis. Com menos alunos, o quadro de professores também tem sido reduzido. Formação consistenteHá 35 anos acompanhando vestibulandos, o coordenador do Miguel Couto, Élcio Gomes, acha que muitos jovens não se dão conta da importância de uma formação consistente. "O que adianta fazer faculdade ruim e não conseguir entrar no mercado? As pessoas ficam deslumbradas com essas universidades sem excelência e a ficha demora a cair. Felizmente, ainda há quem não pense assim.""Universidade federal só tem nome, está tudo caindo aos pedaços. Tudo bem que elas investem mais em pesquisa, mas os professores são os mesmos", acredita Bruno. Ele não acha que terá menos chances profissionais do que se tivesse um diploma de uma universidade pública. Já Alessandro, apesar da opção que fez, discorda: "É claro que, numa disputa por um emprego, eu perco para quem fez UFRJ." Violência"Tem faculdade que cobra R$ 200 de mensalidade, enquanto o cursinho custa R$ 300", diz Eduardo Bello, diretor do Bahiense. Para ele, no caso da UFRJ, um outro fator que contribuiu para a definição deste quadro é a violência. "A família que mora na Barra da Tijuca e na zona sul não quer que o filho cruze a Linha Amarela para chegar ao Fundão (bairro onde fica a UFRJ)." Segundo professores, quase a totalidade dos jovens que continuam nos cursinhos sonha com uma graduação numa instituição pública. "Eu quero estudar na UFRJ, então tenho de me dedicar mesmo", conta Ana Carolina Meinerz, de 17 anos. Ela se prepara no curso GPI - que também tem perdido alunos, embora mais discretamente. De acordo com a instituição, a saída maior é entre os candidatos a vagas de carreiras menos disputadas. "Muita gente se satisfaz com pouco. Junta uma certa preguiça com as facilidades oferecidas por essas particulares."Há três anos, quando decidiu ingressar na faculdade de Jornalismo, Mayra França, de 22 anos, não quis se esforçar tanto. "Eu tinha pressa, sabia o que queria e não podia perder um ano num cursinho. Além do mais, nunca fui muito estudiosa." Mesmo "sem estudar nada", Mayra passou em sexto lugar no vestibular da Estácio de Sá. A seis meses da formatura, ela se arrepende. "Não consigo estágio", lamenta. "Estou ficando apavorada."

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